O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição diversa. Além dos diferentes níveis de suporte dentro do espectro, cada pessoa manifesta o transtorno de uma forma diferente. Quando falamos de crianças pequenas, de até 5 anos de idade, identificar esses sinais pode ser ainda mais difícil.
Não existe, por exemplo, uma idade ideal para chegar ao diagnóstico do autismo. Mas, quanto mais cedo, melhor – especialmente na infância, quando é mais favorável trabalhar a linguagem a fim de garantir um melhor desenvolvimento no futuro.
Quando é possível diagnosticar o autismo?
“O autismo pode ser diagnosticado antes dos 2 anos. Às vezes, é difícil diagnosticar antes dos 18 meses. Nesses casos, a recomendação é: volte em seis meses, volte em um ano, e avalie novamente. Essa não é uma condição para se diagnosticar com pressa. É aceitável dizer ‘ainda não tenho certeza’ e observar com o tempo”, explicou Phillip Shaw, diretor da Parceria King’s Maudsley para Crianças e Jovens (Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências – King’s College London) em entrevista ao Portal Drauzio durante o Brain 2025. O Congresso Brain, Behavior and Emotions, realizado em Fortaleza (CE), reuniu diversos especialistas em saúde mental e neurociências.
Os sintomas do transtorno do espectro autista costumam se manifestar a partir do segundo ano de vida, mas não são sempre evidentes. A presença de movimentos repetitivos e a resistência a mudanças tendem a surgir mais para frente. Muitas vezes, os comportamentos que chamam a atenção no início são aqueles que a criança deixa de fazer, como:
- não responder ao próprio nome;
- não vocalizar;
- não aprender palavras;
- não buscar atenção de forma espontânea;
- e não brincar como as outras crianças.
Mesmo quando o diagnóstico é feito antes dos 18 meses, o psicólogo inglês explica que ele é menos estável, porque a criança ainda está mudando muito. Por isso, quanto mais jovem, mais importante é o acompanhamento. Até os 3 anos de idade, a maioria dos casos já pode ser identificado com segurança.
“Quando você sabe que uma criança pequena tem autismo, ainda há muitas coisas que não se sabe sobre o que acontecerá com ela e sobre o que faz mais sentido para o seu desenvolvimento. Esses elementos vão ficando mais claros com o tempo”, complementou Catherine Lord, professora de psiquiatria na Escola de Medicina David Geffen da Universidade da Califórnia em Los Angeles (DGSOMUCLA).
Ainda assim, a identificação precoce é fundamental para trabalhar a comunicação. Isso porque a maior parte do desenvolvimento da linguagem ocorre nos primeiros anos de vida. Até os 4 anos de idade, as crianças já adquiriram boa parte da gramática, vocabulário e semântica, por exemplo. Depois disso, ainda é possível aprender, mas se torna mais difícil. No caso das crianças autistas, começar cedo a estimular essa habilidade faz diferença em como ela se desenvolverá.
TDAH e autismo podem aparecer juntos?
O processo é ainda mais complicado quando aparecem condições concomitantes. Cerca de 40% das pessoas com autismo também terão TDAH. E quando essas duas condições ocorrem juntas, é importante diagnosticá-las separadamente.
Diferente do autismo, o diagnóstico de TDAH não costuma ser fechado antes dos 5 anos de idade. Se a criança apresenta hiperatividade quando é muito pequena, esse é o sinal para pais e médicos prestarem atenção. No entanto, é apenas na idade escolar que se pode afirmar com certeza.
“Se a criança tem autismo e os pais suspeitam que possa haver TDAH, há três grandes sinais a observar: hiperatividade, impulsividade e, com mais complexidade, desatenção. A hiperatividade não é uma característica do autismo. Então, se uma criança autista corre para todo lado aos 5 ou 6 anos, sobe e desce pela sala de aula, isso pode indicar TDAH. Se for muito impulsiva, interrompe a aula constantemente e não espera a sua vez — esses são sinais clássicos de TDAH, não de autismo. A desatenção é mais difícil, porque às vezes a criança parece distraída, mas na verdade está focada em algo muito específico, típico do autismo. Mas a hiperatividade e a impulsividade são mais fáceis de detectar quando se trata de TDAH junto com autismo”, diferenciou Shaw.
O TDAH é a comorbidade mais comum em crianças pequenas com transtorno do espectro autista. Há outras que podem aparecer com o passar do tempo, como tiques, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão e ansiedade. Segundo o especialista, a maioria das crianças com autismo também terá outro diagnóstico, mas isso pode ser bem manejado com intervenção precoce e um plano de apoio.
Pais, professores e profissionais da saúde são essenciais
Em geral, os professores são os primeiros a perceber os sinais do autismo e do TDAH. Ao conversarem com os pais e familiares, são eles que sugerem a investigação. Depois, entram em cena os pediatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, entre outros profissionais da saúde.
“Para algumas famílias, é muito difícil aceitar que o autismo nunca vai desaparecer, que ele faz parte do filho. Isso exige tempo e energia, que nem todas as famílias têm. É importante ajudar os pais a enxergar onde a criança está no momento e trabalhar a partir daí, respeitando seus limites, mas também valorizando suas qualidades. Esse processo leva tempo, mas a maioria das famílias chega lá. O ideal é ter um clínico que trabalhe com a criança e com os pais de forma integrada”, destacou Lord.
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