Planejar uma gestação geralmente envolve uma série de expectativas e preocupações. A saúde tanto da mãe quanto do futuro bebê talvez seja uma das principais. Mas não há motivo para pânico e nem medidas drásticas: o primeiro passo é marcar uma consulta e fazer uma avaliação individualizada.
Vale destacar que tanto a mulher quanto o homem têm papel importante no planejamento pré-concepção. Nesta reportagem, abordaremos especificamente a saúde feminina.
“O planejamento pré-concepcional é, sem dúvida, um importante passo para uma gestação saudável. Idealmente, a mulher deve procurar seu ginecologista de três a seis meses antes de tentar engravidar. Nessa consulta, o médico fará uma avaliação clínica completa, incluindo histórico de saúde, doenças na família, uso de medicamentos e estilo de vida. Essas informações serão a base para as próximas etapas da consulta”, afirma Silvana Quintana, coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) e professora titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
Principais exames recomendados antes da gestação
De acordo com a especialista, existe uma possibilidade variada de exames laboratoriais de rotina, mas os principais são:
- hemograma completo e tipagem sanguínea (com fator Rh);
- glicemia de jejum e perfil lipídico;
- avaliação da função tireoidiana (TSH);
- sorologias para rubéola, toxoplasmose, sífilis, hepatites B e C, HIV e HTLV I/II;
- exame de urina e urocultura;
- rastreamento do câncer de colo do útero conforme a faixa etária e as recomendações vigentes, utilizando citologia ou teste para HPV de alto risco, quando disponível.
“O importante é que cada mulher tenha um plano individualizado, pois não existe uma lista única que sirva para todas”, destaca.
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Suplementação e vacinas
Quando se trata de pré-concepção, o suplemento com maior evidência científica é o ácido fólico. A recomendação padrão, segundo a médica, é iniciar 400 microgramas de um a três meses antes da concepção e mantê-lo durante o primeiro trimestre da gestação.
“O ácido fólico reduz significativamente o risco de defeitos no tubo neural do bebê, como a espinha bífida e a anencefalia. Em casos de maior risco, como histórico de gestação anterior com esse tipo de defeito ou uso de alguns anticonvulsivantes, por exemplo, a dose pode ser elevada para até 4 miligramas diários”, detalha.
Vitamina D e ferro podem ser indicados em casos de deficiência comprovada. “Suplementos adicionais, como ômega-3, iodo ou outros compostos, devem ser avaliados individualmente, pois não há recomendação universal para todas”, explica Quintana.
Em relação às vacinas, segundo ela, o calendário pré-concepcional prioritário inclui:
- rubéola e sarampo (tríplice viral): deve ser aplicada pelo menos um mês antes de tentar engravidar, pois é uma vacina de vírus vivo atenuado e contraindicada na gestação;
- varicela (catapora): indicada para mulheres sem imunidade prévia, com o mesmo intervalo de segurança;
- hepatite B: se o esquema não estiver completo;
- influenza: pode ser aplicada antes ou durante a gestação;
- dTpa (difteria, tétano e coqueluche): recomendada a cada gestação, mesmo que já tenha sido aplicada anteriormente;
- covid-19: de acordo com as recomendações atualizadas do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e das autoridades sanitárias vigentes.
Consulte o Calendário de Vacinação Gestante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim) para checar todas as vacinas recomendadas e contraindicadas durante a gravidez.
Hábitos: o que priorizar e o que evitar antes da gestação?
Os hábitos de vida também impactam a fertilidade e podem contribuir para uma gestação mais saudável. Pensando nisso, Quintana lista quais devem ser priorizados por mulheres que planejam engravidar:
- alimentação equilibrada e variada, rica em folatos naturais (verduras verde-escuras, feijão, lentilha), proteínas de qualidade, frutas e grãos integrais;
- atividade física regular de intensidade moderada;
- sono de qualidade e manejo do estresse, que impacta diretamente o eixo hormonal reprodutivo;
- manutenção de peso adequado antes de engravidar, uma vez que tanto o sobrepeso quanto o baixo peso aumentam riscos gestacionais;
- acompanhamento odontológico, pois a saúde bucal tem relação comprovada com desfechos da gestação.
Além disso, também é importante abandonar hábitos que podem aumentar o risco de complicações durante a gestação. Veja os principais:
- tabagismo: aumenta o risco de aborto, parto prematuro, baixo peso ao nascer e outras complicações. Não existe quantidade segura de cigarro na gestação;
- álcool: também não há dose segura. A exposição fetal ao álcool pode causar distúrbios do neurodesenvolvimento e síndrome alcoólica fetal;
- drogas recreativas, incluindo maconha, cocaína, crack e outras substâncias psicoativas: estão associadas a graves complicações maternas e fetais;
- uso indiscriminado de medicamentos, fitoterápicos e suplementos sem orientação médica: alguns são teratogênicos, ou seja, podem levar à malformação fetal;
- exposição a substâncias tóxicas no ambiente de trabalho ou doméstico, como pesticidas, solventes e metais pesados.
