As companhias aéreas Azul, Gol e Latam já gastaram R$ 3,8 bilhões a mais com combustível de aviação (QAV) do que o previsto antes da guerra no Oriente Médio, iniciada no fim de fevereiro. As informações são da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que representa o setor.
“Somente o valor gasto a mais em maio, cerca de R$ 1,6 bilhão, representa, por exemplo, o custo do arrendamento de 830 aviões de médio porte. Para se ter uma ideia, hoje nós temos em torno de 500 aviões voando no Brasil. O que pagamos a mais de combustível no mês passado já é mais da metade do que a gente gasta com o leasing [arrendamento] da frota atual”, disse o presidente da Abear, Juliano Noman, em uma reunião nesta semana em Brasília.
Na avaliação da entidade, a situação poderia ser ainda pior se o governo não tivesse adotado medidas para aliviar o impacto para o setor. Entre as ações estão a isenção do PIS/Cofins sobre o QAV, o acesso a linhas de crédito e a prorrogação do pagamento das tarifas de navegação à Força Aérea Brasileira (FAB).
QAV sobe 70% no Brasil desde o início da guerra
Desde o começo do conflito, o QAV já subiu cerca de 70% no Brasil, consequência da menor oferta de petróleo em razão do fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, por onde passa cerca de 20% da produção mundial. A commodity tem sido cotada em torno de US$ 100 o barril no mercado internacional, contra aproximadamente US$ 70 antes da guerra.
Vale ressaltar que o Brasil produz cerca de 80% do QAV que consome. Entretanto, a Petrobras segue a paridade internacional de preços, o que torna os choques inevitáveis. Mesmo assim, a estatal argumenta que a precificação segue uma fórmula que funciona como “amortecedor de curto prazo”, com reajustes mais moderados do que no mercado internacional.
Com a ampla produção própria, uma vantagem é que o Brasil não corre risco de escassez de QAV. Não é o caso, por exemplo, da Europa, que importa 24% do produto diretamente do Oriente Médio e tem flertado com o desabastecimento de querosene usado em aviões.
Ao nível regional, segundo dados da Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), a América Latina produz cerca de 65% do combustível de aviação que usa localmente, e apenas 2% é importado do Oriente Médio, enquanto o restante vem de outros mercados.
Setor não acredita em arrefecimento no curto prazo
Mesmo que a guerra termine hoje – o que não parecer ser o caso, uma vez que Estados Unidos, Irã e Israel seguem se desentendendo no Oriente Médio -, lideranças das companhias aéreas acreditam que os preços de petróleo e do QAV continuarão elevados.
Na visão da Latam, o combustível de aviação seguirá em patamares acima do normal pelo menos até o fim do ano. A Azul, por sua vez, não enxerga o preço do petróleo voltando para a casa de US$ 70, que, como dissemos, era a faixa de cotação de antes da guerra.
Aéreas seguem cancelando voos e devem crescer menos em 2026
Com o preço elevado do QAV e os impactos financeiros para Azul, Gol e Latam, já não é segredo que o setor está cancelando diversas operações. Somente neste mês, segundo estimativa da Abear, as aéreas deixaram de ter 121 voos por dia.
Essa tendência deve continuar nos próximos meses. Durante a reunião anual da Iata, no Rio de Janeiro, o CEO da Azul, John Rodgerson, afirmou ao Melhores Destinos que a companhia focará em rotas “que fazem sentido”. “A gente vai ajustar a capacidade conforme a nova necessidade”, afirmou. A companhia cortou 5% da oferta em maio e junho e já não espera crescer em 2026.
A Latam, por sua vez, afirma que fez ajustes em rotas com excesso de oferta de assentos, e que parte disso aconteceu nos voos entre São Paulo e Rio de Janeiro. A aérea projeta que o crescimento anteriormente previsto de 11% nas operações agora será de 8% até o fim do ano.
O Grupo Abra, do qual a Gol faz parte, disse no mês passado que reduções entre 7% e 9% seriam na oferta seriam “simples de fazer sem grandes esforços”. A Gol afirmou que tem feito mudanças em rotas semanalmente, sem especificar o tamanho dos cortes na operação da companhia.
Segundo a Abear, as três maiores companhias aéreas brasileiras têm voos para 138 destinos nacionais. Até o momento, não houve cancelamento de destinos, apenas reduções em determinadas rotas.
Guerra pesa no bolso do passageiro com tarifas aéreas mais caras
Uma consequência inevitável de tudo isso aparece no preço das passagens. Com valores mais altos de QAV e uma oferta menor de assentos para uma demanda por viagens que continua forte, é natural que os custos sejam repassados aos consumidores.
De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), as tarifas médias no Brasil cresceram cerca de 25% no acumulado de março e abril, em comparação com o mesmo período do ano passado.
A Azul, em sua projeção mais recente, apontou que as passagens estão, em média, 30% mais caras. Já o Grupo Abra aposta em um aumento de aproximadamente 20% no preço das passagens. A expectativa da companhia é repassar a totalidade da alta do combustível às tarifas até o fim do ano.
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Fonte: Viajali, Melhores Destinos

