Reganho de peso é maior após uso de GLP-1? Entenda

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Reganho de peso é maior após uso de GLP-1? Entenda

Um dos maiores receios de quem passa por um processo de emagrecimento é engordar novamente. Infelizmente, essa é uma realidade muito frequente, especialmente em indivíduos com obesidade, uma doença crônica, progressiva e recidivante, o que torna seu controle difícil no longo prazo — seja qual for o método usado para emagrecer. 

Sem ações contínuas para manter o peso perdido, o número na balança certamente voltará a subir. Mas por que tamanha insistência do corpo humano em recuperar o peso? A explicação é fisiológica.

 

O que está por trás do reganho de peso

O reganho de peso está associado a diversas adaptações fisiológicas e compensatórias do organismo. De forma resumida, o corpo humano encara a perda de gordura como uma ameaça à sobrevivência, ativando mecanismos biológicos de defesa para recuperar a energia perdida. 

“Existe uma ‘adaptação metabólica’, ou seja, a taxa metabólica (o quanto o corpo gasta de calorias para se manter) despenca de forma desproporcional ao peso perdido. O organismo passa a gastar menos calorias para realizar as mesmas funções”, explica Marcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP) e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Além disso, ocorrem alterações hormonais importantes. O nível de leptina (hormônio da saciedade) cai, e o de grelina (hormônio da fome) sobe. Peptídeo YY e GLP-1, hormônios também ligados à saciedade, assim como a insulina, também diminuem após o emagrecimento. O resultado é um aumento do apetite.

“Essas alterações hormonais persistem por pelo menos um ano após a redução de peso e podem permanecer indefinidamente, promovendo ativamente o reganho. O hipotálamo, estrutura do sistema nervoso central, funciona como um coordenador, integrando todos esses sinais para regular simultaneamente a ingestão e o gasto energético. Após a perda de peso, esse sistema passa a operar de forma coordenada para defender o peso anterior”, complementa Pedro Barreto, endocrinologista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP).

Existem ainda fatores ambientais envolvidos nessa equação, como ampla disponibilidade alimentar, consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, estresse e privação de sono. Segundo Barreto, esses fatores interagem com a predisposição genética e com as adaptações fisiológicas, dificultando ainda mais a manutenção do peso.

Veja também: Por que emagrecer é tão difícil? Entenda a ciência por trás da obesidade

 

Medicamentos, cirurgia ou dieta: há diferença no reganho?

Sim, a estratégia usada para emagrecer faz bastante diferença no possível reganho de peso posterior. “Entender isso ajuda a combater uma ideia equivocada muito comum: a de que recuperar peso significa ‘falta de força de vontade’. Na prática, o que a ciência mostra é que o organismo reage de maneiras diferentes conforme a magnitude da perda de peso e o tipo de tratamento utilizado”, afirma Barreto.

Entenda as diferenças: 

 

Mudanças no estilo de vida isoladas

Perdas de peso baseadas apenas em mudanças de estilo de vida — como dieta, exercício físico e acompanhamento comportamental — tendem a ser mais modestas, geralmente entre 5% e 10% do peso corporal.

“Isso já traz benefícios importantes para a saúde metabólica, a pressão arterial, a glicemia e a qualidade de vida. Mas, sem manutenção estruturada e acompanhamento contínuo, o reganho tende a acontecer ao longo do tempo. Ainda assim, como a perda inicial costuma ser menor, os mecanismos biológicos de defesa contra o emagrecimento também são menos intensos”, detalha Barreto. 

Porém, Mancini alerta que quando a pessoa faz uma dieta muito restritiva, especialmente se restringe drasticamente a quantidade de carboidrato, o reganho é frequente e rápido, devido à redução abrupta no metabolismo basal e a perda de massa muscular. 

 

Medicamentos GLP-1 e GIP

Os medicamentos mais modernos para tratamento da obesidade atualmente são os análogos de GLP-1 e GIP (semaglutida e tirzepatida). Segundo Barreto, eles geralmente promovem uma perda de peso mais expressiva (entre 15% e 25% do peso corporal), já que atuam diretamente nos centros de fome e saciedade, reduzindo o apetite. 

“Enquanto o tratamento é mantido, os resultados costumam ser bastante consistentes. O desafio aparece após a interrupção. Estudos mostram que parte importante do peso perdido pode ser recuperada relativamente rápido quando a medicação é suspensa.”

Isso ocorre porque, sem a medicação, o organismo volta a ativar intensamente os mecanismos biológicos que tentam restaurar o peso anterior.

Então, os remédios não funcionam? 

“Pelo contrário: eles funcionam justamente porque conseguem bloquear temporariamente esses mecanismos compensatórios. Quando o tratamento é interrompido, essa proteção farmacológica desaparece, mas a biologia que favorece o reganho permanece ativa. Hoje, a obesidade é entendida como uma doença crônica, e muitos pacientes podem precisar de tratamento prolongado, da mesma forma que ocorre com hipertensão ou diabetes”, explica o médico. 

É só usar a mesma lógica de um medicamento para pressão alta, por exemplo: ao usá-lo, a pressão arterial é reduzida. Ao interrompê-lo, ela volta a subir. O medicamento não cura a doença: ele age enquanto está sendo utilizado

Veja também: Medicamentos para perda de peso: indicações, diferenças e riscos do uso inadequado

 

Cirurgia bariátrica

A cirurgia bariátrica continua sendo o método com resultados mais duradouros

“Depois de cirurgia bariátrica, o reganho tende a ser mais tardio, depois de 2 a 5 anos, por mudanças na anatomia do trato digestivo, adaptações metabólicas e retorno a antigos hábitos”, detalha Mancini.

Barreto explica que, além da perda de peso geralmente mais intensa, frequentemente acima de 25% do peso corporal, o procedimento promove alterações anatômicas e hormonais permanentes, que ajudam a contrabalançar parte dos mecanismos de reganho. 

“Mesmo assim, algum grau de recuperação de peso pode ocorrer ao longo dos anos, especialmente sem seguimento médico, atividade física regular e cuidado nutricional contínuo.”

 

Acompanhamento contínuo é fundamental

A manutenção do acompanhamento médico e multiprofissional é essencial para indivíduos com obesidade, mesmo depois do emagrecimento, justamente por se tratar de uma condição crônica.

“A obesidade não possui uma cura definitiva, exigindo monitoramento constante para gerenciar possíveis deficiências nutricionais que são comuns após bariátricas ou dietas muito restritivas, manejar efeitos colaterais das medicações e ajustar conforme a necessidade as doses das medicações”, afirma Mancini. 

Ele destaca ainda que o suporte regular ajuda o paciente a sustentar as modificações de estilo de vida, impedindo o avanço natural da doença e lutando contra o reganho. 

“Pacientes acompanhados regularmente apresentam melhores taxas de manutenção de peso, melhor controle metabólico e maior adesão às estratégias terapêuticas. Quando o suporte profissional é interrompido, o reganho tende a acontecer com muito mais frequência”, completa Barreto. 

Veja também: A obesidade é uma condição crônica – DrauzioCast #254



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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