O número de notificações por picadas de aranha vem crescendo no Brasil. Em 2025, foram 47.678 registros – 57% a mais do que uma década antes, segundo dados do DataSUS, sistema de dados do sistema público de saúde brasileiro. Na prática, isso significa que cerca de 130 pessoas por dia procuraram atendimento médico após um “beliscão” de um aracnídeo.
Esse aumento, segundo especialistas consultados pela reportagem, está ligado a uma combinação de fatores. Um deles é a urbanização acelerada do país. Nas últimas quatro décadas, a área ocupada por centros urbanos mais que dobrou, passando de 1,8 milhão para 4,5 milhões de hectares, segundo o MapBiomas. Com isso, animais que antes viviam afastados da presença humana passaram a se adaptar ao ambiente doméstico. É o caso de algumas espécies de aranhas.
A aproximação desses invertebrados – animais que não possuem coluna vertebral e crânio, como as aranhas – para perto das residências também reduziu a exposição delas a predadores naturais, como aves e répteis, o que favorece a proliferação desses animais.
Há ainda outro fator: a melhora na organização do sistema de saúde e o aumento da notificação dos casos. Na avaliação de especialistas, parte da alta pode refletir um sistema mais eficiente em registrar acidentes – e não necessariamente uma explosão na população de aranhas.
| Ano | Número de notificações |
| 2015 | 30.295 |
| 2016 | 29.062 |
| 2017 | 33.132 |
| 2018 | 36.109 |
| 2019 | 39.272 |
| 2020 | 30.168 |
| 2021 | 29.244 |
| 2022 | 33.070 |
| 2023 | 45.022 |
| 2024 | 45.017 |
| 2025 | 47.678 |
| 2026* | 6.593 |
*Entre janeiro e março
Quais aranhas mais causam acidentes no Brasil
Mas esse cenário não significa que o país esteja tomado por aranhas perigosas nem diante de uma onda de casos graves. A maioria dos acidentes é leve ou moderada e evolui bem, com sintomas geralmente restritos ao local da picada.
“Felizmente, a letalidade no caso dos três gêneros de importância médica, é baixa”, diz Ceila Maria Sant’Ana Malaque, médica do Hospital Vital Brazil, vinculado ao Instituto Butantan.
Os gêneros (grupos de espécies semelhantes) que concentram os casos de importância médica são: Loxosceles (aranha-marrom), o Phoneutria (armadeira) e Latrodectus (viúva-negra). Eles representam uma fração pequena diante das cerca de 4 mil espécies de aranhas registradas no Brasil.
A aranha-marrom, menor e visualmente mais discreta, é a responsável pela maior parte das notificações no país, segundo dados do DataSUS. Entre os casos registrados no último ano (em que houve identificação da espécie), 58,3% foram atribuídos à aranha-marrom, 39,8% à armadeira e 1,9% à viúva-negra.
Conhecendo as aranhas
- Loxosceles (aranha-marrom): Tem cerca de 1 cm de corpo e pode chegar a até 3 cm de comprimento total. Não é agressiva e só pica quando é pressionada -– por exemplo, quando está dentro de uma camiseta e a pessoa a veste. É uma espécie bastante adaptada ao ambiente doméstico, sendo comum em roupas guardadas, sapatos, toalhas e outros objetos dentro de casa.
- Phoneutria (armadeira): Pode medir cerca de 4 cm de corpo, chegando a até 15 cm com as pernas estendidas. Diferentemente da aranha-marrom, é mais agressiva e pode avançar quando se sente ameaçada. Costuma ficar em folhas de bananeira, entulhos de materiais de construção e também dentro de casa, especialmente em locais escuros e abrigados.
- Latrodectus (viúva-negra): Ë a que registra menos casos no Brasil. As fêmeas podem chegar a cerca de 2 cm, enquanto os machos são bem menores, com 2 a 3 mm. Não é agressiva e geralmente permanece em áreas externas, como bancos de madeira ou concreto, onde constrói suas teias – na maior parte das vezes, fora das residências.
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Principais sintomas
Os sintomas variam de acordo com o tipo de aranha. No caso da armadeira, o quadro é marcado por “uma dor intensa, insuportável no local da picada”, descreve Ceila.
