Nem sempre o nome de uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas) reflete com precisão tudo o que ela envolve. Em alguns casos, a terminologia pode estar imprecisa ou desatualizada, contribuindo para diagnósticos tardios, dificultando o atendimento adequado e até limitando a formulação de políticas públicas. Por isso, periodicamente, especialistas revisam conceitos e nomenclaturas com base em novos conhecimentos científicos.
Foi o que aconteceu em maio com a síndrome dos ovários policísticos (SOP), que passou a ser chamada de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP). Esse distúrbio hormonal, que afeta de 10% a 13% das mulheres em idade reprodutiva, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode causar desde irregularidade menstrual e acne até complicações mais graves, como obesidade, diabetes e infertilidade.
A mudança do termo foi publicada na revista científica Lancet e é resultado do trabalho conjunto de 56 organizações acadêmicas e clínicas e de pacientes. O processo incluiu pesquisas globais com a participação de 14.360 pessoas com a condição e de profissionais de saúde multidisciplinares de diferentes regiões do mundo.
Por que o nome mudou?
O diagnóstico da síndrome é feito quando estão presentes pelo menos dois de três critérios estabelecidos por diretrizes internacionais: ovulação pouco frequente ou ausente, aumentos de hormônios masculinos e presença de ovários policísticos ao ultrassom (ovários com múltiplos pequenos folículos visíveis no exame de imagem).
O problema, segundo especialistas e estudos, está justamente nesse último critério, que nem sempre reflete adequadamente a condição. Ter ovários aumentados de volume e com muitos folículos ao ultrassom, por exemplo, não significa necessariamente que a pessoa tenha a síndrome.
“Tanto que, na adolescência, o critério ultrassonográfico não era considerado válido para o diagnóstico”, diz Cristina Laguna Benetti Pinto, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Segundo os pesquisadores do estudo publicado na Lancet, essa imprecisão contribui para atrasos e erros diagnósticos — estima-se que até 70% das pessoas afetadas permaneçam sem diagnóstico —, além de alimentar lacunas de conhecimento e insatisfação entre pacientes.
A proposta da nova nomenclatura busca destacar as manifestações metabólicas da condição, como a resistência à insulina e o maior risco de diabetes e hipertensão, e reduzir a centralidade do critério ultrassonográfico. De acordo com a especialista, atualmente se discute a possibilidade de retirar a presença de ovários policísticos ao ultrassom como critério diagnóstico da síndrome.
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Além dos ovários
Para Lorena Lima Amato, endocrinologista e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), a mudança de nome reforça que a síndrome deve ser vista para além da esfera reprodutiva e não apenas como um problema dos ovários ou da menstruação.
“A síndrome envolve múltiplos hormônios e alterações metabólicas, principalmente aumento da resistência à insulina, maior risco de diabetes, predisposição ao ganho de peso, especialmente pelo acúmulo de gordura visceral, e alterações nos níveis de colesterol. O termo ‘poliendócrina’ destaca justamente que vários sistemas hormonais participam da doença, e não apenas os ovários”, explica.
Segundo Amato, a tendência é que o cuidado com essas pacientes deixe de ser focado apenas nos ovários e na fertilidade e passe a contemplar de forma mais ampla os riscos metabólicos associados à síndrome.
Quais são os sintomas da SOMP?
Os sintomas mais comuns da SOMP são a irregularidade menstrual, caracterizada por ciclos longos e períodos prolongados sem menstruar, além do aumento de pelos no corpo e no rosto (hirsutismo) e da acne.
Segundo Benetti Pinto, por se tratar de uma condição crônica, os sinais geralmente surgem desde as primeiras menstruações e podem acompanhar a mulher ao longo da vida. A forma como eles se manifestam, porém, pode mudar com o tempo.
“Enquanto a acne tende a ser mais frequente na adolescência e pode melhorar na idade adulta, o hirsutismo pode se tornar mais evidente ao longo dos anos, especialmente quando não há tratamento adequado”, afirma.
Como funciona o tratamento
O tratamento, segundo as especialistas, é direcionado tanto para o controle dos sintomas quanto para a prevenção de complicações metabólicas associadas à SOMP. Entre os principais objetivos estão a regularização dos ciclos menstruais, a melhora dos distúrbios ovulatórios e a redução de manifestações como acne e excesso de pelos.
Além do tratamento específico para esses sinais, uma das medidas importantes é a adoção de hábitos de vida saudáveis, com foco no controle do peso corporal, alimentação equilibrada e prática regular de atividade física. Essas estratégias desempenham papel fundamental na redução dos riscos metabólicos relacionados à síndrome.
Quando a SOMP está associada a alterações como aumento da glicemia, resistência à insulina ou colesterol elevado, pode ser necessário um tratamento específico para controlar essas condições. Por isso, o acompanhamento médico regular é essencial para identificar e tratar precocemente as possíveis consequências metabólicas da doença.
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