Com a chegada do frio, os casos de infecções respiratórias aumentam, em especial nas crianças e idosos. Diante de um quadro com sintomas respiratórios, é comum que pais utilizem xaropes para tosse.
No entanto, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) não recomenda esses medicamentos sem prescrição médica.
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“A primeira coisa importante é entender que a tosse não é uma doença, mas um sintoma. É um mecanismos de defesa do corpo, principalmente nos resfriados e viroses comuns, com objetivo de eliminar secreções e proteger as vias respiratórias”, explica Paulo Telles, médico pela SBP.
Desse modo, nem sempre o objetivo deve ser parar a tosse. O importante é descobrir a causa para então tratá-la, se necessário.
Xaropes para tosse
A tosse pode ser sintoma de outras condições, como alergia, sinusite, asma, bronquiolite, pneumonia ou refluxo.
Além disso, existem vários tipos de xaropes para tosse. Alguns tentam diminuir o sintoma, outros ajudam a soltar secreção, e alguns misturam diferentes substâncias.
Os que visam interromper a tosse seca não produtiva (sem catarro), contêm drogas antitussígenas para refrear o reflexo da tosse, como levodropropizina, dextrometorfano ou dropropizina. Algumas dessas drogas podem causar efeitos colaterais como palpitações cardíacas, dor abdominal, sonolência ou fraqueza muscular e até intoxicação por uso inadequado.
Os xaropes expectorantes, indicados para a tosse produtiva, utilizam drogas como acetilcisteína, ambroxol e guaifenesina, que também podem causar efeitos colateriais como náuseas, vômitos, sonolência, tontura, entre outros.
“Na prática, esses medicamentos só devem ser considerados em casos específicos e sempre após avaliação médica. Para crianças pequenas, especialmente menores de 4 a 6 anos, as principais sociedades médicas não recomendam o uso de xaropes para tosse” diz Telles.
A pneumologista Elnara Negri, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP), disse em entrevista ao Portal: “Seja qual for sua composição, os xaropes quando utilizados como automedicação, sem o conhecimento da causa da tosse a ser aliviada, podem trazer efeitos colaterais de grande impacto”.
Pouca evidência
Há uma ampla literatura científica a respeito da baixa qualidade de evidências acerca dos medicamentos para a tosse vendidos sem prescrição médica. Algumas revisões se debruçam, inclusive, sobre a relevância do efeito placebo no tratamento da tosse com essas medicações.
Uma revisão sistemática publicada em um periódico da revista britânica British Journal of Medicine (BMJ) mostrou que medicamentos pediátricos para a tosse não eram mais efetivos que um placebo no alívio da tosse aguda.
Daniel Deheinzelin, também pneumologista do Sírio-Libanês, explicou em entrevista ao Portal: “Na verdade, existem diferentes tipos de xarope. Os mucolíticos, que tornam o muco mais fluido, têm eficiência muito pequena. Os broncodilatadores são mais eficientes para alguns casos de tosse, pois ajudam a abrir os brônquios para eliminar o muco acumulado. O terceiro tipo contém drogas que agem no sistema nervoso central e inibem o reflexo da tosse. São xaropes com base de codeína, normalmente derivados de morfina. Esses de fato funcionam, mas tratam da consequência e não da causa da tosse. Por isso, indico pouco o uso de xaropes”.
Em crianças, as evidências são ainda mais limitadas. “Os antitussígenos são remédios usados para diminuir o reflexo da tosse. Mas, em crianças, o uso deles é bastante limitado. Na maioria dos casos, a tosse acontece por causa da secreção nas vias respiratórias, e não existem evidências robustas que justifiquem seu uso”, afirma Telles.
Como tratar a tosse?
Segundo Telles, os pais devem procurar atendimento médico se a criança apresentar falta de ar, esforço para respirar, lábios arroxeados, muito cansaço ou sonolência, febre por mais de 72h, piora do estado geral, chiado forte, dor no peito, tosse após engasgo, sangue no catarro, tosse em bebês pequenos ou tosse que dura mais de 3 a 4 semanas.
As principais orientações, ainda de acordo com o pediatra, são:
• Oferecer bastante líquido, porque isso ajuda a deixar as secreções mais fluidas.
• Fazer lavagem nasal com soro fisiológico, principalmente quando há nariz entupido ou coriza.
• Deixar a criança mais confortável para dormir, mantendo a cabeceira um pouco elevada quando possível.
• Usar mel apenas para crianças maiores de 1 ano, especialmente à noite, pois pode ajudar na tosse noturna. Nunca oferecer mel para bebês menores de 1 ano por risco de botulismo.
• Evitar fumaça de cigarro, cheiros fortes, poluição e automedicação.
• Qdo possível fisioterapia respiratória pode ajudar
“Xarope não é solução para toda tosse. Em muitas situações, ele pode trazer mais riscos do que benefícios. O mais importante é identificar a causa da tosse, aliviar os sintomas com medidas seguras e ficar atento aos sinais de alerta”, finaliza Telles.
A hidratação, por sua vez, é fundamental para ajudar no controle da tosse. “O xarope tem muito poucas indicações. O mecanismo fundamental para tratamento da tosse é a hidratação do muco. Quanto mais fácil for eliminá-lo, mais depressa a tosse vai desaparecer”, explicou Deheinzelin.

