O que fazer para evitar o reganho de peso depois do emagrecimento

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O que fazer para evitar o reganho de peso depois do emagrecimento

Lutar contra a balança é uma realidade de muitos no Brasil. Quase um terço da população (31%) vive com obesidade, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025. Se emagrecer já é um desafio e tanto — devido a fatores genéticos, hormonais, ambientais e sociais —, quando a “meta” enfim é atingida, surge uma nova dificuldade: manter o peso perdido

“Quanto maior a perda de peso, maior tende a ser a resposta biológica do organismo tentando recuperar esse peso. Isso explica por que pacientes que emagrecem muito, seja com medicamentos, cirurgia ou intervenções intensivas, frequentemente enfrentam uma luta metabólica mais intensa para manter os resultados no longo prazo”, afirma Pedro Barreto, endocrinologista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP).

Muitas pessoas passam a vida toda no ciclo: fazer dieta, emagrecer, interromper a dieta, engordar. O problema é que a obesidade é uma doença crônica, isto é, não há cura, mas sim controle. Para isso, é necessário manter hábitos sustentáveis ao longo do tempo

Segundo Marcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP) e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), o efeito sanfona frequente pode mudar a composição corporal, porque a cada ciclo de perda e ganho, o paciente tende a perder massa muscular e recuperar o peso predominantemente na forma de gordura, causando sarcopenia a longo prazo.  

Perder peso é benéfico, mas o ideal é evitar flutuações frequentes. “Mesmo perdas temporárias podem gerar benefícios parciais no perfil lipídico e no controle glicêmico, mas deve-se evitar grandes oscilações de peso, buscando um emagrecimento mais lento e sustentável”, explica o médico. 

Veja também: Reganho de peso é maior após uso de GLP-1? Entenda

 

Estratégias para evitar o reganho de peso

“Múltiplas estratégias têm evidência de eficácia, e a combinação de intervenções costuma ser mais efetiva do que abordagens isoladas”, diz Barreto. Veja a seguir as principais. 

 

Acompanhamento médico contínuo 

Uma das principais medidas, segundo o especialista, é o acompanhamento médico longitudinal e estruturado. 

“Há evidências de que intervenções de estilo de vida com suporte contínuo apresentam melhor manutenção do peso. A descontinuação do acompanhamento profissional está consistentemente associada ao reganho”, afirma Barreto. 

 

Atividade física

Fazer atividade física regularmente é fundamental, especialmente o treinamento de força, que ajuda a preservar massa magra durante a perda de peso, minimizando a redução da taxa metabólica de repouso. 

“Embora não previna completamente a adaptação metabólica, [a atividade física] minimiza a perda muscular, que contribuiria para maior redução do gasto energético. O exercício aeróbico, por sua vez, contribui para o balanço energético negativo e melhora cardiometabólica, mas, isoladamente, tem efeito mais modesto na prevenção do reganho”, esclarece o médico. 

De acordo com ele, a combinação de exercício aeróbico e resistido tende a ser a abordagem mais efetiva para preservar uma composição corporal favorável.

Além do exercício físico planejado, Mancini destaca que é importante manter um estilo de vida ativo (fazendo atividades como caminhar e subir escadas, por exemplo). 

 

Consumo adequado de proteínas

A ingestão proteica adequada é outro ponto importante. “Dietas com maior teor de proteína estão associadas a maior saciedade, melhor preservação de massa magra e possível aumento da termogênese induzida pela dieta”, ressalta Barreto. 

 

Automonitoramento regular do peso

Fazer o automonitoramento regular do peso ajuda a detectar oscilações antes que se tornem um reganho consolidado, alerta Mancini. Registro alimentar e de exercícios também são úteis. 

“Ferramentas como pesagem regular, diária ou semanal, registro alimentar por aplicativos e monitoramento de atividade física por pedômetros ou smartwatches podem ajudar nesse processo”, indica Barreto. 

 

Psicoterapia

Muitos indivíduos podem se beneficiar de um suporte psicológico. “Intervenções comportamentais estruturadas, como terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional e resolução de problemas, melhoram a adesão e a manutenção”, detalha o endocrinologista.

