Suzanny Eleonora nascera como Fausto Pereira Filho, na periferia de Cuiabá. Aos 15 anos, cansada de apanhar do pai e dos irmãos para criar vergonha na cara, começou a tomar hormônio feminino e fugiu de casa com uma amiga mais esperta.
Nas avenidas de São Paulo foi presa várias vezes por pequenos delitos: posse de maconha, pequenos furtos, golpes em clientes, até dar uma facada num senhor de terno que a esbofeteou depois de um programa numa espelunca atrás da Estação da Luz. Por pura maldade, segundo ela, justificativa considerada irrelevante pelo juiz que a condenou a oito anos e três meses.
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Suzanny reconhecia uma fragilidade: era romântica. “Vim ao mundo para viver um grande amor”, dizia com ar de menina sapeca. Orgulhava-se de não lhe terem faltado maridos nas cadeias pelas quais passou e de que seus relacionamentos só terminavam quando o consorte ganhava a liberdade.
Dizia ter-se apaixonado por Chicão à primeira vista, ao vê-lo salvar a vida de um ladrão inadimplente, cercado por oito inimigos armados. Encostado na parede, com uma faca na mão, o ladrão prometia furar o primeiro que se aproximasse.
Chicão chegou desarmado e parou no centro da roda assassina. Com voz pausada, perguntou a causa daquela fita. Um dos mais exaltados explicou que era dívida de droga: “Vinte maços de cigarro”.
Chicão pediu a faca do devedor. Ele titubeou: quis saber por que não desarmava antes os adversários. “É mais fácil começar por você. Pode confiar. De agora em diante a dívida é minha.”
Voltou-se para os demais: “Deviam ter vergonha, tirar a vida de um ser humano por um pacote de cigarro”. Não precisou dizer mais nada.
Na porta do xadrez, ela não perdeu um detalhe da cena. Quando o grupo se dispersou, sorriu para Chicão na galeria.
A consulta médica era a oportunidade para Suzanny sair da cela. Passava os dias fechada, folheando revistas femininas, esmaltando as unhas, assistindo à TV e cozinhando para quando o marido chegasse.
No começo, reclamava, sentia-se presa duas vezes, mas ele insistia que lugar de mulher de cadeia casada era dentro do xadrez, para evitar derramamento de sangue. Com o tempo, aceitou, afinal um ladrão como aquele tinha direito de ser exigente.
Não viviam juntos. Homens de respeito podem visitar mulheres de cadeia em seus xadrezes, morar com elas, no entanto, jamais. A menos que não se importem em colocar a masculinidade sob suspeita.
Era a primeira-dama do pavilhão. As outras morriam de inveja, não havia malandro que não abaixasse o olhar ao passar por ela.
Um dia, uma novata conhecida como Madona, especialista no golpe “boa noite, Cinderela”, veio parar no pavilhão. Chegou precedida pela fama de modelo na Itália, mulher de classe, corpo perfeito, cobiçada até por PMs na rua.
Ao entrar na cela, Madona caiu num choro convulsivo diante das companheiras. Inconsolável, jurava que iriam matá-la naquela noite; não havia como escapar. Diante de tamanho desespero, foram buscar Chicão, o único com autoridade para acalmá-la.
Ele fez sinal para que as outras se retirassem. Encostou a porta, ofereceu-lhe o lenço e esperou.
Madona contou ter passado dois anos casada com um traficante na cadeia de Barueri, união que durou até ele ser transferido. Depois de um mês ela casou com outro. Agora, viera parar na mesma cadeia do ex-marido enciumado, que a havia jurado de morte assim que a visse. Estava certa de que seria naquela noite.
Chicão argumentou que o rejeitado não ousaria invadir o pavilhão sem trocar uma ideia com ele. Ela enxugou os olhos, encarou-o demoradamente e perguntou se, caso lhe revelasse uma intimidade, ele guardaria segredo. Na Itália, contou, havia feito uma operação para mudar de sexo.
Chicão pediu para ver. Não era por mal. Já que iria protegê-la, custava mostrar?
Dias depois, uma amiga apareceu no xadrez de Suzanny. Perguntou como andava o casamento. Ela respondeu que ia bem, embora as visitas dele tivessem rareado, andava muito ocupado com os BOs do pavilhão. “A ocupação dele é outra”, falou a amiga.
Suzanny correu aos gritos atrás de Madona. Encontrou-a debruçada na pia do xadrez lavando a cabeça. Agarrou-a pelos cabelos ensaboados e rolaram pelo chão. A galeria se encheu de gritos e de curiosos.
Chicão não estava entre eles. Chamado para apaziguar o tumulto, respondeu: “Em briga de mulher, homem não mete a colher”.

