A infecção pelo HIV (vírus da imunodeficiência humana) faz parte da vida de milhões de pessoas no mundo e também acompanha a gestação de milhares de mulheres no Brasil. Todos os anos, cerca de 7,5 mil grávidas vivendo com o vírus são acompanhadas no país. Com pré-natal adequado e uso correto da terapia antirretroviral, o vírus pode ser controlado durante a gestação, reduzindo significativamente o risco de transmissão ao bebê.
“Atualmente, quando há adesão correta ao tratamento e acompanhamento adequado da gestante, o risco de transmissão é muito baixo. O principal fator é a redução da carga viral, que impede a passagem do vírus para o feto”, destaca Marinella Della Negra, infectologista, pesquisadora, referência e pioneira no cuidado de gestantes com HIV no Brasil e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
O HIV ataca o sistema imunológico, responsável pelas defesas do organismo. Sem tratamento, pode evoluir para a aids, mas com terapia antirretroviral é possível controlar a infecção e manter qualidade de vida.
Como evitar a transmissão do HIV para o bebê?
A transmissão vertical ocorre quando o HIV é passado da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. Nesse contexto, o pré-natal é essencial para garantir uma gestação segura, com acompanhamento contínuo e acesso à testagem e ao tratamento ao longo da gravidez. Esse cuidado permite controlar a infecção e reduzir de maneira significativa o risco de transmissão vertical do vírus.
“Uma mulher grávida infectada pelo HIV requer monitoramento de uma equipe integrada. A comunicação entre obstetra, infectologista e, quando possível, neonatologista é essencial. Um pré-natal bem realizado, aliado à adesão ao tratamento, melhora o prognóstico”, destaca Eduardo Cordioli, diretor técnico de obstetrícia do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo.
A prevenção não depende de uma única medida, mas de uma sequência de cuidados durante a gestação, o parto e o pós-parto:
- A gestante soropositiva deve fazer uso de terapia antirretroviral (TAR) durante toda a gravidez, com acompanhamento regular da carga viral ao longo do pré-natal, especialmente no início, no segundo trimestre e a partir da 28ª semana.
- O objetivo do tratamento é manter a carga viral indetectável, ou seja, em níveis tão baixos no sangue que não são detectados pelos exames e não são suficientes para a transmissão ao bebê.
- Também é avaliada a contagem de linfócitos T CD4+, células de defesa do sistema imunológico que o HIV pode afetar diretamente.
- Após o nascimento, o recém-nascido inicia rapidamente a profilaxia com medicamentos antirretrovirais, como forma de reduzir ainda mais o risco de infecção.
“Os principais fatores responsáveis pela transmissão vertical do HIV são o não diagnóstico ou diagnóstico tardio (durante a gestação, o parto ou a amamentação) e a não adesão ao tratamento, quando a paciente não utiliza corretamente a terapia antirretroviral”, explica Della Negra.
Cuidados no parto e na amamentação
No cuidado com a gestante que vive com HIV, o momento do parto e as orientações sobre amamentação fazem parte das estratégias para reduzir o risco de transmissão do vírus para o bebê. Essas decisões são definidas a partir do controle da carga viral e do acompanhamento ao longo da gestação.
“O tipo de parto depende: com carga viral indetectável e tratamento adequado, o parto vaginal pode ser seguro. Já em casos de carga viral alta, desconhecida ou sem tratamento, a cesariana pode ser indicada para reduzir o risco de transmissão”, afirma Cordioli.
Durante o parto, são adotados cuidados para reduzir o contato do bebê com o sangue materno e garantir o clampeamento adequado do cordão umbilical, que é o fechamento do cordão logo após o nascimento antes de ele ser cortado.
No Brasil, a recomendação oficial do Ministério da Saúde, assim como da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é que mulheres que vivem com HIV não amamentem, independentemente da carga viral. Isso porque o país oferece alternativas seguras, como a distribuição gratuita de fórmula infantil pelo SUS e o uso de leite humano pasteurizado de bancos de leite.
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Brasil elimina transmissão vertical do HIV
O Brasil recebeu uma certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública em 2025. O reconhecimento considera que o país manteve a taxa de transmissão abaixo de 2% e a incidência da infecção em crianças inferior a 0,5 por mil nascidos vivos, além de alcançar alta cobertura de pré-natal, testagem para HIV e oferta de tratamento às gestantes vivendo com o vírus.
Segundo a OMS, a certificação indica a ampliação do acesso ao diagnóstico precoce, ao uso de terapia antirretroviral e ao acompanhamento contínuo no sistema de saúde. Esses fatores permitem reduzir de forma sustentada a transmissão vertical do HIV.
Direitos reprodutivos das mulheres que vivem com HIV
Mulheres vivendo com HIV têm o direito de engravidar, e hoje a medicina dispõe de recursos para que essa maternidade ocorra com segurança.
A gestação, quando possível, deve ser planejada em conjunto com o infectologista e o obstetra. Isso inclui adesão adequada à terapia antirretroviral, manutenção da carga viral indetectável e uso de esquemas de tratamento compatíveis com a gravidez.
Nos casos de casais sorodiferentes, as orientações também evoluíram. Quando a pessoa que vive com HIV está com carga viral indetectável, o risco de transmissão sexual é nulo, o que permite a concepção natural em condições seguras. Em algumas situações, pode ser indicada ainda a profilaxia pré-exposição (PrEP) para o parceiro HIV-negativo.
“O ponto central é que o planejamento deve ser feito de forma aberta, sem estigmas e com respeito à autonomia da mulher ou do casal, garantindo todas as ferramentas necessárias para uma gestação segura”, finaliza Cordioli.
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