Longevidade: profissionais mudam de carreira após os 50 – 06/06/2026 – Economia

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Longevidade: profissionais mudam de carreira após os 50 - 06/06/2026 - Economia

A ideia de aposentadoria como sinônimo de descanso tem ficado para trás com o aumento da longevidade no país. O brasileiro vive mais, chega à maturidade com melhores condições de saúde e segue cada vez mais presente no mercado de trabalho, seja por necessidade, realização financeira ou desejo pessoal.

O número de profissionais acima dos 50, 60 e 70 anos que buscam novas ocupações formais vem crescendo. Em 2024, o Brasil registrou o maior nível de ocupação de pessoas com 60 anos ou mais desde o início da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): 24,4%. Na prática, uma em cada quatro pessoas nesta idade estava trabalhando.

A população com 60 anos ou mais chegou a 34,1 milhões, crescimento de 53,3% em relação a 2012. A expectativa de vida aumentou nove anos desde 1940, chegando a 76,6 anos na média. Metade dos que permanecem no mercado, no entanto, é por necessidade.

“O nome aposentar-se é retirar-se para seus aposentos. Só que as pessoas hoje acabam se aposentando e continuam trabalhando. Fazem da aposentadoria uma segunda renda. Deveriam planejar melhor, continuar trabalhando para ter uma renda maior”, afirma a advogada especializada em Previdência, Adriane Bramante, conselheira da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo).

Para quem segue no mercado, a mudança de carreira tem sido uma realidade, seja por desejo ou por imposição do etarismo, que faz com que os profissionais precisem se reorganizar.

A psicóloga Elaine Sicari, 52, conta que, durante a pandemia, foi demitida com doenças ocupacionais, após trabalhar 15 anos em instituições financeiras. “Com 45 anos, é difícil conseguir se recolocar, há muita discriminação por idade”, afirma. Elaine iniciou nova graduação em psicologia, formou-se com 50 anos e hoje atende pacientes online, além de investir em especializações. “Não quero parar de estudar nunca”, diz.

O treinamento ajudou a recuperar a autoestima e a saúde mental. Atualmente, participa de um projeto voltado à aplicação das regras da NR-1 (Norma Regulamentadora 1), que passou a exigir mapeamento de riscos psicossociais nas empresas. “Imagine se eu puder auxiliar hoje as empresas? Eu saí doente de uma.”

Aos 72 anos, Giuseppina Adele Rischioni dá aulas em cursos de graduação e pós-graduação e orienta trabalhos acadêmicos. “Sou aposentada, mas em nenhum momento parei de trabalhar”, conta a professora, que mudou de carreira depois de décadas na área de recursos humanos na indústria.

Seu marido, Marcos D. Paula, 66, também manteve rotina intensa após a aposentadoria. Psicanalista, atua há mais de 20 anos em projetos de humanização hospitalar. Juntos, participam de grupos voluntários de palhaços que visitam hospitais.

O professor universitário Vacelon Soares de Alencar, 53, também planeja uma segunda carreira. Após 26 anos lecionando artes plásticas e teatro, cursou pós-graduação em psicanálise para atuar na área depois da aposentadoria.

“Percebo como a sociedade está carente de escuta e posso fazer mais, posso ouvir e melhorar a vida de muitas pessoas”, afirma. Para ele, sua geração se sente jovem demais para parar. “Estou com 53 anos, mas é como se alguém me perguntasse: ‘O que você quer ser quando crescer?’ Ainda não sei, porque eu quero tanta coisa.”

A especialista em marketing Daniella Barcellos, 56, trabalhou quase três décadas nas áreas de marketing e planejamento comercial antes de migrar para recursos humanos e docência universitária. Ela conta que a mudança surgiu após episódio de assédio moral que desencadeou uma crise de burnout.

“Encontrei meu propósito e comecei a transição aos 50 anos, quando me dediquei a cursos e imersões, palestras e congressos, pesquisando e estudando”, diz. Ela afirma que a preparação financeira é fundamental para a mudança.

“Bate medo, principalmente quando essa mudança é feita por volta dos 50 anos. É um processo de altos e baixos no qual é preciso ter inteligência emocional para lidar com as negativas, a falta de retorno, os períodos em baixa. Mas a pessoa conseguirá se focar no propósito, com dedicação, disciplina, marca pessoal e relacionamento.”

Segundo Denise Guichard Freire, analista de indicadores sociais do IBGE, a participação dos idosos no mercado aumentou tanto em números absolutos quanto proporcionalmente, avanço que está ligado à maior longevidade; às mudanças nos arranjos familiares, com os jovens sendo sustentados por mais tempo dentro de casa; à reforma da Previdência de 2019, que aumentou as idades da aposentadoria, e à informalidade no mercado de trabalho.

Muitos idosos permanecem responsáveis pelo sustento da casa. Em alguns casos, vivem sozinhos; em outros, ajudam filhos que demoram mais para alcançar independência financeira. Além disso, trabalhadores que passaram parte da vida na informalidade enfrentam dificuldades para cumprir os requisitos de aposentadoria e precisam seguir trabalhando.

Para Ana Amélia Camarano, pesquisadora sênior do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que estuda há 30 anos a longevidade, viver mais exigirá carreiras mais longas.

