Protetor solar causa câncer? – Portal Drauzio Varella

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Protetor solar causa câncer? - Portal Drauzio Varella

Protetor solar causa câncer de pele? Se você digitar essa pergunta no TikTok ou no Instagram, provavelmente vai cair em uma enxurrada de vídeos dizendo que sim, isso é verdade. E as chamadas são catastróficas: você não deve usar o produto; quanto mais usa, maior o risco; e há até quem diga que o produto pode fazer você ganhar peso (sim, é isso mesmo que você leu).

Apesar de todo o burburinho, que gera um bocado de curtidas, comentários e compartilhamentos nas redes sociais, não há evidência científica confiável de que protetor solar cause câncer de pele, segundo dermatologistas, associações médicas e estudos. Muito pelo contrário. 

“Estudos prospectivos e randomizados demonstraram redução da incidência de câncer de pele com o uso de protetor solar”, afirma Daniel Cassiano, dermatologista e diretor da Sociedade Brasileira de Dermatologia — Regional São Paulo (SBD-RESP). 

O que existe, no entanto, é um histórico de pesquisas — tanto nos anos 1990 como mais recentemente — que tiveram limitações importantes ou foram mal interpretadas.

Veja também: Por que as pessoas estão parando de usar protetor solar?

 

As pesquisas 

Um dos estudos que ajudou a alimentar a controvérsia foi publicado em 1995. Ele comparou pessoas com melanoma a indivíduos saudáveis e observou que o uso de protetor solar não parecia reduzir o risco da doença, chegando a sugerir uma possível associação positiva. Outro trabalho, de 2000, concluiu que o uso de protetor solar pode levar as pessoas a permanecer mais tempo ao sol, especialmente em níveis de radiação que não causam queimaduras imediatas.

Nos últimos anos, porém, esses achados passaram a ser questionados. Especialistas apontaram que os estudos tinham limitações importantes. Por exemplo: eles dependiam da memória dos participantes, que nem sempre lembravam com precisão seus hábitos no passado. Além disso, pessoas com maior risco de câncer de pele — como aquelas com pele mais clara ou que se expõem mais ao sol — são justamente as que mais usam protetor. Isso pode distorcer os resultados.

“O que existe é o chamado ‘paradoxo do protetor solar’: estudos observacionais identificaram que usuários frequentes de protetor tinham, paradoxalmente, maior incidência de câncer de pele”, diz Raphael Brandão, oncologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

 

O estudo do FDA

Em 2019, o Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, equivalente à Anvisa no Brasil, publicou um estudo mostrando que alguns ingredientes de protetores solares podem ser absorvidos pelo organismo. Isso deu ainda mais combustível para a narrativa contra o produto, e muitos dos vídeos nas redes passaram a citar o trabalho como prova de risco.

Mas o estudo não sugeriu que esses compostos causem câncer. Ele apenas indicou a necessidade de mais pesquisas. E, nas conclusões, os pesquisadores da agência reguladora escreveram que “esses resultados não indicam que as pessoas devam deixar de usar protetor solar”.

 

Estudos e entidades dizem que protetor solar é essencial

No geral, o consenso científico é claro: o protetor solar protege contra o câncer de pele.

Um dos estudos mais citados é um ensaio clínico randomizado sobre o tema, que acompanhou cerca de 1.600 adultos por dez anos e foi publicado no Journal of Clinical Oncology. A pesquisa mostrou que o grupo que usava protetor diariamente teve menos casos de melanoma (11 contra 22), indicando quase metade do risco. A diferença foi ainda mais clara nos casos mais graves (melanomas invasivos), com bem menos ocorrências entre os usuários regulares do produto. 

Outro estudo, da Cancer Council Australia, publicado no Australian and New Zealand Journal of Public Health, estimou que, apenas em 2010, o uso regular de protetor solar ao longo da década anterior evitou mais de 1.700 casos de melanoma e cerca de 14 mil casos de câncer de pele não melanoma entre os australianos.

Entidades globais também insistem na importância de usar protetor solar para evitar o câncer de pele. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, por exemplo, recomenda “aplicar uma camada generosa em toda a pele exposta”.

Veja também: O que significam os fatores do protetor solar?

 

Isso quer dizer que todo protetor solar é bom? 

Não necessariamente. No ano passado, o grupo de defesa do consumidor Choice, da Austrália, testou 20 protetores solares populares e encontrou que apenas quatro entregavam o FPS, o fator de proteção solar, declarado.

A repercussão foi grande, repercutiu em todo o mundo e acabou ampliando a desconfiança. Para Brandão, porém, o episódio não deve ser interpretado como um abandono do protetor solar, mas como um alerta para a importância de escolher produtos adequados e usá-los corretamente.

 

Por que o protetor solar protege? 

A luz do sol, mais especificamente a radiação ultravioleta (UV), pode danificar o material genético das células da pele. Quando esse dano se acumula e não é reparado corretamente, podem surgir mutações que levam ao câncer.

“A radiação ultravioleta tem energia suficiente para destruir ligações entre moléculas de DNA. Mais de 75% dos melanomas cutâneos em populações brancas, por exemplo, são atribuídos ao efeito mutagênico da radiação UV”, diz Cassiano. 

Segundo o médico, os filtros solares contêm moléculas ativas que interagem com a radiação solar por reflexão, dispersão ou absorção, reduzindo o impacto sobre a pele.

O câncer de pele é o tipo mais frequente no Brasil, representando quase um terço de todos os tumores malignos registrados no país. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no país entre 2026 e 2028, com o de pele não melanoma liderando a lista.  

 

Protetor solar é suficiente? 

O uso de protetor solar deve ser diário, preferencialmente com FPS 30 ou superior, com preferência a produtos testados e de marcas confiáveis. No entanto, segundo Brandão, essa não deve ser a única medida, e outras estratégias de proteção também são recomendadas, como: 

  • evitar a exposição solar nos horários de pico, entre 10h e 16h, quando a radiação UV é mais intensa;
  • usar barreiras físicas de proteção, como roupas com fator de proteção UV, chapéus de abas largas e óculos de sol com filtro UV certificado;
  • observar a pele regularmente, prestando atenção a feridas que não cicatrizam em até quatro semanas, manchas que mudam de forma, cor ou tamanho, ou qualquer lesão diferente do padrão da sua pele;
  • realizar consulta dermatológica periódica, especialmente em pessoas de maior risco, como aquelas com pele clara, histórico familiar de melanoma ou muitas pintas atípicas.

Veja também: Câncer de pele: sinais que você precisa saber identificar



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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