Oscilação de peso, episódios de vômito depois das refeições, dentes desgastados. Para quem está de fora, os sinais da bulimia nervosa podem parecer sutis ou até invisíveis. Mas quem convive com a condição acumula danos que vão muito além da relação problemática com a comida.
A bulimia não é apenas um transtorno alimentar. Trata-se de uma doença com repercussões físicas potencialmente graves, podendo comprometer dentes, garganta, sistema digestório, coração e rins ao longo do tempo.
Para Juliana Costa, gastroenterologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, a gravidade da condição precisa ser compreendida em toda a sua extensão: “A bulimia deve ser encarada como uma condição médica que necessita de acompanhamento multiprofissional e tratamento especializado”.
O que acontece no corpo a curto e longo prazo
No início, os sinais da bulimia costumam ser atribuídos a outros problemas.
“O vômito provocado repetidamente causa um desgaste importante no organismo. Isso acontece porque, junto com o conteúdo do estômago, o corpo perde água, ácido gástrico e minerais essenciais, como potássio e sódio”, explica Lilian Amorim, gastroenterologista do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.
Segundo a especialista, no curto prazo, isso pode levar a desidratação, fraqueza, tontura, câimbras, sensação de desmaio e alterações no ritmo do coração. Muitas pessoas também apresentam dor de garganta, refluxo, queimação e aumento das glândulas salivares, principalmente na região das bochechas.
Com o passar do tempo, os danos podem se tornar mais graves e permanentes. O contato frequente do ácido do estômago com a boca e o esôfago desgasta os dentes, inflama a garganta e prejudica o funcionamento do sistema digestório.
Além disso, as alterações dos sais minerais podem afetar diretamente o coração e aumentar o risco de arritmias graves. Podem surgir ainda problemas renais, alterações hormonais, perda de massa óssea e piora importante do estado nutricional, mesmo em pessoas que aparentam ter peso normal.
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Dentes, garganta e esôfago: o ácido que corrói por dentro
O contato repetido do ácido gástrico com estruturas que não foram feitas para recebê-lo deixa marcas progressivas. Muitas vezes, o dentista é o primeiro profissional a suspeitar do diagnóstico.
“Nos dentes, o ácido corrói lentamente o esmalte, deixando os dentes mais sensíveis, frágeis e suscetíveis a cáries e fraturas. Em casos mais avançados, o desgaste pode ser irreversível”, afirma Amorim.
Na garganta e no esôfago, a situação também é preocupante. Segundo Costa, os episódios repetidos de vômito podem provocar inflamações, feridas e lesões progressivas ao longo do trajeto por onde os alimentos passam.
Em situações mais graves, podem surgir lacerações na junção entre o estômago e o esôfago, conhecidas como síndrome de Mallory-Weiss. Essas fissuras acontecem quando o esforço repetido para vomitar aumenta abruptamente a pressão dentro do tubo digestivo, causando pequenos rasgos na mucosa. O problema costuma provocar sangramentos que podem aparecer na forma de sangue no vômito.
Em casos ainda mais raros e potencialmente fatais, a pressão gerada durante episódios intensos de vômito pode causar uma ruptura completa da parede do esôfago, condição chamada síndrome de Boerhaave. Quando isso acontece, o conteúdo do estômago, bactérias e secreções digestivas podem escapar para a cavidade torácica, provocando uma inflamação grave, infecção generalizada e risco de falência de múltiplos órgãos. A mortalidade pode chegar a 60% mesmo com tratamento e se aproxima de 100% quando o diagnóstico é tardio.
Estudos mostram que a síndrome de Boerhaave é considerada uma das emergências gastrointestinais mais graves da medicina, justamente pela rapidez com que a contaminação do tórax pode evoluir para quadros de choque séptico.
O coração em risco
Entre as complicações menos conhecidas — e perigosas — da bulimia estão as cardiovasculares. O principal gatilho é a queda do potássio, mineral essencial para o funcionamento do músculo cardíaco.
“Quando seus níveis caem muito, podem surgir arritmias graves, aumento do risco de desmaios e até morte súbita em situações extremas. Também podem ocorrer hipotensão e alterações da contratilidade miocárdica”, explica Amorim.
Isso acontece porque esse mineral participa diretamente da condução dos impulsos elétricos responsáveis pelos batimentos cardíacos.
A perda frequente de eletrólitos e a desnutrição também podem enfraquecer o músculo cardíaco ao longo do tempo, reduzindo sua capacidade de bombear sangue para o corpo e aumentando o risco de insuficiência cardíaca.
Sinais que podem chamar atenção
Embora a bulimia possa permanecer oculta por longos períodos, alguns sinais físicos funcionam como alertas. Segundo Costa, os mais comuns são:
- oscilações frequentes de peso;
- inchaço nas laterais do rosto devido ao aumento das glândulas salivares;
- erosão dentária precoce;
- mau hálito persistente;
- rouquidão;
- dor de garganta recorrente;
- calos ou cicatrizes nos dedos das mãos;
- episódios frequentes de ida ao banheiro após as refeições;
- queixas recorrentes de refluxo, náuseas ou dor abdominal.
Amorim reforça, porém, que os sinais físicos não são os únicos. “Mudanças de comportamento também chamam a atenção, como ir ao banheiro logo após as refeições, preocupação excessiva com o corpo e sentimentos intensos de culpa relacionados à alimentação.”
A presença desses sinais não confirma o diagnóstico, mas deve servir como um alerta para uma avaliação médica e psicológica adequada, reforça Costa.
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Uma doença que vai além da alimentação
As especialistas são enfáticas: a bulimia não pode ser reduzida a um problema com a comida ou com a imagem corporal.
“Muitas pessoas com bulimia apresentam exames aparentemente normais durante um período, o que pode dar uma falsa sensação de segurança. Enquanto isso, o organismo continua sofrendo silenciosamente”, alerta Amorim.
De acordo com Costa, outro aspecto importante é que muitas dessas alterações podem ocorrer mesmo em pessoas que mantêm o peso aparentemente normal, o que frequentemente atrasa o diagnóstico. Para ela, o caminho passa necessariamente pelo cuidado integrado:
“A bulimia não é apenas uma questão relacionada à alimentação ou à imagem corporal. Trata-se de uma doença psiquiátrica complexa, com repercussões gastrointestinais, metabólicas, cardiovasculares, renais e odontológicas potencialmente graves. O diagnóstico precoce e o tratamento multidisciplinar, envolvendo psiquiatria, psicologia, nutrição e acompanhamento médico clínico, são fundamentais para prevenir complicações irreversíveis e reduzir o risco de mortalidade”, conclui.