O biólogo Eduardo Novaes Ramires, especialista em animais peçonhentos e pós-doutor em Zoologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), lembrou que, em casos mais graves – especialmente em crianças – também pode ocorrer priapismo, provocado por uma toxina.
Já no caso da aranha-marrom, ainda segundo Ramires, a picada pode passar quase despercebida no início, já que as quelíceras (presas) são pequenas. “O ‘ferrãozinho’ por onde a fêmea adulta injeta o veneno tem dois décimos de milímetros, é uma ‘coisica’. Então quando a pessoa sofre um acidente por aranha marrom, geralmente nem sabe que foi picada”.
Ceila explica que o envenenamento da aranha-marrom pode ocorrer de duas formas. A mais comum é a cutânea, caracterizada por uma lesão na pele que evolui ao longo de horas ou dias, formando uma área arroxeada e, em alguns casos, uma ferida com necrose.
Já a forma mais grave, chamada de cutâneo-hemolítica, além da lesão local, afeta o sangue, provocando a destruição dos glóbulos vermelhos. Isso pode levar à anemia e, em situações mais severas, a complicações como comprometimento renal. Ainda assim, essa forma é menos frequente.
No caso da viúva-negra, os sintomas incluem dor local com sensação de queimação e vermelhidão, além de manifestações sistêmicas (quando os efeitos do veneno não ficam só no local da picada), como dor generalizada, dor abdominal, sudorese e tremores musculares, segundo a Dra. Ceila. Em alguns casos, de acordo com Ramires, o veneno também pode causar “delírios”.
O que fazer em caso de picada de aranha?
A primeira recomendação dos especialistas é procurar atendimento médico o mais rápido possível após a picada. Há listas, organizadas por estado, com locais que oferecem esse tipo de assistência.
Se possível, recomenda-se levar a aranha – mesmo morta – acondicionada em álcool 70%, o que facilita a identificação da espécie. Fotos também podem ajudar.
Não é indicado aplicar gelo, barro, pasta de dente ou qualquer outro produto no local, pois isso pode piorar o quadro.
Nos casos da aranha-marrom e armadeira, os profissionais podem administrar soro antiaracnídico. Já para a viúva-negra, não há soro disponível no Brasil, embora o número de casos seja muito baixo. Nessas situações, o tratamento é feito com analgésicos.
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E se não não procurar ajuda (ou não conseguir)?
Os riscos variam bastante de acordo com o tipo de aranha. No caso da armadeira, quando o quadro é leve – com dor localizada e sem sintomas sistêmicos – a tendência é que o paciente tenha que lidar apenas com o desconforto, explica Ceila. Nesses casos, a evolução costuma ser benigna.
Já nos acidentes com aranha-marrom, o cenário pode ser mais preocupante. Sem atendimento, a lesão na pele pode evoluir, formando necrose e até úlceras mais extensas. Em situações mais graves, quando há hemólise – destruição dos glóbulos vermelhos – o quadro pode levar a anemia importante e, em casos extremos, até à morte. Ainda assim, a médica ressalta que é raro que alguém deixe de buscar ajuda, já que os sintomas tendem a se tornar incômodos.
No caso da viúva-negra, a ausência de atendimento pode resultar em um período prolongado de dor e mal-estar. Pacientes que não recebem antiveneno – disponível em outros países – tendem a demorar mais para melhorar, especialmente quando apresentam sintomas sistêmicos, como dor generalizada e tremores, segundo a médica.
Como identificar uma picada de aranha?
Um dos sinais que podem ajudar a identificar uma picada de aranha é a presença de dois pequenos pontos muito próximos na pele, segundo o biólogo. Isso ocorre porque a aranha tem duas presas para inocular o veneno – diferentemente de muitos insetos, que costumam deixar apenas um ponto.
“Se você olhar com a lupa, ou com a câmera do celular, e aumentar bem, e ver dois furinhos um do lado do outro, é uma picada de aranha. Essa é uma dica que vale para qualquer picada”, diz.
