Um levantamento realizado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) ouviu 290 médicos ginecologistas obstetras a respeito do atendimento à mulheres vítimas de violência (seja ela física, sexual, psicológica ou outra). Entre os respondentes, 66% são mulheres, 74% têm mais de 50 anos e 61% atendem tanto na rede pública quanto na rede privada.
Sobre o reconhecimento da violência na prática clínica, 83,74% dos profissionais afirmaram que o ginecologista obstetra é frequentemente o primeiro profissional de saúde a ter contato com vítimas de violência. Além disso, em relação à frequência no atendimento de casos, 41,72% relataram atender vítimas de violência ocasionalmente; 40% raramente; 15,52% frequentemente; e 2,76% nunca. Ou seja, mais da metade (57,24%) atende pelo menos ocasionalmente.
“A gente partiu da premissa de que o ginecologista obstetra se não o primeiro, muitas vezes é a única pessoa que vai saber daquela violência, que vai poder identificar que aquilo configura uma violência — seja uma violência explícita, seja uma violência sexual, inclusive dentro dos relacionamentos, seja uma violência invisível ou invizibilizada, como o câncer de colo de útero e a mortalidade materna”, afirma Lia Cruz Damásio, diretora de Defesa e Valorização Profissional da Febrasgo.
Tipos de violência
Segundo a pesquisa, as principais violências identificadas foram:
- violência psicológica (83%);
- violência sexual (50%);
- violência física (34,38%);
- violência patrimonial (24,65%).
No caso da violência psicológica, a especialista diz que muitas vezes as pacientes não identificam sozinhas que se trata de violência. “A violência física é parte da rotina clínica dos nossos médicos e a violência psicológica é a parte mais silenciosa e mais frequente.”
Ela destaca ainda que o conceito de violência é amplo e abrange tudo o que é inaceitável e gera desconforto, inclusive no ambiente de atendimento de saúde.
“Então, não só a violência sexual, mas também a violência física, a violência psicológica, a violência patrimonial, a violência moral, a violência institucional e estrutural e violências silenciosas, como o desprezo à queixa de pacientes, que são muito frequentes no ambiente ginecológico, como [queixas de] dor, dificuldade na relação sexual e também o atraso e a omissão em diagnósticos”, pontua a médica. “Por exemplo, quando a gente fala em câncer de colo de útero e mortalidade materna, em geral, são resultados de um sistema completo de saúde que falhou em oferecer a evitação para essas causas que são potencialmente evitáveis ou podem diminuir bastante”, completa.
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Preparo dos profissionais
Quando perguntados sobre o nível de preparo para atender pacientes vítimas de violência, 51,38% responderam se sentir moderadamente preparados. 20,34% relataram se sentir bem preparados, 5,17% muito preparados, 21,38% pouco preparados e 1,72% nada preparados.
“Cinco por cento se sentem muito preparados. Esse ‘muito preparado’ é para ser um item da matriz de competência da residência de ginecologia e obstetrícia, então, no mundo ideal, ao concluir a sua especialização, o médico deveria se sentir muito preparado. A gente sabe que falta estrutura, mas os dados escancaram essa realidade”, destaca Damásio.
Um ponto importante nessa discussão é que muitos profissionais enfrentam sobrecarga de trabalho, atuando em mais de um serviço de saúde ao mesmo tempo. Outra problema é a falta de capacitação.
“Na nossa prática de médicos, falta de tempo, não temos capacitação específica. Às vezes, o médico fica chateado de achar que vai causar desconforto, que seria uma obrigação nossa justamente, ao analisar isso, impedir esse desconforto”, afirma Maria Celeste Osório Wender, presidente da Febrasgo.
Papel do ginecologista no enfrentamento à violência
Os participantes da pesquisa reconhecem como atribuições do ginecologista obstetra:
- acolher com escuta qualificada (90,34%);
- identificar sinais de violência (80%);
- encaminhar para rede de proteção (77,93%);
- orientar sobre direitos (68,28%);
- notificar conforme legislação (54,83%).
Segundo Damásio, o ginecologista obstetra, pela própria natureza do seu atendimento, durante a anamnese, vai lidar com questões ligadas à intimidade da paciente. A consulta muitas vezes envolve tirar a roupa e falar sobre a atividade sexual, por exemplo. “Nesses momentos, muitas vezes a paciente pode dar sinais ou pode relatar eventos que são caracterizados como violência, e às vezes ela nem sabe que são”, explica.
Os sinais podem ser físicos, como hematomas, arranhões, lesões em áreas protegidas do corpo, queimaduras e fraturas inexplicáveis; ou comportamentais, como irritabilidade, inquietude ou desconforto em falar sobre determinados assuntos.
“É necessário estar atento, sensível ao tema, com toda a escuta, abordagem e atendimento humanizado, para que se houver essa suspeita, haja oportunidade para ela falar”, reforça a ginecologista.
Principais desafios e redes de apoio
Em relação aos obstáculos estruturais, 59,17% dos médicos sentem falta de uma rede de apoio, e 44,98% relatam dificuldades legais ou burocráticas. Além disso, 43% conhecem pouco ou não conhecem os fluxos de notificação e encaminhamento.
“Essa falta dessa estrutura física, legal, de conhecimento de como funciona a rede, até de denúncias e de acolhimento na sua região, é o que deixa esses médicos, provavelmente, se sentirem desamparados”, diz Damásio.
Para ela, é preciso que os profissionais conheçam os mecanismos de apoio a nível nacional e local, como contatos com delegacias de atenção à mulher, funcionamento das secretarias de saúde e ações conjuntas com o Ministério Público. Também é necessário manter a educação continuada, com divulgação de protocolos de assistência, medicações e profilaxias a serem feitas, exames necessários, entre outros.
Isso tudo sem esquecer da formação inicial do ginecologista, que já deveria prepará-lo para esse tipo de situação.
“Qual a situação ideal? Esse profissional recebeu formação adequada na graduação, saiu [dali] um médico que entende a dimensão do problema, a magnitude da violência contra a mulher e da questão de gênero no Brasil. Esse médico fez uma residência em ginecologia e obstetrícia que cumpriu as matrizes de competência, aprendeu a conduzir, identificar, tratar e encaminhar; e depois, no mercado de trabalho, nesse cenário ideal, ele tem todo o suporte institucional e dos sistemas de saúde e de polícia daquele local em que atende”, conclui a especialista.
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