“Vale destacar que a cessação do tabagismo e do álcool, idealmente, deve acontecer antes da concepção e não apenas após a confirmação da gravidez”, recomenda a ginecologista.
Mulheres com doenças crônicas ou autoimunes
Mulheres com doenças crônicas — como diabetes, hipertensão, hipotireoidismo, lúpus, artrite reumatoide, doença inflamatória intestinal, epilepsia, entre outras —, podem engravidar e ter gestações saudáveis, mas requerem planejamento mais cuidadoso e, muitas vezes, acompanhamento multidisciplinar.
Um dos principais cuidados, segundo a médica, é ter o controle adequado da doença antes de engravidar, já que gestações iniciadas em fase de doença ativa aumentam o risco de complicações. Outro ponto é revisar os medicamentos em uso, pois alguns podem ser contraindicados durante a gravidez e precisam ser substituídos com antecedência. A troca não pode ser feita de forma abrupta.
“Mulheres com obesidade também se beneficiam de avaliação pré-concepcional específica, uma vez que o excesso de peso está associado a maior risco de diabetes gestacional, hipertensão, pré-eclâmpsia e complicações obstétricas”, alerta.
De acordo com ela, é importante também fazer uma avaliação da função renal, cardíaca e de outros órgãos-alvo que possam ser afetados pela gestação, além de consulta prévia ao especialista da doença de base (reumatologista, cardiologista, endocrinologista) para planejamento conjunto com o obstetra.
Já durante a gestação, é indicado um monitoramento mais frequente, com possível necessidade de ultrassonografias seriadas e avaliação do bem-estar fetal.
“Ter uma doença crônica não impede a maternidade, mas exige que a decisão de engravidar seja tomada com informação, suporte médico adequado e, sempre que possível, com a doença bem controlada”, afirma Quintana.
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Trimestre zero: trend ou ciência?
Conteúdos nas redes sociais têm abordado o chamado “trimestre zero”, período de 90 dias antes da concepção, propondo uma espécie de protocolo intenso com dietas restritivas, rotina rígida de treinos e suplementação, por exemplo. Segundo os especialistas, a ideia de preparar o corpo nesse período tem embasamento biológico, mas é preciso cautela.
“Os estudos mais recentes demonstram que mudanças estabelecidas no estilo de vida após cerca de 90 dias podem melhorar parâmetros gestacionais e de fertilidade. Entretanto, nada na medicina suporta atividades físicas extenuantes, dietas super restritivas, suspensão de medicações de uso contínuo ou protocolos detox. Inclusive, essas intervenções em pessoas já previamente sadias têm pouca ou nenhuma melhoria na fertilidade. A gestação é um momento para focar em saúde, não em performance”, afirma Pedro Porto, ginecologista e obstetra e especialista em ginecologia do esporte pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Seguir protocolos ensinados na internet sem buscar avaliação médica pode oferecer riscos à saúde e até impactar negativamente a fertilidade em casos extremos.
De acordo com Porto, no caso do trimestre zero, em particular, a associação de dietas restritivas com atividades físicas extenuantes pode levar a uma baixa disponibilidade energética em homens e mulheres — condição clínica na qual a quantidade de energia ingerida no dia não é suficiente para as atividade metabólicas basais somadas ao gasto da atividade física. “Em quadros assim, mais frequentes em mulheres, há alterações do padrão do ciclo menstrual, que se tornam mais espaçados ou até mesmo ausentes. Nesses casos, há uma redução na taxa de sucesso de gestação a cada ciclo, visto que há redução do número de ciclos menstruais ao ano”, explica.
Quintana reforça ainda que “mais suplemento” não significa necessariamente “mais fertilidade”, e que o uso excessivo de vitaminas e compostos antioxidantes sem indicação médica pode gerar custos desnecessários e, em alguns casos, efeitos adversos. Além disso, esse tipo de conteúdo pode gerar uma sobrecarga mental nas mulheres.
“O risco das redes sociais não é apenas a desinformação, é a ansiedade gerada em mulheres que não conseguem seguir protocolos complexos, e a falsa sensação de que uma gravidez que não veio rapidamente é ‘culpa’ de não ter feito o suficiente. A medicina baseada em evidências recomenda consulta médica individualizada, hábitos de vida saudáveis e ácido fólico. O resto deve ser avaliado caso a caso”, conclui a ginecologista.

