A luta contra a sífilis e a clamídia — duas infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) que vêm se espalhando cada vez mais no Brasil — ganhou um novo aliado: o antibiótico doxiciclina.
No início deste mês, o Ministério da Saúde liberou o uso do medicamento como profilaxia pós-exposição (PEP), ou seja, para ser tomado após uma relação sexual considerada de risco, como uma espécie de “pílula do dia seguinte”.
Segundo a portaria, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem até o início de setembro deste ano para ofertar o tratamento, conhecido globalmente como DoxiPEP. A prioridade será a distribuição para populações com maior vulnerabilidade a infecções, como mulheres trans, homens que fazem sexo com homens (HSH), entre outros grupos.
Como funciona a doxiPEP?
O tratamento consiste no uso de dois comprimidos de doxiciclina após a relação sexual desprotegida.
A recomendação é que o medicamento seja administrado em até 72 horas após a exposição (idealmente nas primeiras 24 horas), segundo a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável pelo relatório que embasou a decisão.
O antibiótico atua impedindo a multiplicação das bactérias responsáveis pelas ISTs. A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum, enquanto a clamídia é provocada pela Chlamydia trachomatis.
A doxiciclina atua dentro das bactérias ao bloquear o “maquinário” que elas usam para produzir proteínas. Sem isso, elas não conseguem crescer nem se multiplicar.
“Isso inibe a síntese proteica bacteriana, levando à interrupção do crescimento e multiplicação bacteriana, sem causar lise celular imediata (isto é, não rompe a bactéria, mas impede sua reprodução)”, explica Marcos Davi Gomes de Sousa, infectologista membro do Comitê de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
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Quase 80% de redução das infecções com doxiPEP
O uso da doxiciclina pode reduzir em até 79% o risco de infecção por clamídia e em 77% o risco de sífilis em relação ao cuidado padrão, segundo estudos citados no relatório da Conitec.
As evidências incluem três ensaios clínicos randomizados, considerados o padrão-ouro da pesquisa médica, com um total de 1.369 participantes. Nesse tipo de estudo, os voluntários são divididos por sorteio entre grupos, o que permite comparar os resultados com maior confiabilidade.
Além disso, foi considerado um estudo de coorte — tipo de pesquisa que analisa dados já coletados para identificar padrões e fazer estimativas. O levantamento incluiu pessoas que vivem com HIV ou usam PrEP (método de prevenção ao HIV) e tiveram uma IST recentemente. Nesse grupo, a taxa de incidência chega a cerca de 33 a 35 casos por ano a cada cem pessoas. A análise estimou que a DoxiPEP poderia reduzir esses números, evitando de 7 a 8 casos de clamídia e de 3 a 6 de sífilis por ano nesse mesmo universo.
Só o antibiótico não basta para prevenir sífilis e outras ISTs
Apesar dos resultados promissores, a estratégia não substitui outras formas de prevenção. Segundo o médico, o uso de preservativos, o diagnóstico precoce e o acompanhamento regular em serviços de saúde continuam sendo fundamentais para conter o avanço das ISTs.
“A implementação da doxiPEP deve ser parte de uma abordagem integrada de saúde sexual. O acompanhamento regular é fundamental para avaliar a necessidade contínua da profilaxia e detectar precocemente falhas terapêuticas ou eventos adversos”, diz Sousa.
Ele destaca ainda estratégias complementares importantes que devem ser adotadas pela saúde pública:
- rastreamento regular de ISTs, com testagem periódica;
- aconselhamento para redução de risco e educação sexual;
- vacinação contra hepatites A e B e HPV;
- acesso à PrEP (método de prevenção à infecção) para HIV;
- monitoramento da resistência antimicrobiana.
Aumento dos casos de sífilis e outras ISTs no Brasil
Dados do boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde mostram que a sífilis continua sendo um problema relevante no país. Entre 2010 e meados de 2025, foram registrados cerca de 1,9 milhão de casos da infecção no Brasil. Só em 2024, houve aproximadamente 256 mil notificações, além de 89 mil casos em gestantes e 24 mil de sífilis congênita (quando a infecção passa da mãe para o bebê).
No caso da clamídia, não há dados nacionais consolidados, já que a infecção não é de notificação obrigatória no país. Ainda assim, estudos citados pela Conitec indicam alta prevalência, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos e populações transgêneras.
Assista: DoxyPEP: você conhece essa estratégia de prevenção de ISTs?