Ainda assim, o próprio sinal deve ser interpretado com cautela. De acordo com Ceila, a presença dos dois pontos pode ajudar, mas não é suficiente, por si só, para fechar o diagnóstico. Isso porque, no caso da armadeira, por exemplo, esse padrão costuma aparecer com mais frequência, enquanto na aranha-marrom nem sempre é visível. Por isso, explica, é fundamental considerar o conjunto das queixas e das manifestações.
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O que explica a alta quantidade de casos de aranha-marrom no país e por que alguns estados concentram mais ocorrências?
Os acidentes com aranhas são registrados de Norte a Sul do Brasil. Ainda assim, o Paraná concentra o maior número de notificações. Em números absolutos, foram cerca de 9.300 registros apenas em 2025. A incidência – que mede quantos casos ocorrem em relação à população – chega a 81,2 por 100 mil habitantes, a mais alta entre todos os estados.
Entre os municípios, Curitiba concentra o maior número de casos. De acordo com Marcelo Vettorello, biólogo do Centro de Epidemiologia da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, isso está diretamente ligado à presença da aranha-marrom, considerada endêmica na cidade.
“Trata-se de um animal muito pequeno, pertencente à fauna sinantrópica da cidade e que, por meio da evolução e da biologia adaptativa, conseguiu se estabelecer tão bem no ambiente urbano, é impossível erradicá-la do nosso convívio”, explica.
Na capital, há duas principais espécies de aranha-marrom: Loxosceles laeta e Loxosceles intermedia. Esta última é, de longe, a mais abundante e também a principal responsável pelos acidentes, em razão do seu comportamento, segundo o biólogo Ramires.
“Essa intermedia, ela se locomove muito e, quando se locomove, é mais caçadora e ativa. Ela caminha literalmente caçando. Por isso, ela causa mais acidentes, porque se locomove mais pela casa. Ela chega a caminhar 30 metros à noite.”
Em Curitiba e em todo o Paraná, o poder público realiza há anos campanhas de orientação e conscientização sobre aracnídeos, com o objetivo de reduzir acidentes dentro das residências.
“O desafio atual é o de conscientizar as pessoas que vêm de outras cidades e estados para morar em Curitiba. Por isso, as campanhas não param ao longo do ano e, estrategicamente, antes das estações mais quentes — quando há aumento dos acidentes — reforçamos a divulgação”, afirmou Vettorello.
Os casos tendem a aumentar em períodos de temperaturas mais elevadas porque as aranhas buscam locais mais frescos para evitar a perda de água. “As aranhas ‘fogem’, literalmente, dos tetos das casas, dos forros. Fica muito quente e acabam vindo para baixo, o que aumenta o número de acidentes”, disse Ramires.
Dicas de prevenção
Órgãos públicos, como o Ministério da Saúde e a Secretaria Municipal de Curitiba, além dos especialistas ouvidos pela reportagem, apontam que a prevenção passa, principalmente, por reduzir os abrigos e as fontes de alimento das aranhas no ambiente doméstico.
Isso começa pelo entorno das casas. Evitar o acúmulo de entulhos e materiais de construção, assim como manter a vegetação controlada, sem folhagens densas encostadas em paredes e muros, ajuda a diminuir os locais onde esses animais podem se esconder. A limpeza frequente de terrenos baldios vizinhos também é recomendada.
Dentro de casa, alguns cuidados simples fazem diferença. Verificar roupas, calçados, toalhas e roupas de cama antes de usar reduz o risco de contato acidental com aranhas escondidas. A limpeza regular, especialmente com aspirador de pó, ajuda a remover não só as aranhas, mas também teias, ovos e insetos que servem de alimento.
Outra medida importante é eliminar possíveis pontos de entrada, como frestas e aberturas em paredes, portas e janelas.
Especialistas também destacam o papel de predadores naturais, como aves, felinos e, principalmente, lagartixas – consideradas bastante eficazes no controle tanto das aranhas quanto dos insetos dos quais elas se alimentam.
Por outro lado, o uso de inseticidas químicos não é recomendado. Além de ter eficácia limitada contra aranhas no médio e longo prazo, esses produtos podem eliminar predadores naturais e expor moradores a substâncias potencialmente tóxicas.
Por fim, evitar o acúmulo de objetos dentro e fora de casa, especialmente caixas de papelão, também ajuda a reduzir os esconderijos disponíveis para esses animais.
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