Nos últimos anos, tem crescido o uso de cannabinoides, uma classe de mais de cerca de uma centena de compostos químicos encontrados na Cannabis sativa, incluindo o canabidiol (CDB), para o tratamento de transtornos mentais, em especial em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália.
Uma meta-análise mostrou que 28,9% da população da América do Norte já utilizou CBD, por diversas razões, ante 12,8% dos europeus. Pesquisa revelou que, em 2022, 20,6 % dos americanos haviam usado CBD, inclusive para tratar sintomas de transtornos mentais.
Contudo, ao menos por enquanto e com base nos estudos realizados, não há evidência de eficácia suficientes quanto ao uso de canabinoides para o tratamento desses transtornos, o que exige cautela de médicos.
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A revista The Lancet Psychiatry publicou, no último dia 16, uma revisão sistemática com meta-análise a respeito da eficácia e segurança dos cannabinoides para o tratamento de transtornos mentais e por uso de substâncias. A revisão analisou 54 estudos controlados aleatorizados publicados em 62 artigos envolvendo 2.477 pessoas.
Entre os principais achados está o fato de que os canabinoides têm efeito limitado, com evidências de baixa qualidade, para algumas condições mentais e nenhuma evidência para o tratamento de depressão.
“A revisão acrescenta força à conclusão de que o canabidiol (e compostos) é um fármaco que, na melhor das hipóteses, oferece um efeito moderado em poucas condições neuropsiquiátricas”, afirma Guilmerme Messas, psiquiatra e professor livre-docente da Santa Casa de São Paulo.
Achados
Entre os principais achados da revisão, podemos citar:
- O estudo não encontrou dados suficientes em meta-análises para o tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e uso dependência de tabaco. Isso significa que não há dados de qualidade que justifiquem o uso de canabinoides nesses transtornos.
- Faltam evidências geradas por ensaios clínicos randomizados para o tratamento de depressão. Esse dado é relevante porque há um aumento da prescrição de canabinoides para o tratamento desse transtorno, embora não haja evidências de sua eficácia para esse fim.
- Não foram detectados efeitos significativos na redução de sintomas de ansiedade, anorexia nervosa, trantornos psicóticos, transtorno do estresse pós-traumático e transtorno por uso de opioide.
- Há evidência leve para a redução de alguns traços autistas em pessoas com transtorno do espectro autista (TEA).
- Também há evidência leve de redução de sintomas em pessoas com tique e síndrome de Tourette.
- Foram encontradas evidências de redução de sintomas de abstinência em pessoas com transtorno por uso de cannabis em usuários da combinação de canabidiol e delta-9-tetrahidrocanabinol, principal composto psicoativo encontrado na planta Cannabis.
- Qualquer canabionoide levou ao aumento do tempo de sono em pessoas com insônia, mas isso não significa que, necessariamente, a qualidade do sono tenha melhorado.
- O uso de canabinoides aumentou o sintoma de urgência para usar (craving) cocaína em pessoas com transtorno por uso de cocaína.
- A meta-análise revelou uma maior probabilidade de eventos adversos entre os usuários de cannabis em comparação com o grupo controle, mas não houve aumento da probabilidade de eventos adversos graves.
Resumo dos principais achados
Há evidência leve para redução de alguns traços autistas em pessoas com TEA e em tiques para pessoas com tique e síndrome de Tourette. Além disso, também houve alguma evidência na redução de sintomas de abstinência para pessoas com transtorno por uso de cannabis e aumento das horas de sono em pessoas com insônia.
No entanto, os achados exigem estudos mais rigorosos.”O uso de canabinoides em pessoas com TEA e tiques merece ser mais pesquisado”, afirma José Gallucci Neto, diretor do serviço de eletroconvulsoterapia e médico-assistente do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (Ipq-HCFMUSP).
Por outro lado, há evidência de piora de sintomas em indivíduos com transtorno por uso de cocaína.
Não há dados suficientes em meta-análise para o tratamento de TDAH, transtorno bipolar, TOC e dependência de tabaco. Chama a atenção a falta de evidências para o tratamento da depressão, visto que o uso de canabinoides para tratar esse transtorno tem aumentado em vários países, incluindo o Brasil.
“No momento, o que fica claro é que não dá para indicar canabinoides para esses diagnósticos”, afimra Gallucci.
Importância e limitações do estudo
Segundo Luís FernandoTófoli, professor de psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é possível criticar a metodologia do estudo no que se refere às formulações de canabinoides utilizadas na revisão. De fato, os pesquisadores analisaram estudos com formulações variadas de canabidiol, THC ou a combinação de ambos, o que pode dificultar a aplicação dos achados na prática clínica.
De toda forma, a revisão é importante, pois traz luz ao excesso de prescrições de canabinoides na psiquiatria. “O artigo cumpre uma função importante regulatória de saúde pública. Mais do que resolver questões cientificamente abertas, ele mostra que existe uma prescrição excessiva de canabionoides para situações em que eles não deveriam ser utilizadas”, diz Gallucci.
“Os dados indicam que as principais razões pelas quais as pessoas estão usando canabinoides são para transtornos mentais. No entanto, são as áreas que têm evidências mais frágeis. Temos evidências boas [do uso de canabinoides] para epilepsia, entre outras indicações. Precisamos de mais estudos”, diz Tófoli.
As evidências encontradas no estudo são, portanto, frágeis. “Como mostra com clareza o estudo, as evidências se limitam à abstinência de pessoas com dependência de cannabis, insônia e alguns casos de autismo, mas sem que se saiba ainda o grau de segurança da droga. Em termos globais, a conclusão é de que estamos muito longe de dizer que a droga valha a pena em termos sociais”, conclui Messas.
Por outro lado, a revisão traz alguma evidência para determinados casos, corroborando a necessidade de mais estudos na área. “A boa notícia é que antes não tínhamos nenhuma evidência para saúde mental. Agora a gente tem uma evidência leve, ainda que fraca, para TEA, que pessoalmente acho que precisa ser melhor pesquisado, para tiques e síndrome de Tourette, uso de cannabis e insônia, embora esses pacientes tenham apresentado efeitos colaterais”, diz Tófoli.
Para o psiquiatra, a falta de evidências, especialmente no tratamento da depressão, mostra um preconceito por parte da comunidade científica com estudos na área. “É importante lembrar, também, que não há evidências [do uso de cannabis e/ou canabidiol] porque temos muito preconceito com a pesquisa. É preciso mais pesquisas para entendermos quais são os riscos e indicações reais, onde os benefícios superam os riscos”, completa Tófoli.
Fica clara, assim, a necessidade de mais estudos de qualidade sobre o uso de canabinoides na psiquiatria. Essa não é uma questão encerrada, mas até o momento, não há evidências de qualidade que corroborem seu uso no tratamento de transtornos mentais e esse não é um fato irrelevante.
“O artigo se posiciona como contraponto ao movimento de expansão acelerada de prescrições de cannabis medicinal. Nesse sentido, o paper cumpre uma função regulatória e de saúde pública mais do que propriamente resolve questões científicas abertas. A conclusão robusta é que a ausência de evidência de qualidade é, em si, uma evidência relevante para políticas de prescrição — mas não necessariamente encerra o debate científico sobre compostos, doses e populações específicas”, conclui Gallucci.

