Quem presencia uma convulsão febril raramente esquece. Para os pais, ver uma criança com movimentos involuntários, perda de consciência ou alterações na respiração desperta medo e incertezas.
Apesar do susto, trata-se de uma condição comum e autolimitada, que afeta cerca de 2% a 5% das crianças entre 6 meses e 5 anos de idade. Na maioria dos casos, ela passa sem provocar danos permanentes quando a situação é conduzida da forma adequada.
“A convulsão febril ocorre pela imaturidade do cérebro da criança, que é mais instável do que o de um adulto. Em algumas crianças, o processo da doença febril pode desorganizar temporariamente a atividade elétrica do órgão, levando à crise convulsiva. Quando o cérebro amadurece, costuma desaparecer”, explica Ana Carolina Coan, neurologista infantil e vice-coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Associação Brasileira de Neurologia (ABN).
O que é convulsão febril?
Algumas crianças podem apresentar crises associadas à febre, conhecidas como convulsões febris. Esses episódios provocam mudanças temporárias na consciência, no comportamento e nos movimentos, causadas por uma alteração temporária na atividade elétrica do cérebro.
A condição surge na presença de febre, geralmente acima de 37,5°C, especialmente quando a temperatura sobe rapidamente. O fator mais importante não é o valor da febre, mas a rapidez com que ela aumenta.
É importante destacar que nem toda criança com febre alta vai desenvolver esse tipo de crise. Em geral, elas aparecem durante quadros virais comuns da infância, como gripes e outras condições.
“Há uma predisposição genética em algumas crianças para crises febris. Por isso, é fundamental conhecer a história familiar para classificar os riscos. Em crianças com esse histórico ocorre uma maior atividade na estimulação das células cerebrais, levando aos episódios de convulsões”, explica Marco César Roque, neurologista infantil do Grupo Santa Joana, em São Paulo.
Tipos de convulsões febris
As convulsões febris são classificadas em dois tipos. As simples são mais frequentes, duram de alguns segundos até cerca de 15 minutos, acontecem apenas uma vez em 24 horas e envolvem os dois lados do corpo.
Já as convulsões febris complexas costumam durar mais de 15 minutos, atingir apenas um lado do corpo e surgir mais de uma vez no mesmo dia, sendo consideradas mais graves. Entre suas possíveis complicações, estão maior risco de epilepsia futura, lesões temporárias no cérebro, crises prolongadas e, em casos raros, alterações cognitivas ou de comportamento.
Veja também: Nova definição de febre em crianças: o que muda?
Sintomas e sinais de alerta
Durante a convulsão febril, a criança pode apresentar:
- perda de consciência;
- movimentos involuntários, como tremores ou contrações pelo corpo;
- rigidez muscular;
- perda de controle da bexiga ou intestino;
- olhar fixo ou desviado para cima;
- respiração irregular;
- pele mais pálida ou com leve tom arroxeado, especialmente nos lábios.
Após o episódio, é comum que a criança fique mais sonolenta, cansada e um pouco confusa por alguns minutos, podendo adormecer em seguida.
O que fazer durante e depois de uma convulsão febril
No momento da convulsão, o mais importante é manter a calma e observar o tempo de duração da crise. A criança deve ser colocada de lado, para reduzir o risco de engasgo com saliva ou vômito, e a cabeça precisa estar protegida para evitar batidas.
“Tão importante quanto saber como agir é entender o que não deve ser feito: não coloque objetos na boca da criança, não tente segurar a língua, não contenha os movimentos, não ofereça líquidos ou medicamentos e não coloque a criança em água fria durante a crise”, acrescenta Roque.
Em seguida, é recomendado buscar avaliação em pronto-socorro, principalmente no primeiro episódio, para investigação da causa e observação médica.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico da condição é feito principalmente pela avaliação clínica da criança. O primeiro passo é verificar se há febre. Em seguida, o pediatra investiga a causa da elevação da temperatura, que geralmente está relacionada a infecções comuns.
“Especialmente nos casos típicos, não é necessário realizar exames complementares, sendo a avaliação clínica suficiente. A investigação deve ser individualizada, e exames podem ser indicados em crianças muito pequenas, em crises prolongadas ou com características atípicas, na presença de alterações neurológicas ao exame ou quando há suspeita de meningite”, complementa Coan. Nesses casos, podem ser solicitados exames de sangue, urina, tomografia, análise do líquor ou, em algumas situações, o eletroencefalograma.
O tratamento da convulsão febril varia conforme as características de cada episódio. Geralmente, nas crises simples, não há necessidade de uso contínuo de medicamentos, já que elas tendem a cessar espontaneamente. Nesses casos, o foco é controlar a febre e garantir o conforto da criança.
Quando a crise é mais prolongada ou se repete, pode ser necessário o uso de medicação para interrompê-la. Em algumas situações, o pediatra também pode orientar os responsáveis sobre como agir caso novos episódios ocorram. Como as crises estão relacionadas a uma alteração temporária da atividade cerebral, algumas crianças podem ser encaminhadas para avaliação com um neurologista.
Vale destacar que não é possível prevenir completamente a convulsão febril. No entanto, alguns cuidados podem ajudar, como controlar a febre com orientação médica e observar o estado geral da criança durante infecções. “Como as convulsões febris costumam estar ligadas a infecções comuns da infância, manter a vacinação em dia, bons hábitos de higiene e o acompanhamento de saúde pode ajudar a reduzir novos episódios”, recomenda Coan.
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Convulsão febril é epilepsia?
Não. Essa dúvida é bastante comum entre os pais de crianças com convulsão febril.
Epilepsia consiste em crises epilépticas recorrentes que não estão associadas, necessariamente, a um gatilho específico, diferente da crise convulsiva febril que aparece após um quadro infeccioso.
Na maioria dos casos, as crises febris simples não deixam sequelas neurológicas e raramente indicam epilepsia. De qualquer forma, o acompanhamento médico é fundamental para monitorar a saúde da criança.