 

Sono adequado e manejo do estresse

Muitas vezes deixados de lado, o sono de qualidade e o manejo do estresse são ferramentas importantes para uma rotina mais saudável. Privação de sono e estresse crônico estão associados a alterações hormonais que favorecem o ganho de peso, como aumento de cortisol e grelina (hormônio da fome) e redução de leptina (hormônio da saciedade). 

“Também podem levar a maior ingestão alimentar, especialmente de alimentos mais palatáveis, e à redução da atividade física. Estudos qualitativos identificam que estresse e alimentação emocional são percebidos como razões importantes para o reganho, mesmo na ausência de aumento de fome fisiológica”, diz Barreto. 

 

Manutenção do tratamento medicamentoso

Embora muitos vejam os medicamentos apenas como estratégia temporária para perder peso, eles também são ferramentas para prevenir o reganho. Segundo os especialistas, esse tipo de tratamento pode — e muitas vezes, deve — ser mantido de forma contínua.

“Organizações internacionais de saúde como a própria OMS e a SBEM e a Abeso [entidades nacionais] reconhecem formalmente a obesidade como uma doença crônica, recidivante e progressiva. Assim como medicamentos para hipertensão ou diabetes, os análogos de GLP-1 e GIP (como a semaglutida e a tirzepatida) foram desenvolvidos para o controle de longo prazo. Dados clínicos robustos comprovam que as medicações mantêm a segurança e a eficácia metabólica e cardiovascular em tratamentos prolongados”, destaca Mancini.

O tratamento com medicamentos deve ser sempre indicado e acompanhado por um médico, de forma individualizada e segura. 

Barreto alerta que também é importante entender que o tratamento não é igual para todos. “Alguns pacientes conseguem manter bons resultados com redução gradual da dose ao longo do tempo. Outros podem precisar de manutenção prolongada em doses plenas. A decisão depende da gravidade da obesidade, das doenças associadas, da resposta clínica e da tolerabilidade ao tratamento.”

Além disso, ele aponta que é preciso reduzir o estigma em torno dessas medicações, já que ainda existe a ideia equivocada de que usar medicamento para obesidade seria uma “muleta” ou um “atalho”. 

“Essa visão ignora décadas de evidência científica mostrando que a obesidade envolve alterações hormonais, metabólicas, genéticas e neurobiológicas complexas. Esperar que todos os pacientes consigam controlar uma doença crônica exclusivamente ‘na força de vontade’ não é diferente de pedir que alguém controle hipertensão ou diabetes sem tratamento adequado”, enfatiza. 

Veja também: Medicamentos para perda de peso: indicações, diferenças e riscos do uso inadequado

 

Pesquisas apontam novos caminhos 

O estudo ATTAIN-MAINTAIN, publicado recentemente na revista científica Nature Medicine, avaliou a transição de medicamentos injetáveis para o orforglipron, um análogo de GLP-1 administrado por via oral (já comercializado no exterior sob o nome Foundayo, mas ainda não aprovado no Brasil), como estratégia de manutenção do peso perdido. 

“No estudo, pacientes que haviam alcançado platô de emagrecimento após uso de tirzepatida ou semaglutida foram randomizados para receber orforglipron oral diário ou placebo na fase de manutenção. Os resultados foram positivos, com eficácia significativa do orforglipron na preservação da perda ponderal e no alcance de todos os desfechos secundários avaliados. O trabalho traz evidências importantes de que a obesidade deve ser encarada não apenas como uma condição que exige perda de peso, mas também como uma condição que exige uma estratégia estruturada e contínua de manutenção metabólica”, esclarece Barreto. 

Para ele, a pesquisa também chama atenção para o potencial da chamada terapia intermodal, na qual diferentes medicações são utilizadas em etapas distintas do tratamento. 

“Essa abordagem pode ampliar a adesão terapêutica, especialmente pela praticidade de uma opção oral, além de potencialmente reduzir custos no cuidado crônico da obesidade. Embora ainda sejam necessários mais estudos para consolidar essa estratégia como prática padrão, os dados apontam para um modelo de tratamento cada vez mais individualizado, racional e sustentável no longo prazo”, conclui. 



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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