A dor menstrual afeta a rotina escolar de 6 em cada 10 alunas. Quatro em cada 10 faltam às aulas mensalmente por esse motivo, de acordo com dados de uma pesquisa feita pelo Instituto Alana e o Instituto.Info, divulgada no fim de maio.
O levantamento foi realizado com 2.551 estudantes – sendo 770 estudantes que menstruam –, 303 docentes e 181 gestores escolares, das redes pública e privada de todas as regiões do país.
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A pesquisa revelou uma realidade ignorada pelos sistemas de saúde e educacional: inúmeras meninas e mulheres sofrem por conta da menstruação, embora poucas falem a respeito, seja por julgarem que a dor faz parte do período menstrual, seja por vergonha.
Cólica é a principal dor menstrual
Entre as alunas que afirmaram ter sintomas menstruais que as impede de ir à escola, 57,7% afirmaram deixar de ir às aulas por causa de cólicas intensas. Pouco mais de 30% apontaram que o cansaço e a dor no corpo são os motivos que as afastam da escola. Outros motivos são dor de cabeça; vergonha e medo de vazamento; e falta de banheiro ou produtos de higiene. Esse último motivo foi responsável pela falta de 8,2% das entrevistadas.
Outro dado chamou a atenção: ainda de acordo com a pesquisa, 12% das professoras ouvidas deixaram de dar aula ao menos uma vez por mês em razão da dor menstrual. Isso mostra que a dor pode acompanhar as mulheres a vida toda.
Mesmo assim, a questão continua sendo ignorada como problema de saúde pública tanto nas escolas como nos serviços de saúde.
Dor menstrual é mais intensa em quem menstrua mais cedo
A pesquisa também mostrou que uma parcela significativa das meninas começou a menstruar até os 10 anos (36,5% da amostra), enquanto 65,2% das estudantes menstruou pela primeira vez até os 11 anos.
Os dados sugerem que esse início precoce pode estar associado a dores mais intensas. Entre as meninas que menstruaram até os 10 anos, 43% relataram cólicas intensas. O percentual caiu para 27% entre aquelas que menstruaram aos 11 ou 12 anos – praticamente o mesmo registrado entre as que apresentaram a primeira menstruação aos 14 anos ou mais. Entre as estudantes que menstruaram aos 13 anos, 25% disseram sentir cólicas fortes.
Isso reforça a importância de discutir o tema desde a infância, tanto em casa como na escola e nos serviços de saúde.
Desigualdade racial
A experiência da dor também está relacionada a fatores sociais. Enquanto cerca de 37% das adolescentes brancas disseram sentir cólicas fortes, 25,9% das meninas negras fizeram a mesma afirmação.
O dado parece sugerir que as meninas brancas sentem mais dor que as negras. No entanto, é possível que haja uma subnotificação entre esse grupo, pois o absenteísmo tende a ser maior entre as negras: 14,5% delas faltaram de dois a cinco dias, ante 9,6% das estudantes brancas.
“Essa diferença vai na contramão da literatura clínica internacional, que indica maior prevalência de cólicas fortes em mulheres negras. Uma possível explicação é que, historicamente, mulheres negras são ensinadas a dar menos nome à sua dor e a tolerá-la mais antes de falar”, observa Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Alana.
O tema também foi discutido no evento Pulso: um diagnóstico da saúde e do bem-estar, iniciativa do Portal Drauzio e do Uol, que ocorreu no última dia 17 em São Paulo. Reinach apresentou a pesquisa na ocasião.
Assunto pouco discutido
Os dados também mostram que não se discute menstruação dentro da escola. Poucos meninos entende os impactos da menstruação nas tarefas do dia a dia. Apenas 23,7% dos garotos acreditaram que ela pode atrapalhar a escola ou a prática esportiva, ante 41,2% das alunas.
“Isso reforça que a saúde menstrual continua sendo um assunto pouco abordado com os meninos, o que interfere diretamente em como eles enxergam a menstruação. Políticas educacionais e de saúde eficientes precisam incluir o letramento desses jovens como um objetivo primordial”, assinala Reinach.
Endometriose
A pesquisa revela algo que as mulheres já sabem: a dor, para muitas, surge no início da vida fértil e nos acompanha por anos, às vezes até a menopausa – outra fase da vida cujos sintomas são pouco discutidos e levados em conta em consultas médicas e pela sociedade.
A dor é tão comumente associada à menstruação que os relatos de mulheres que precisam desmarcar compromissos por cólica não é tido como algo alarmante. Só que considerá-la normal atrasa o diagnóstico da endometriose, doença que afeta uma a cada 10 mulheres.
“A frequência deste sintoma é subestimada entre o público adolescente, pois, muitas vezes, se considera a dor como normal da menstruação e não se procura ajuda especializada. Outras manifestações incluem dor pélvica crônica, dor na relação sexual, distensão abdominal, sangramento uterino aumentado, além de sintomas urinários (dor para urinar) e intestinais (dor ao evacuar, constipação e diarreia)”, explicou Taís Martins Loreto, ginecologista do Núcleo de Endometriose do Hospital e Maternidade São Luiz São Caetano do Sul, da Rede D’Or, em entrevista ao Portal.
Pesquisas mostram que as mulheres demoram em média oito anos para conseguir um diagnóstico da doença. Em geral, elas já têm mais de 30 anos quando isso ocorre.
“A endometriose pode ser ainda mais desafiadora na adolescência, devido, muitas vezes, ao atraso em diagnosticar a doença. Algumas mulheres podem apresentar sintomas desde a primeira menstruação, embora eles também possam ser atípicos nessa fase, podendo levar anos para serem reconhecidos e iniciar tratamento adequado”, afirmou Loreto.
Não é normal sentir dor incapacitante durante o período menstrual. E não deveria ser normal deixarmos de educar meninas e meninos sobre um fenômeno natural, que atinge metade da população.
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