Parada LGBT+ perde patrocínio e busca emenda parlamentar – 04/06/2026 – Economia

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Parada LGBT+ perde patrocínio e busca emenda parlamentar - 04/06/2026 - Economia

Realizada desde 1997 na avenida Paulista, em São Paulo, a Parada do Orgulho LGBT+ perdeu patrocinadores e recursos desde seu auge na arrecadação. Segundo a organização do evento, nas edições de 2022 e 2023, a Parada amealhou cerca de R$ 5 milhões com sete marcas em cada temporada, realidade distante dos R$ 2 milhões estimados para este ano, em que a Amstel, do grupo Heineken, e a L’Oréal são as únicas patrocinadoras.

Nos últimos cinco anos, saíram da lista de patrocinadores marcas como Burger King, Jean Paul Gaultier, Mercado Livre, Sephora, Smirnoff, Terra e Vivo.

Diante da saída de empresas interessadas em associar suas marcas ao evento, a organização tem procurado parlamentares do campo progressista para diminuir sua dependência de patrocinadores para as próximas edições. Nelson Matias Pereira, presidente da APOLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), disse à Folha que já tem batido à porta de deputados para obter verba para o evento do ano que vem.

“A gente fez um caminho que foi, pela primeira vez, trabalhar com um hub de emendas. A gente entende que as emendas estão lá e são públicas. Desde que eu faça tudo corretamente, com um plano de trabalho e prestação de contas, elas podem ser usadas”, afirma Pereira.

Emendas são valores à disposição de deputados e senadores para investimentos em áreas de seu interesse.

A busca, no entanto, não tem sido fácil. “A gente bateu na porta de 26 deputados federais progressistas, mas tivemos retorno de apenas quatro. Se eu tivesse apoio de dez com uma emenda de R$ 500 mil, eu não estaria na mão nem da Prefeitura, nem da iniciativa privada”, diz ele.

“Vou esperar uma segunda janela que vai se abrir após a eleição e bater de novo na porta dos deputados progressistas para ver se toco o coração deles para que a gente não dependa de nenhuma marca ano que vem para colocar a Parada na rua.”

A Parada de São Paulo é um dos principais eventos no mundo sobre representatividade e luta por igualdade de direitos para gays, lésbicas, bissexuais, pessoas trans e outros membros da comunidade LGBTQIA+.

O avanço da agenda “anti-woke” no mundo, no entanto, tem feito empresas deixarem de vincular as suas marcas a eventos considerados progressistas e mais ligados ao campo político da esquerda. Em ano eleitoral, como em 2026, a situação é mais visível. Pereira diz que a diminuição no patrocínio era esperada.

“Infelizmente, as pautas ligadas à diversidade e à inclusão dos direitos humanos acabaram sofrendo ataques coordenados por diversos setores conservadores. E acho que muitas empresas acabaram recuando por pressão ideológica.”

Para este ano, a Amstel entrou com boa parte do montante arrecadado pela organização do evento. Já a L’Oréal apoia a Parada por meio do ProAC (Programa de Ação Cultural), um mecanismo de patrocínio incentivado e de renúncia fiscal do governo de São Paulo para fomentar produções artísticas no estado.

“Não posso falar de valores por conta de sigilo de contrato, mas dentro de uma cota a gente gerou uma verba real de apenas R$ 2 milhões [para o evento de 2026]”, afirma Pereira.

Segundo ele, os custos para a realização da Parada chegam a R$ 3,5 milhões anualmente, fora o valor investido pela Prefeitura de São Paulo (mais de R$ 6 milhões em 2025). Mas a organização precisa de uma margem adicional de aproximadamente R$ 1,5 milhão para manter a sede durante o ano, o que inclui pagamento de contabilidade, jurídico, TI, administrativo, luz e internet, diz.

O evento principal da Parada LGBT+ ocorre no domingo (7), mas outras atividades fazem parte da programação, como a Corrida do Orgulho LGBT+ e uma feira de diversidade e empreendedorismo LGBT+, no Vale do Anhangabaú, nesta quinta-feira (4). Pereira diz que o evento não deixará de existir no futuro, mesmo com a ausência de patrocinadores, mas que programas complementares estão ameaçados diante da falta de receita.

“Nós sobrevivemos até 2018 praticamente sem aporte. Mesmo se não houver patrocínio, a gente vai fazer. Se for preciso eu ter um carro de som do sindicato novamente, não tem problema nenhum. Até porque, para nós, não é sobre quantidade de números, é sobre o que representa estar na avenida Paulista”, diz.

UM Folha procurou empresas que deixaram de patrocinar a parada. A Diageo, por meio de sua marca Smirnoff, diz que a Parada continua sendo relevante e que “reconhece o evento como espaço de celebração, visibilidade e reivindicação de direitos para a comunidade LGBTQIAPN+”.

Segundo a empresa, a decisão de não patrocinar a Parada LGBT+ neste ano está relacionada à sobreposição do evento “com um período de forte concentração do calendário da marca, que inclui iniciativas e compromissos estratégicos já definidos”. Neste ano, a Smirnoff é patrocinadora oficial da Copa do Mundo.

Em nota, o Burger King disse que, embora esteja fora do patrocínio da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo neste ano, possui iniciativas que oferecem apoio e visibilidade contínuos à comunidade LGBTQIA+. O Burger King não detalhou quais são as iniciativas.

O Mercado Livre afirmou, também em nota, que revisa ano a ano os investimentos, para que gerem impacto real e duradouro. Diz ainda que está direcionando esforços para fortalecer a representatividade entre funcionários, usuários e vendedores, “não apenas em ativações externas de marca”.

“Nos últimos anos, priorizamos investimentos estruturais internos: processos seletivos sem viés, equidade salarial em todos os grupos de diversidade e um ambiente em que 92% dos funcionários percebem seus líderes como inclusivos, sem diferença nessa percepção entre os grupos de diversidade, incluindo a comunidade LGBTQI+”, disse a companhia.

A Vivo disse à reportagem que não iria se manifestar.

A reportagem procurou as assessorias de Sephora, Terra e Jean Paul Gaultier na terça-feira (2) e na quarta-feira (3), mas não obteve resposta.

Fonte: Folha SP

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