Anvisa libera tirzepatida para crianças com diabetes tipo 2

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Anvisa libera tirzepatida para crianças com diabetes tipo 2

A tirzepatida (de nome comercial Mounjaro) foi liberada para crianças a partir de 10 anos com o objetivo de tratar o diabetes tipo 2, condição crônica em que o organismo passa a não utilizar corretamente a insulina e, com o tempo, pode também reduzir sua produção. A decisão foi publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no fim de abril.

A medida foi tomada porque a doença, antes observada principalmente em adultos e idosos, passou a atingir também crianças e adolescentes nas últimas décadas, segundo estudos. Especialistas explicam que o aumento dos casos está ligado à epidemia de obesidade infantil, ao sedentarismo e às mudanças nos padrões alimentares. 

Os pais, no entanto, têm dúvidas sobre o medicamento: se é seguro, como funciona, quais os riscos e possíveis efeitos colaterais, entre outras. Para respondê-las, a reportagem do Portal Drauzio conversou com três endocrinologistas pediátricas sobre o assunto.

 

Como a tirzepatida age exatamente nas crianças?

A tirzepatida é uma molécula que imita dois hormônios produzidos no intestino: o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (conhecido como GIP) e o peptídeo semelhante ao glucagon-1 (conhecido como GLP-1).

Esses hormônios atuam no controle da glicemia (nível de açúcar no sangue) e na resposta do organismo à ingestão alimentar, além de se comunicarem com o sistema de saciedade.

Entre os efeitos do medicamento estão o aumento da secreção de insulina (hormônio produzido pelo pâncreas que ajuda a glicose a entrar nas células e ser usada como energia), a redução da secreção de glucagon (hormônio que aumenta os níveis de açúcar no sangue), a melhora da sensibilidade à insulina em diferentes tecidos — especialmente no tecido adiposo — e o aumento da saciedade, com consequente redução da ingestão de alimentos.

“Na prática, no organismo de adolescentes que possuem diabetes tipo 2, ela [a tirzepatida] vai ter um importante efeito de controle dos níveis glicêmicos e de redução de peso, que afinal de contas é um dos principais mecanismos envolvidos no desenvolvimento do diabetes tipo 2”, explica Cynthia Valerio, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e subcoordenadora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Veja também: Tratar a obesidade na adolescência reduz risco de complicações no futuro

 

Quais os possíveis efeitos adversos colaterais?

Os eventos adversos mais comuns com o medicamento foram de origem gastrointestinal, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação intestinal, segundo Luciana Corrêa, coordenadora da pós-graduação de endocrinologia pediátrica da Afya e chefe do serviço de Endocrinologia do Hospital do Exército em Brasília (HMAB).

“Esses eventos apresentaram intensidade leve à moderada, sendo mais frequentes no período de subida da dose da medicação e com tendência a desaparecer com a manutenção do tratamento. Apenas 6% dos pacientes do grupo tirzepatida interromperam o tratamento por eventos adversos”, afirma.

 

Quais são as contraindicações?

Daniele Costa, endocrinologista pediátrica do Hospital Vitória, da Rede Américas, no Rio de Janeiro, afirma que o medicamento é contraindicado para pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide e para pessoas com síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.

O carcinoma medular de tireoide é um tipo raro de câncer que afeta a glândula tireoide. Já a síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 é uma condição genética hereditária associada ao desenvolvimento de tumores em glândulas produtoras de hormônios, incluindo a tireoide.

“Tem também um risco raro de pancreatite aguda e um pequeno risco aumentado de doenças da vesícula biliar ou das vias biliares. Também retarda o esvaziamento gástrico, podendo reduzir a eficácia de contraceptivos orais”, detalha a médica.

 

O medicamento vale para todas as crianças com diabetes tipo 2?

De acordo com Valerio, a aprovação do medicamento é voltada para crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, com diagnóstico de diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade. Na população pediátrica, a obesidade é definida a partir do índice de massa corporal (IMC) acima de dois desvios-padrão para idade e sexo.

Segundo ela, esses foram os critérios de inclusão do estudo (veja abaixo) que embasou a aprovação do medicamento, e a agência regulatória segue exatamente esses parâmetros. Por isso, o uso não deve ser extrapolado para crianças e adolescentes com obesidade sem diagnóstico de diabetes.

 

O que a ciência diz sobre a tirzepatida?

A Anvisa baseou sua decisão no estudo SURPASS-PEDS, publicado no fim de 2025 na Lancet, uma das revistas científicas médicas mais antigas e prestigiadas do mundo. O trabalho foi um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo — modelo considerado o padrão-ouro para a avaliação de medicamentos.

Os pesquisadores avaliaram a eficácia e a segurança da tirzepatida em crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 de início precoce. Participaram jovens entre 10 e 17 anos cujo diabetes não estava adequadamente controlado mesmo com uso de metformina e/ou insulina basal.

O grupo que utilizou tirzepatida apresentou uma redução média de 2,23% da hemoglobina glicada (considerada o principal marcador de controle glicêmico no diabetes). O grupo placebo apresentou aumento de 0,05%. Os participantes que usaram o medicamento também tiveram redução média de 11% do peso em 30 semanas.

“Definitivamente, isso é modificador da história natural da doença do diabetes tipo 2 para esses adolescentes que de outra forma poderiam ter um desenvolvimento com complicações já bastante precoces do diabetes”, diz Valerio.

Veja também: Diabetes e qualidade de vida: como é conviver com a doença

 

O remédio substitui dieta e exercício?

Especialistas reforçam que a tirzepatida não substitui mudanças no estilo de vida. O medicamento deve ser usado como complemento ao tratamento, que continua baseado em alimentação equilibrada, redução calórica e prática regular de exercícios físicos.

 

Quais os efeitos no longo prazo?

Os estudos clínicos acompanham os pacientes por um período específico, avaliando eficácia e segurança dentro desse intervalo. Dados de longo prazo ainda serão acumulados ao longo dos próximos anos, segundo as médicas, à medida que mais pacientes utilizarem a medicação e forem monitorados.

Elas ressaltam, porém, que a decisão de iniciar o tratamento deve sempre considerar o balanço entre riscos e benefícios. Isso porque manter crianças e adolescentes com obesidade e diabetes tipo 2 sem controle adequado pode trazer impactos importantes no futuro, incluindo complicações cardiovasculares, metabólicas e renais.

 

Tem no SUS?

Não há, até o momento, disponibilização da medicação pelo SUS para o tratamento do diabetes tipo 2 na faixa etária pediátrica. Mesmo pacientes atendidos por planos de saúde, em muitos casos, precisam adquirir o medicamento por conta própria.

 

Uso sem recomendação

Segundo as especialistas, é preciso entender a obesidade como uma doença crônica, que precisa de tratamento medicamentoso na maioria dos casos, além de acompanhamento com equipe multidisciplinar. Porém, há uso indiscriminado de medicações para perda de peso, sem orientação adequada e sem indicação médica, o que é um perigo, em especial para crianças e adolescentes. 

“Esse uso inadequado pode levar a efeitos colaterais e deficiência de nutrientes, como proteínas, minerais e vitaminas. Como consequência, pode comprometer o crescimento, a massa óssea, além do risco de desenvolvimento de transtornos alimentares futuros, devido à preocupação excessiva com a imagem corporal”, alerta Corrêa.

Veja também: Medicamentos para perda de peso: indicações, diferenças e riscos do uso inadequado



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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