Escrever sobre o PIB do Brasil dá um pouco a sensação de estar no meme do cachorro que toma café enquanto um incêndio toma conta do ambiente. Sim, seria mais do que exagero dizer que a casa pega fogo. Mas a ilusão quase otimista com números ainda medianos nubla o fato de que, por ora, evitamos apenas queda abaixo da mediocridade e de que a casa precisa de reforma grande, que não está à vista.
“Estou bem com o que está acontecendo no momento”, diz Question Hound, o cão, quando as labaredas chegam perto. “Tudo bem, vai ficar tudo bem”, ele insiste, logo antes de seu rosto derreter no fogaréu. O quadrinho, publicado em 2013, de KC Green, virou meme para desconsideração de situações que vão do perigo ao desastre.
A economia voltou a crescer em ritmo melhorzinho no primeiro trimestre deste 2026, segundo os dados do IBGE. Ok. E em perspectiva menos curta?
O PIB cresceu 2% nos últimos quatro trimestres (2% no “ano” encerrado em março). Essa taxa anual desacelera desde o primeiro trimestre de 2025, quando era de 3,6%.
No caso do consumo privado (“das famílias”), o crescimento em quatro trimestres foi de 1,2% (ante o pico de 5,1% no quarto trimestre de 2024), o que talvez diga alguma coisinha a respeito da popularidade de Lula 3. O investimento “produtivo” volta a cair pelas tabelas, rumo a zero de crescimento.
Sim, sob Lula 3, mesmo apesar dos pesares, o PIB cresceu bem mais do que previa “o mercado”, com resultado ainda mais imprevisto no emprego.
Sim, qualquer economia passa por ciclos, afora exorbitâncias chinesas. No nosso caso, não é bem ciclo, mas exaustão de um exagero. PIB deve crescer 2% neste ano; per capita, perto de 1,5%. De 1996 a 2025, o PIB cresceu 2,3% ao ano; per capita, 1,2%. É muito pouco para sairmos da pobreza remediada, se tanto.
A economia ficou deprimida de 2015 a 2019; depois, epidemia. Lula 3 fez bem em dar algum impulso fiscal, remédio para depressão. Sem falar em problemas de longo prazo e descuido com fundamentos, exagerou na dose, o que contribuiu para a alta de juros e outros desânimos (descréditos), o que nos trouxe de volta à mediocridade e ao risco de incêndio. Remediada, mas com sequela: dívida pública enorme e crescente e Orçamento esgotado, o que só se resolve com aposentadoria profunda, corte de gastos para alguns e aumento de impostos para outros. Vai dar briga.
A taxa de investimento (“produtivo”) anda ainda mais baixa, a menor do século fora o tempo de Covid e do 2016 da depressão. Não está tudo lá nos números do PIB, mas a economia de um modo ou outro depende de agropecuária, petróleo e ferro para sobreviver; a produtividade de outros setores não cresce.
Talvez o PIB cresça um tico mais neste ano. Lula 3 inventou medidas de aumento de crédito de mais de R$ 100 bilhões para este 2026. O crédito minguava por causa de juro alto e inadimplência, estresse causado também por exageros de estímulos de Lula 3. É circular, artificial, exagerado e, enfim, contraproducente.
Difícil haver reprise do desastre de Dilma Rousseff, mas um cão atento sabia que não “estava tudo bem” em 2014 —na verdade, já havia fogo. Nosso risco maior agora é de mediocridade a perder de vista ou de explosão detonada por fator externo, fora uma crise derivada de disputas sociais e políticas, em especial sobre o Orçamento, ou conflito por reformas econômicas.
Não, não está pegando fogo. Nem tudo vai ficar bem.
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Fonte: Folha SP

