A expressão “fake news” não é nova, embora tenha ganhado popularidade nos últimos anos. Surgido nos Estados Unidos no fim do século 19, o termo era utilizado para se referir, de modo pejorativo, a tabloides que publicavam sistematicamente inverdades.
Em saúde, o fenômeno tampouco é novidade. Quem nunca escutou que manga com leite faz mal ou que chá de boldo faz bem para o fígado? Afirmações como essas eram propagadas graças à ignorância ou à falta de acesso a serviços de saúde, o que levavam as pessoas a buscar alternativas para lidar com problemas que estavam fora da sua compreensão.
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A diferença das crenças populares para o fenômenos que estamos vendo hoje em dia é que, atualmente, há uma infinidade de peças produzidas para levar propositalmente as pessoas ao engano. Temas como vacinação, alimentação e tratamentos de doenças nunca foram tão cercados de desinformação, seja para alterar comportamentos que venham de encontro a determinadas convicções seja para vender produtos.
Desse modo, muitos pesquisadores que estudam o tema têm preferido o uso de “desinformação” para se referir à propaganda produzida com o intuito deliberado de enganar e compartilhada com esse fim. Faço parte desse grupo, que entende que a intenção de enganar é primordial para diferenciar a desinformação do resto das notícias falsas.
No dia 22, a revista Nature publicou os resultados de uma pesquisa envolvendo 16 países, entre eles o Brasil, e 16 mil pessoas para verificar suas crenças em relação a temas de saúde. Os resultados são estarrecedores, como bem afirmou a publicação.
Dados da pesquisa
A pesquisa foi feita pelo Eldeman Trust Institute de Nova York, uma organização civil que conduz pesquisas com o intuito de verificar o grau de confiança da sociedade.
Os entrevistados representam países diversos tanto do ponto de vista socioeconômico como cultural, como França, Estados Unidos, Brasil, México, Coreia do Sul e Índia.
Os entrevistados deveriam dizer se concordavam ou não com afirmações amplamente divulgadas nas redes sociais, como:
- Proteína animal é mais saudável do que proteína vegetal;
- A presença de flúor na água é prejudicial ou não benéfica à saúde;
- Os riscos da vacinação infantil superam os benefícios;
- O leite cru é mais saudável que o leite pasteurizado;
- O uso de acetaminofeno ou paracetamol durante a gestação causa autismo;
- As vacinas são utilizadas para o controle populacional.
Para cada afirmação, entre 25% e 32% dos entrevistados disseram acreditar nela, e outra porcentagem considerável (17% a 39%) reconheceu não saber se era verdadeira ou falsa. No total, 70% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma das afirmações.
Os pesquisadores se disseram surpresos com o alto número de pessoas que questionaram evidências científicas já amplamente consolidadas.
Apesar de o fenômeno estar presente em todos os países pesquisados, ele é mais grave em determinados locais. Em países como Estados Unidos – cujo secretário da Saúde Robert F. Kennedy Jr. já disseminou várias desinformações em saúde – , Brasil, África do Sul, Índia, Alemanha e Reino Unido pelo menos 50% dos entrevistados afirmaram acreditar em uma ou mais declarações de saúde “polêmicas”.
Outro dado que impressiona diz respeito ao perfil das pessoas que acreditaram em três ou mais alegações falsas. A maioria delas havia frequentado universidade e tinha o costume de consumir notícias sobre saúde, o que mostra que o fenômeno da desinformação também atinge pessoas supostamente bem-informadas, muitas com alto nível educacional.
Desinformação e infodemia
Para os pesquisadores, o fenômeno de desinformação em saúde vem se espalhando para além dos grupos que agem motivados por questões ideológicas, como os antivacinistas. E, de fato, é o que mostram a pesquisa e outros estudos na área.
A Nature, por exemplo, citou outra pesquisa amplamente divulgada e conduzida pelo Unicef que revelou que após a pandemia de covid-19, a confiança nas vacinas para crianças caiu em 52 dos 55 países pesquisados.
Outra pesquisa, realizada no Reino Unido, revelou que 40% das pessoas afirmaram que hoje em dia há tanta informação disponível, que é difícil reconhecer o que é verdadeiro ou falso em relação à ciência.
O chefe de pesquisa do Edelman Trust Institute, David Bersoff, afirmou à revista que há, atualmente, um excesso de informações conflitantes, provenientes de redes sociais, notícias e conversas com pessoas da vida real que dificultam saber o que é verdade ou não.
Esse fenômeno vem sendo chamado de “infodemia“, um excesso de informações verdadeiras ou falsas que circulam com rapidez, dificultando o acesso a fontes confiáveis e orientações seguras. Enfrentá-lo, contudo, não é tarefa simples.
Comunicação em saúde
A pesquisa do Edelman Trust Institute mostra que as pessoas ainda confiam em fontes com formações acadêmicas, mas essa confiança é igualmente dividida por recomendações pessoais e influenciadores de mídias digitais. Assim, não há diferença se a informação foi obtida de um órgão como o Ministério da Saúde ou de um vizinho que mandou um vídeo de um influenciador sem qualificação.
“Houve uma proliferação de ‘especialistas’ e de vozes confiáveis e, como resultado, o conhecimento dos cientistas foi de certa forma diluído”, diz Bersoff à Nature.
É, portanto, cada vez mais importante que órgãos e instituições de saúde invistam em comunicação como forma de esclarecer dúvidas e disseminar informações corretas à população. E isso deve ser feito de forma direta, objetiva e em linguagem acessível.
Caso isso não ocorra, as pessoas estarão cada vez mais à mercê de falsários e charlatães que defendem interesses escusos.

