Doença celíaca: retirada do glúten é a única forma de tratamento

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Doença celíaca: retirada do glúten é a única forma de tratamento

A doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. Nelas, o glúten — proteína encontrada no trigo, centeio, cevada e derivados — causa uma reação inflamatória no intestino delgado que pode comprometer a absorção de nutrientes. 

O problema pode surgir em qualquer idade, inclusive na fase adulta. Os sintomas mais conhecidos incluem diarreia crônica, distensão e dor abdominal, perda de peso e gases. Mas a doença também pode se manifestar de outras formas.

“Muitos pacientes apresentam sinais menos óbvios, como anemia por deficiência de ferro, osteopenia ou osteoporose precoce, aftas de repetição, fadiga, infertilidade, alterações de humor, enxaqueca ou dermatite herpetiforme, que é uma manifestação cutânea típica. Esse é um ponto importante: a doença celíaca nem sempre dá sintomas intestinais intensos”, explica Áureo de Almeida Delgado, gastroenterologista, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e do Instituto Brasileiro para Estudo da Doença Celíaca (Ibredoc).

 

Como é feito o diagnóstico da doença celíaca

Os sintomas da doença celíaca podem se confundir com os de outras condições que afetam o aparelho digestivo, como síndrome do intestino irritável, gastrite, intolerâncias alimentares e doença inflamatória intestinal, por exemplo. Por isso, fazer o diagnóstico correto é fundamental. 

A partir da suspeita clínica, são solicitados exames de sangue específicos (como anticorpo anti-transglutaminase tecidual IgA, dosagem de IgA total e, em alguns casos, anti-endomísio ou exames complementares), que vão indicar a presença de anticorpos em resposta ao glúten, o que sinaliza que há uma reação autoimune do organismo. 

“Se houver deficiência de IgA, adaptamos a investigação com outros marcadores. Na maioria dos adultos, a confirmação é feita por endoscopia digestiva alta com biópsias do duodeno, que avaliam se há atrofia das vilosidades intestinais. Em situações selecionadas, exames genéticos HLA-DQ2 e HLA-DQ8 ajudam, principalmente para excluir a doença quando há dúvida diagnóstica”, detalha o especialista.

Um erro comum dos pacientes é retirar o glúten por conta própria antes da investigação. “Isso pode normalizar exames e dificultar ou atrasar o diagnóstico. O ideal é investigar consumindo glúten regularmente, sob orientação médica”, recomenda.

Veja também: Doença celíaca pode demorar até 7 anos para ser diagnosticada no Brasil

 

Tratamento da doença celíaca exige exclusão total do glúten

A doença celíaca é crônica, ou seja, até o momento não há cura. “Porém, tem controle altamente eficaz: com dieta rigorosamente sem glúten, a inflamação regride, o intestino cicatriza e a pessoa pode ter excelente qualidade de vida”, afirma o médico.

Na prática, é necessário excluir da alimentação trigo, cevada, centeio e alimentos derivados. A aveia merece atenção especial: embora naturalmente não contenha glúten, com frequência há contaminação cruzada durante o processamento. Assim, só deve ser consumida quando certificada e individualmente orientada.

Delgado destaca que não existe “dia do lixo”, exceção no fim de semana ou pequena quantidade segura de glúten para indivíduos com doença celíaca, pois mesmo ingestões mínimas podem reativar a inflamação intestinal, às vezes sem sintomas imediatos.

“Quando a dieta é corretamente seguida, o intestino tende a se regenerar e muitos sintomas melhoram de forma expressiva. Mais do que ‘tirar pão e macarrão’, o tratamento envolve aprender a comer com segurança”, explica.

Há ainda outros cuidados indispensáveis, como manter acompanhamento médico e nutricional, realizar exames para checar possíveis deficiências nutricionais e evitar a contaminação cruzada (utensílios compartilhados, torradeiras, superfícies contaminadas e preparações aparentemente inocentes podem conter glúten). Também é importante manter a vacinação em dia, rastrear doenças autoimunes associadas e ter atenção ao impacto emocional e social causado pela restrição na dieta. 

 

Parar de consumir glúten faz sentido para quem não é celíaco? 

É comum nas redes sociais conteúdos recomendando dietas sem glúten para emagrecer ou “desinflamar”. Porém, para quem não tem doença celíaca ou sensibilidade relacionada ao glúten, retirá-lo da alimentação não é sinônimo de saúde. 

“O emagrecimento que algumas pessoas observam geralmente acontece porque passam a reduzir ultraprocessados, pães, massas, biscoitos e excessos calóricos — e não porque o glúten, por si só, engorde ou cause inflamação generalizada. Existe hoje uma tendência de demonizar nutrientes isolados, mas saúde metabólica depende muito mais do padrão alimentar global, qualidade do sono, atividade física e manejo do estresse”, alerta o médico.

Além disso, de acordo com o especialista, dietas sem glúten mal planejadas podem ser pobres em fibras, vitaminas do complexo B e mais caras, além de levarem a uma relação desnecessariamente restritiva com a comida.

“Portanto, não recomendamos a exclusão de glúten como moda. Recomendamos investigação quando há sintomas, e individualização da dieta quando existe diagnóstico claro. Em medicina, retirar sem motivo pode parecer solução simples — mas simplificações costumam custar caro”, conclui. 

Veja também: Dieta anti-inflamatória existe ou é apenas um mito?



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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