O Banco Central torturou o português para dizer que não dá para saber o que será da próxima reunião em que decidirá o nível da Selic. Nesta quarta (17), cortou a taxa básica de juros de 14,5% para 14,25%, um quase nada no que diz respeito aos custos de financiamento na economia.
Quanto ao mais importante, o BC parecia querer criar névoa suficiente para ninguém achar que a Selic pode ficar a mesma na próxima reunião. Sem querer, querendo, também poderia estar dizendo que a Selic pode continuar caindo, pois pode ser que a inflação esteja na meta no início de 2028.
Mesmo essa dúvida não é a mais relevante para a economia, a não ser para quem negocia dinheiro a cada segundo. As taxas de juros para vários prazos já foram para a lua do vinagre —a Selic é taxa de curtíssimo prazo.
No comunicado em que o BC divulga suas decisões sobre a Selic sempre há breve exposição de motivos e análise sumária da conjuntura. A conjuntura vai bem mal, diz o BC, no que diz respeito a preços: economia mais aquecida, inflação corrente e esperada cada vez mais alta, projeção de IPCA em 3,7% no fim de 2027, para uma meta de 3%.
A tradicional lista de ameaças de inflação (“balanço de riscos”) estava gorda e longa: efeito persistente da alta do petróleo; risco de o El Niño afetar preço de alimentos e de eletricidade; serviços caros por causa de economia crescendo ainda mais acima do potencial; real mais desvalorizado por causa de política econômica no Brasil (mais gasto e crédito do governo) e nos EUA.
“O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho”, diz o pessoal.
E daí? O BC cortou um pouco e deixou até a porta aberta para mais um corte na próxima reunião do Copom. Depende dos dados que virão: “… a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
O texto hieroglífico parece dizer que ao não cortar a Selic poderia derrubar a inflação para baixo da meta no início de 2028, o novo “horizonte relevante” do BC (o momento em que a política monetária, de juros, tende a fazer efeito maior). Logo, o IPCA a 3,7% de fins de 2027 projetado pelo modelo do BC não seria assim de causar tanta preocupação.
Essa conversa pode levar o pessoal que negocia dinheiro, “o mercado” de títulos, a derrubar taxas de curto prazo (“BC está mais bonzinho, dovish”) e manter na estratosfera as taxas para prazos mais longos. Isto é, continuariam a carestia de crédito e a agonia do custo de financiar a dívida pública e empresas.
Decerto o BC é “passageiro da agonia” nessa história —a não ser que faça também barbeiragem. O crédito extra e subsidiado de Lula 3 evita desaquecimento maior da economia. O choque da guerra vai demorar para passar. Os juros nos EUA ficarão mais altos. Há risco de El Niño ruim.
Enfim, seja lá quem esteja para ganhar a eleição, não se sabe se vai haver programa econômico que lide com o nó econômico rudimentar do país. O assunto fiscal, a dívida pública que cresce sem limite, voltou a pesar nas decisões no mercado quanto a juros e câmbio assim que passou a boa vontade dos “estrangeiros” com o Brasil “queridinho”, essa tolice cafona, “Ibovespa 200 mil”.
Agora, resta a realidade de uma dívida que vai aumentar 13 pontos em relação ao PIB em quatro anos, anos de crescimento razoável. Um resultado assustador.
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Fonte: Folha SP

