Há uma ideia antiga e bastante difundida entre pacientes com câncer e pessoas próximas: a de que emoções não elaboradas, luto, estresse e ansiedade poderiam estar por trás do desenvolvimento da doença. Essa crença, ainda presente no senso comum, atribui ao indivíduo uma responsabilidade equivocada pelo adoecimento. Agora, porém, um estudo desmonta essa narrativa.
Uma meta-análise (tipo de estudo que reúne resultados de várias pesquisas) com dados de quase 422 mil pessoas, publicada no fim de março na revista Cancer, mostrou que, para a maioria dos tipos de câncer, fatores psicossociais não estão associados a um risco aumentado da doença — que mata cerca de 10 milhões de pessoas por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os pesquisadores avaliaram cinco dimensões: perdas de pessoas próximas; apoio social percebido (o quanto a pessoa sente que pode contar com amigos, família ou parceiros); neuroticismo (tendência a experimentar emoções negativas, como ansiedade e preocupação); sofrimento psicológico geral; angústia e estado civil.
“Levantamentos globais e robustos como esse são importantes para consolidar a evidência em uma escala populacional maciça, oferecendo uma base irrefutável para desmistificar a doença na sociedade”, diz Ramon Andrade de Mello, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC).
Menos culpa, mais ciência
Segundo Daniélle Amaro, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein e cofundadora do canal Longidade, o estudo ajuda a tirar um peso importante: a culpabilização do paciente pelas próprias emoções.
“A mensagem central é: ninguém desenvolve câncer porque ficou triste, sofreu uma perda, passou por estresse ou não ‘pensou positivo’ o suficiente. O paciente não deve ser culpabilizado. Emoções não devem ser tratadas como causa moral da doença.”
Para Mello, a ideia de que alguém teria “atraído” ou desenvolvido câncer por nutrir ressentimento ou por ter uma personalidade ansiosa, além de ser anticientífica, sempre foi cruel. “Traz um fardo psicológico que não deve ser aceito em um momento de extrema vulnerabilidade”, afirma.
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O caso do câncer de pulmão
O estudo identificou que fatores emocionais podem estar associados a um tipo específico de câncer: o de pulmão. Entre eles, destacam-se a percepção de baixo apoio social, não estar em um relacionamento (como no caso de pessoas solteiras, divorciadas ou viúvas) e a vivência de perdas recentes, como a morte de alguém próximo.
A ligação, no entanto, não é direta, disseram os pesquisadores. Quando eles ajustam os dados para fatores de risco já conhecidos — especialmente o tabagismo —, essa associação enfraquece ou desaparece.
Em outras palavras, esses fatores emocionais tendem a se conectar a mudanças de comportamento e de saúde, como maior risco de recorrer ao cigarro, beber, dormir pior ou negligenciar cuidados médicos, que são os verdadeiros responsáveis pelo aumento do risco.
Emoção tem influência no câncer de alguma forma?
As emoções não exercem relação causal no surgimento do câncer, mas têm, sim, um papel importante: elas moldam como a pessoa dá significado à doença e acompanham o paciente ao longo do tratamento oncológico, diz Nicolle de Carvalho Leal, psicóloga de referência do ambulatório do Hospice Erasto Gaertner, unidade de cuidados paliativos com atendimento pelo SUS.
No momento do diagnóstico, o impacto emocional pode ser devastador. Isso porque receber a notícia de um câncer faz a pessoa se deparar com questões que mudam radicalmente sua relação com o tempo, com o corpo e com os projetos de vida.
“O aparelho psíquico é invadido por uma quantidade de estímulos contra os quais frequentemente não encontra defesa suficiente e é justamente nesse estado de sobrecarga que o paciente precisa processar informações médicas complexas, tomar decisões e iniciar um tratamento”, explica a especialista.
A maneira como a pessoa recebe e processa o diagnóstico pode influenciar o envolvimento com o tratamento. Quando o sofrimento não é elaborado, podem surgir dificuldades para seguir as orientações, não por falta de vontade, mas pelo peso emocional do momento.
“Na recuperação, pacientes que conseguem, a seu tempo, atribuir algum sentido à experiência vivida tendem a construir saídas mais estruturadas diante do que o tratamento impôs. Isso não significa uma recuperação isenta de sofrimento, mas a possibilidade de que o sujeito se reconduza diante do que foi vivido e retome, ainda que de forma modificada, o percurso da própria existência”, completa Leal.
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O que está mais relacionado ao câncer?
Décadas de pesquisa mostram que o câncer se desenvolve principalmente por alterações no DNA e modificações epigenéticas (mudanças no funcionamento dos genes sem alterar a sequência do material genético), de acordo com Mello. Ou seja, é um processo biológico.
Segundo Amaro, o que mais pesa no risco de câncer são fatores bem conhecidos e, em muitos casos, evitáveis: fumar, consumir álcool em excesso, estar acima do peso, ter uma vida sedentária e manter uma alimentação pouco saudável.
Também entram nessa lista a exposição ao sol sem proteção, algumas infecções (como HPV e hepatites B e C) e certos riscos no ambiente de trabalho ou na poluição.
Por isso, a prevenção passa por manter hábitos saudáveis, ter as vacinas em dia e investir no rastreamento precoce.

