Como reconhecer os sinais do alcoolismo?

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Como reconhecer os sinais do alcoolismo?

Beber logo pela manhã ou usar a bebida como forma de aliviar estresse, ansiedade ou frustração são comportamentos que nem sempre são associados ao alcoolismo. Ainda é comum imaginar que a dependência esteja restrita a pessoas que bebem diariamente, que não conseguem manter o trabalho ou que apresentam sinais visíveis de deterioração social. 

Na prática, contudo, o problema pode afetar indivíduos com padrões de comportamento mais discretos e socialmente aceitos.

Hoje, especialistas utilizam o termo transtorno por uso de álcool para descrever diferentes formas de consumo problemático. A classificação inclui tanto quem bebe com frequência quanto pessoas que consomem grandes quantidades de álcool em episódios específicos.

Segundo Marcelo Heyde, psiquiatra e professor do curso de medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a ideia de que o dependente necessariamente bebe todos os dias pode criar uma falsa sensação de segurança.

“Existe uma percepção antiga de que o dependente de álcool seria aquele que faz uso da substância todos os dias. Mas o uso eventual em grandes quantidades também é considerado uma dependência”, afirma.

 

Diagnóstico e sinais de alerta

O diagnóstico do transtorno é clínico e segue critérios definidos por manuais internacionais de saúde mental, como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais e a Classificação Internacional de Doenças.

De acordo com Luiz Fernando Petry, médico psiquiatra, o diagnóstico considera um conjunto de sinais observados ao longo de 12 meses. Para caracterizar o transtorno, a pessoa precisa apresentar ao menos dois critérios nesse período.

Entre eles, estão: perda de controle sobre a quantidade consumida, tentativas frustradas de reduzir o uso e desejo intenso de beber, além de dedicação de grande parte do tempo à obtenção ou recuperação dos efeitos do álcool. Também entram sinais como falhar em compromissos no trabalho ou em casa, continuar bebendo mesmo diante de conflitos, abandonar atividades importantes ou consumir álcool em situações de risco.

Outros indícios incluem aumento da tolerância — quando a pessoa precisa de quantidades maiores para obter o mesmo efeito — e sintomas de abstinência quando o consumo é interrompido, como tremores, ansiedade, sudorese e náuseas.

Segundo Heyde, a abstinência é um dos indícios mais claros de que o transtorno já pode estar instalado. “Os sintomas de abstinência são os mais preocupantes, pois raramente quem sente abstinência não tem um quadro estabelecido de transtorno por uso de álcool.”

Ele explica que o álcool também pode assumir o papel de uma forma de automedicação, quando passa a ser usado para lidar com estresse, ansiedade ou insônia

“Quando o álcool ganha essa conotação de calmante, como se fosse um remédio, seu uso passa a ser considerado de alto risco”, alerta. 

Outro padrão comum é o chamado binge drinking (beber compulsivo), caracterizado pelo consumo compulsivo, mas em grandes quantidades, em episódios isolados. Nesses casos, a pessoa pode beber até perder o controle ou se colocar em situações de vulnerabilidade. “É um comportamento em que a pessoa já entra no padrão problemático e existe um risco alto de que os intervalos entre esses episódios se tornem cada vez menores”, afirma.

Podem surgir ainda sinais de fissura, como mentir ou esconder o consumo, guardar garrafas pela casa ou reagir com irritação quando o assunto é questionado. Em alguns casos, a pessoa passa a beber logo de manhã para aliviar sintomas físicos ou emocionais.

 

Assista: Quando o consumo de álcool se torna excessivo?

 

Existe alcoolismo funcional?

A ideia de que uma pessoa só é alcoólatra quando perde o trabalho, rompe relações familiares ou passa a viver em situação extrema ainda é comum. Na prática clínica, porém, especialistas afirmam que a dependência pode coexistir por algum tempo com uma rotina aparentemente estável.

Segundo Bruno Pascale Cammarota, psiquiatra, mestre em saúde pública pela Universidade Estácio de Sá (Unesa) e médico da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, o consumo frequente em quantidades elevadas já pode indicar dependência, mesmo quando a pessoa não bebe todos os dias.

Não é preciso beber todo dia para considerar a pessoa como alcoólatra. Em geral, a pessoa pode beber com uma certa frequência, mais de quatro doses de determinado produto, pelo menos três a quatro vezes na semana”, explica.

Nesse contexto, aparece o que popularmente se chama de alcoolismo funcional. “O alcoólatra funcional é aquele que tem dependência química do álcool e ainda consegue trabalhar. Mas, com o tempo, ele também vai perdendo essa funcionalidade”, completa.

Petry afirma que o conceito de dependente de alto funcionamento é reconhecido na prática clínica. Ele se refere a pessoas que conseguem manter, ao menos por um período, atividades profissionais, relações familiares e compromissos cotidianos. Esses indivíduos muitas vezes não se encaixam no estereótipo associado ao alcoolismo. Continuam empregados, mantêm desempenho profissional e preservam parte da vida social, o que pode dificultar a identificação do problema.

Segundo o psiquiatra, essa funcionalidade costuma ser temporária. Com o avanço do transtorno, os impactos tendem a aparecer tanto na vida pessoal quanto na saúde física e mental. Além disso, danos ao organismo podem ocorrer de forma silenciosa, atingindo órgãos como fígado, coração e sistema nervoso.

 

Quando e como procurar ajuda

O tratamento para o transtorno por uso de álcool não costuma ter como objetivo o retorno ao consumo controlado. O conceito de “cura” deixou de ser utilizado na prática clínica, aponta Heyde. “Dentro do alcoolismo, o termo cura seria a pessoa conseguir voltar a beber de forma controlada, o que é raríssimo. O termo mais adequado é remissão ou recuperação, quando a pessoa consegue se manter abstinente”, explica.

De acordo com ele, tentar retomar o consumo moderado costuma funcionar como gatilho para recaídas, levando ao retorno do padrão anterior de uso. Ainda assim, quando o consumo problemático é identificado precocemente, antes de evoluir para um transtorno estabelecido, pode haver margem para reduzir o risco, embora isso exija acompanhamento e mudanças consistentes no comportamento.

A busca por ajuda deve começar com profissionais de saúde. Sempre que possível, o acompanhamento por uma equipe multiprofissional, com psiquiatras, psicólogos e outros especialistas, tende a aumentar as chances de sucesso no tratamento.

Segundo o especialista, a mudança de rotina e de hábitos é um dos pontos importantes do processo de recuperação. Criar novos ambientes sociais e reduzir situações associadas ao consumo de álcool faz parte dessa estratégia. Grupos de apoio, como o Alcoólicos Anônimos, além de redes sociais ou religiosas, podem ajudar algumas pessoas nesse processo.

Quando o tratamento ambulatorial não é suficiente, existem outras modalidades de cuidado. No sistema público, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e hospitais-dia oferecem acompanhamento intensivo durante o dia, permitindo que o paciente retorne para casa à noite.

Em quadros mais graves, pode ser necessário um período de internação em unidade psiquiátrica 24 horas, principalmente para controlar crises de abstinência ou complicações físicas. Nesses casos, a internação costuma ser temporária e acompanhada de um plano de continuidade do tratamento após a alta.

Veja também: Qualquer quantidade de álcool faz mal? Entenda por que não existe dose segura



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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