Os medicamentos análogos de GLP-1 e GIP, que auxiliam na perda de peso, são recomendados para pessoas com diabetes, obesidade ou sobrepeso com comorbidades associadas, e podem ser grandes aliados no tratamento dessas condições. Contudo, é preciso atenção quando se usa, em conjunto, métodos contraceptivos orais, cujo efeito pode ser reduzido, aumentando o risco de uma gestação não planejada.
Em 2025, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) divulgou nota com recomendações sobre o tema. “Estudos realizados com a semaglutida não demonstraram impacto relevante na eficácia dos contraceptivos hormonais orais. Em uma revisão com seis estudos em usuárias de contraceptivos hormonais orais e vários tipos de agonistas do GLP-1, entretanto, a tirzepatida mostrou uma redução clinicamente relevante nas concentrações séricas dos hormônios contraceptivos”, diz o texto.
Ainda segundo a entidade, esse efeito parece ser mais importante nas primeiras quatro semanas de uso do medicamento e durante os períodos de ajuste de dose.
Qual a relação dos remédios com a gravidez?
Segundo Rosiane Mattar, diretora científica da Associação de Ginecologista e Obstetrícia do Estado de São Paulo (Sogesp) e presidente da Comissão Nacional Especializada de Gestação de Alto Risco da Febrasgo, os medicamentos análogos de GLP-1 e GIP podem interferir indiretamente na ocorrência de uma gravidez tanto pelo impacto sobre a absorção de anticoncepcionais orais quanto por alterações hormonais associadas à perda de peso.
“Essas medicações retardam o esvaziamento gástrico, reduzindo a sensação de fome, mas, por outro lado, podem levar a menor a absorção dos anticoncepcionais orais, principalmente nos primeiros meses de uso e após ajustes de dose. Essa menor absorção pode diminuir a eficácia contraceptiva do método e aumentar o risco de gravidez não planejada”, afirma a ginecologista e obstetra.
A recomendação da Febrasgo orienta que:
- É possível manter o uso de contraceptivos orais durante o uso de semaglutida, com acompanhamento médico;
- Mulheres que utilizam tirzepatida devem ser orientadas a não usar contraceptivos hormonais orais, a trocar de método ou a associar métodos de barreira por pelo menos quatro semanas após o início do uso ou ajuste de dose.
Segundo a especialista, durante o uso desses medicamentos, são preferíveis métodos que não dependem da absorção gastrointestinal. “Entre os mais recomendados, estão o DIU de cobre, DIU hormonal (levonorgestrel), implante subdérmico, contraceptivos injetáveis, adesivos ou anéis vaginais ou os métodos de barreira, como preservativos, preferencialmente associados a outro método. A escolha deve sempre ser individualizada, considerando idade, histórico clínico, desejo reprodutivo e tolerabilidade”, explica.
Veja também: Como fazer a troca de pílula anticoncepcional corretamente
Perda de peso melhora a fertilidade
Outro ponto importante é que a perda de peso impulsionada pelos medicamentos pode levar à regularização dos ciclos menstruais, especialmente em mulheres com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos (SOP).
“Com isso, ocorre melhora da ovulação e aumento da possibilidade de fecundidade, elevando o risco de gravidez caso não haja contracepção eficaz. Ou seja, mesmo sem interferência direta no método anticoncepcional, a melhora metabólica por si só já pode aumentar a chance de engravidar”, diz a médica.
Gestação e amamentação
Os medicamentos análogos de GLP-1 e GIP não devem ser utilizados durante a gravidez e a amamentação, já que não há dados de segurança para esse público.
“São medicamentos relativamente novos, não avaliados em gestantes e no pós-parto. Para mulheres que desejam engravidar, a orientação é interromper o uso antes da concepção, respeitando o intervalo de segurança indicado pelo médico. Este intervalo pode variar conforme a medicação, mas em geral não é menor que um mês”, esclarece Mattar.
Acompanhamento médico é fundamental
O uso de remédios para perda de peso deve ser feito apenas com acompanhamento médico. Além da prescrição adequada, é importante que a paciente seja orientada sobre questões reprodutivas. “O acompanhamento médico é fundamental porque essas medicações impactam o metabolismo, ciclo menstrual, fertilidade, absorção de medicamentos e planejamento reprodutivo. Somente uma avaliação individualizada permitirá escolher o método contraceptivo mais seguro, ajustar doses corretamente, definir o momento adequado para interromper o tratamento, se houver desejo gestacional e prevenir riscos à mulher e a uma eventual gestação”, conclui a especialista.
Veja também: Medicamentos para perda de peso: indicações, diferenças e riscos do uso inadequado