“Porque quando você vive mais, e nós estamos vivendo mais, isso é um fato, as pessoas vão ter que trabalhar mais, poupar mais, se cuidar mais.” Ela avalia que o país precisará avançar em políticas de empregabilidade para trabalhadores mais velhos. “Esse trabalhador mais velho vai ser uma necessidade, inclusive por questões macroeconômicas.”

Dados do MTE (Ministério do Trabalho) apontam crescimento da contratação formal em todas as faixas acima dos 50 anos entre 2024 e 2025. Os vínculos formais para trabalhadores de 50 a 59 anos cresceram 7,6%. Entre 60 e 64 anos, a alta foi de 12,2%. Já para quem tem 65 anos ou mais, o avanço chegou a 16,1%.

Apesar disso, a recolocação ainda encontra barreiras. Segundo Mórris Litvak, fundador da plataforma Maturi, grande parte das oportunidades destinadas aos profissionais mais velhos concentra-se em funções operacionais, com salários mais baixos, mesmo para pessoas qualificadas.

O levantamento “Transição de Carreira na Maturidade”, realizado pela Maturi com 2.019 profissionais acima de 43 anos, mostrou que 90% não pretendem parar de trabalhar tão cedo. Entre aqueles que planejam mudar de profissão, 67,8% já estão em alguma etapa da transição de carreira.

Entre as razões para continuar trabalhando aparecem propósito, realização pessoal, necessidade financeira e desejo de permanecer ativo. “É uma tendência cada vez maior uma pessoa ter vários ciclos de carreira ao longo da vida e alguns durante a maturidade. As pessoas tanto querem quanto precisam continuar trabalhando. Então estão mais antenadas para terem um plano B para o futuro, planejar a hora que quiserem diminuir o ritmo”, afirma Litvak.

Para ele, profissionais maduros vivem o auge intelectual, mas ainda enfrentam preconceitos. “Existem mitos, estereótipos que fazem com que gestores muitas vezes achem que as pessoas com mais de 50 anos não sejam atualizadas, ágeis ou digitais.”

O pesquisador Alexandre Correa, fundador do portal Revolução Prateada, aponta também para reflexões sobre propósito de vida. “Tem uma hora que você olha para trás e se vê infeliz na profissão que escolheu aos 17 anos. É legítimo dizer: não estou feliz nesse lugar. Dá para começar um outro curso aos 50, 60, 70 anos, algo que ache interessante fazer.”

Segundo ele, muitos profissionais percebem que dificilmente voltarão ao mercado formal nos mesmos moldes após uma demissão tardia. “Muitas vezes esse profissional é dragado para o empreendedorismo ou para a consultoria.”

A economista Janaína Feijó, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o fato de haver cada vez mais pessoas com 60 anos ou mais no mercado de trabalho é fruto do envelhecimento populacional acelerado no Brasil, mas também está ligado a mudanças na sociedade e ao aumento do custo de vida.

Há dois grupos com demandas e trajetórias distintas, conforme a escolaridade, afirma. “Esse é o ponto que determinará a forma e a qualidade com que você se insere no mercado de trabalho”, diz.

Dados da Pnad Contínua do IBGE analisados pela pesquisadora mostram que, em 2024, cerca de 54,3% (4,7 milhões) das pessoas com mais de 60 anos que estavam trabalhando tinham até o ensino fundamental completo. Em 2012, esse percentual era ainda maior: 71,6% (3,6 milhões). Para a especialista, a tendência é que o grupo com maior escolaridade escolha permanecer em sua área ou mudar de carreira para algo mais ligado ao bem-estar.

Mas, mesmo plenamente capazes de desenvolver funções, a economista destaca que pessoas com mais de 60 anos sofrem com o etarismo. “Então há um esforço desse grupo em ocupar posições de prestígio na empresa para não sofrer esse preconceito.”

Já o público que tem menos escolaridade, que é a maioria dos 60 mais, muitas vezes permanece no mercado para complementar renda, principalmente quem está nas grandes metrópoles, porque o custo de vida é maior. “Muitas vezes a aposentadoria é insuficiente para arcar com todas as despesas, mas a forma como estão inseridos no mercado também é de vulnerabilidade.”

Segundo a pesquisadora, a taxa de informalidade entre os que têm mais de 60 anos sem levar em conta a escolaridade é mais de 50% e, se a escolaridade for considerada, chega a 70% no recorte até o ensino fundamental completo.

Dicas para mudar de carreira:

  1. Busque o autoconhecimento: o que mais faz sentido na fase da vida que está vivendo?
  2. Abra-se para o novo: entenda que existem diferentes possibilidades além do que fazia anteriormente
  3. Atualize-se: faça cursos e busque atualizar até o comportamento, inclusive por meio de cursos, para estar no mercado; ir a eventos e participar de grupos para conhecer pessoas também é um bom caminho
  4. Faça networking: use as redes sociais de forma profissional para fazer bons contatos
  5. Seja humilde: é preciso entender que, por mais experiência que tenha, ainda há muito para aprender

Este é o segundo capítulo da série sobre Longevidade que a Folha publica no ano em que completa 105 anos. As reportagens vão discutir o impacto do envelhecimento nas contas públicas, a pressão sobre o sistema de Previdência e as transformações no mercado de trabalho. Especialistas também abordam desafios e oportunidades para empresas de áreas como habitação, turismo e varejo, bem como reflexões sobre o que significa viver mais e melhor em meio ao aumento do custo de vida.

Fonte: Folha SP

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