Faltam poucos dias para o Carnaval. Na contagem regressiva para a folia que todos os anos leva milhões de brasileiros às ruas, muita gente cogita dar uma pausa em remédios de uso contínuo para “aproveitar melhor” a festa e beber uma cervejinha. A prática, no entanto, não é segura e pode trazer riscos sérios à saúde.
Segundo profissionais de saúde, quando um tratamento é interrompido de forma inadequada, a doença que estava controlada pode voltar ou até piorar, gerando sintomas ainda mais incômodos.
Algumas pessoas podem pensar: “ah, vou parar apenas três dias durante o Carnaval e depois volto”, mas não existe um prazo seguro. “Medicamentos de uso contínuo não devem ser suspensos por conta própria, seja para ‘dar um tempo’, beber álcool ou qualquer outro motivo recreativo. Na dúvida, sempre vale a pena falar com seu médico”, explica Ricardo Gullit, médico clínico dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, em Curitiba (PR).
O especialista exemplifica: uma pessoa com epilepsia que interrompe o tratamento pode voltar a ter crises convulsivas. Se isso acontece numa piscina, dirigindo ou em um local alto, o risco de um acidente grave é enorme. O mesmo vale para outras doenças, como pressão alta, diabetes, asma, insuficiência cardíaca, depressão, entre outras.
Efeito rebote
Parar de tomar um remédio pode causar algo conhecido na medicina como “efeito rebote”. Na prática, isso acontece quando a interrupção súbita ou rápida de um medicamento provoca o reaparecimento dos sintomas originais — frequentemente de forma mais intensa ou mais frequente do que antes do tratamento.
“É uma reação de adaptação do organismo para restabelecer o equilíbrio após a retirada de um estímulo químico contínuo”, diz Ricardo Benvenutti, nefrologista e vice-diretor clínico do Hospital VITA, também na capital paranaense.
Além disso, a interrupção também pode gerar abstinência, um conjunto de sintomas físicos e psicológicos nada agradáveis. Esses sintomas variam muito conforme o tipo de medicamento, sejam eles psiquiátricos, como antidepressivos, ou até mesmo os remédios para emagrecer, que têm se popularizado.
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Medicamentos psiquiátricos
Quando a pessoa interrompe um remédio psiquiátrico de forma abrupta, o corpo pode sentir bastante essa mudança, principalmente porque o cérebro já estava adaptado àquela substância. Isso é comum com antidepressivos, ansiolíticos e remédios para dormir, que atuam diretamente no sistema nervoso.
“O que pode aparecer são sintomas como tontura, enjoo, dor de cabeça, dificuldade para dormir, irritabilidade e uma ansiedade bem mais forte do que o habitual”, afirma Gullit.
Segundo o médico, algumas pessoas também relatam sensações estranhas no corpo, como “choquinhos”, além de confusão mental e mal-estar geral. E, em muitos casos, não é só o desconforto físico: os sintomas emocionais que estavam controlados — como tristeza, crises de ansiedade ou pânico — podem voltar, às vezes até mais intensos do que antes.
Remédios para perda de peso
Hoje, o principal grupo de medicamentos usados no tratamento da obesidade são os chamados análogos do GLP-1, drogas que imitam a ação de um hormônio natural do intestino, responsável por aumentar a saciedade e reduzir o apetite. Em geral, eles são aplicados uma vez por semana.
A suspensão desses remédios, na maioria dos casos, não provoca sintomas típicos de abstinência: ou seja, a pessoa normalmente não sente um mal-estar físico imediato ao interromper o uso. No entanto, segundo Gullit, isso não significa que parar seja inofensivo: ao suspender o tratamento, o efeito conquistado também é interrompido.
“É um raciocínio semelhante ao do remédio para pressão alta, quando se para de tomar, a pressão tende a subir novamente; da mesma forma, ao parar o tratamento da obesidade, o peso tende a aumentar. Portanto, não causa desconforto imediato, mas leva à perda do benefício alcançado com o uso contínuo do medicamento”, esclarece.
Também é importante ressaltar que esses medicamentos permanecem no organismo por dias.
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Então vale misturar remédio e álcool no Carnaval?
Na verdade, não. O ideal é não beber nada. A mistura de medicamentos com álcool é perigosa e deve ser evitada, pois pode causar reações adversas graves, como danos ao fígado, sonolência excessiva, alterações na pressão arterial e até anular ou potencializar o efeito dos remédios, segundo Benvenutti.
Ele lista os principais grupos de medicamentos com interações arriscadas:
- Medicamentos para o sistema nervoso central (psiquiátricos e sedativos): é uma das combinações mais perigosas, já que os dois atuam no cérebro, aumentando muito o risco de sedação excessiva, tontura e perda de coordenação;
- Analgésicos e anti-inflamatórios: a mistura com álcool eleva bastante o risco de sangramento gástrico, úlceras e danos ao fígado;
- Antibióticos: alguns podem causar reação grave, com vômitos, palpitações e taquicardia;
- Remédios para o coração e pressão alta: podem provocar queda acentuada da pressão (hipotensão), vertigens e desmaios.

