A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) aprovou nesta quarta-feira (22) reajustes tarifários para oito distribuidoras de energia que atuam em nove estados, com impacto sobre a conta de luz quase 50 milhões de pessoas.
O preço da energia é uma das principais preocupações do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma vez que um aumento no custo pode afetar negativamente a aprovação de sua gestão durante a corrida eleitoral de 2026 —ainda mais diante do crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto.
O Executivo avaliou propor um empréstimo de até R$ 7 bilhões para as distribuidoras, via BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), como forma de reduzir o impacto dos reajustes sobre a conta de luz, mas a ideia não avançou.
A projeção da Aneel é que o reajuste médio seja de 8%, quase o dobro da inflação projetada para o ano —o efeito disso no custo da energia varia de região para região, de acordo com a empresa que presta o serviço.
“O aumento da conta de luz tem sido puxado pela concessão de subsídios a algumas fontes de geração, como a geração distribuída, quando o próprio consumidor passa a produzir sua energia, principalmente com painéis solares, e as fontes incentivadas”, diz Patricia Audi, presidente da Abradee (Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica).
Nesta quarta, a distribuidora que teve o maior reajuste médio foi a CPFL Santa Cruz, de 18,89%, que atende municípios em São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Também no Sudeste, a CPFL Paulista, que atende ao interior do estado, teve reajuste de 12,13%.
No Centro-Oeste, a Energisa, do Mato Grosso do Sul, teve aumento de 12,1%, e a de Mato Grosso, de 6,86%.
Já no Nordeste, a sergipana Energisa teve reajuste aprovado de 6,68%, a Coelba baiana, de 5,8%, a Enel cearense, de 5,78% e a Neoenergia potiguar, de 5,4%.
Somadas, essas distribuidoras atendem a uma população de 46,7 milhões de pessoas, segundo dados da Aneel.
O impacto na conta de luz varia de acordo com o tipo da tensão: costuma ser menor para aqueles de baixa tensão, que são as unidades residenciais, e maior para os de alta tensão, que afeta a indústria.
O reajuste poderia ter sido maior. Isso porque algumas empresas usaram mão de um dispositivo chamado diferimento.
Isso permite que a distribuidora opte por um reajuste menor neste ano, mas compensado no ciclo seguinte.
Ele é usado sobretudo quando as projeções apontam que a próxima alteração será menor que a atual. Desta forma, as empresas conseguem evitar mudanças bruscas na tarifa e mitigar os impactos do aumento de custos.
A CPFL Paulista, a CPFL de Santa Cruz e a Energisa do Mato Grosso do Sul utilizaram desta ferramenta.
Além disso, quatro empresas conseguiram reduzir seu reajuste ao considerar as parcelas do UBP (Uso do Bem Público) no cálculo da nova tarifa.
Os recursos do UBP foram arrecadados a partir da repactuação dos royalties das usinas hidrelétricas. Um total de R$ 8,8 bilhões foram destinados a redução das tarifas.
As quatro distribuidoras beneficiadas com isso foram a Coelba, a Cosern e as Energisas do Sergipe e do Mato Grosso.
Antes, a Aneel já havia aprovado reajustes para a Roraima Energia, de 24,13%, para a Enel do Rio de Janeiro, de 15,6%, para a Light (que também atende o estado carioca), de 8,6%, e a para a Equatorial, de 3,54%.
O caso da Light virou uma batalha na Justiça após a empresa entender que houve um erro de cálculo da agência e pedir um aumento de 16,7%. A companhia chegou a ser atendida por uma liminar que depois foi derrubada.
A principal causa dos reajustes são os encargos, sobretudo aqueles direcionados às energias renováveis, com destaque para a GD (Geração Distribuída) —termo técnico para empreendimentos menores, como painéis solares, que atendem a pequenas populações.
Essa categoria, que cresceu rapidamente nos últimos anos a partir de incentivos financeiros, ameaça sobrecarregar as redes de eletricidade do país, e três estados já estão no limite de sua capacidade de transmissão.
“Só nos quatro primeiros meses de 2026, esses subsídios já somam R$ 9 bilhões na tarifa de energia”, diz Audi.
Dos 8% de reajuste médio previsto pela Aneel para este ano, apenas 0,2 pontos percentuais são causados por uma alta no custo operacional.
Fonte: Folha SP

