“Um terapeuta para ajudar nos momentos difíceis”. O anúncio do ChatGPT no Google chamou a minha atenção. Abri e resolvi perguntar:
Fazer terapia pela inteligência artificial já não é mais novidade. Receber acompanhamento terapêutico se tornou o principal objetivo dos usuários dessas ferramentas, seguido de buscar companhia, organizar a vida pessoal, encontrar um propósito e ter hábitos mais saudáveis. No ChatGPT, Claude e semelhantes, ansiedade, depressão e solidão foram os principais problemas relatados.
Mas o crescimento do uso de IA no cuidado com a saúde mental expõe um problema maior: o que está impedindo os brasileiros de conversarem sobre os seus traumas com outro ser humano?
O encanto das IAs
“Na época em que o ChatGPT surgiu, eu comecei a mandar um monte de coisa aleatória e via que ele respondia. Um dia, eu mandei uma situação específica que eu tinha passado, e ele deu uma resposta que eu achei muito incrível. Depois disso, comecei a fazer frequentemente, com várias situações. E ele me aliviou, sabe?”
O relato é de Maria Eduarda Jamati, autônoma de 28 anos, que já havia feito terapia convencional na adolescência, mas encontrou na IA uma maneira de lidar com momentos de ansiedade e manter a vida sob controle.
Por causa do estigma que historicamente acompanha o cuidado em saúde mental, os programas de inteligência artificial surgem como uma porta de entrada. Principalmente para pessoas marginalizadas, que não se sentem confortáveis para buscar um profissional, a IA se apresenta como uma forma discreta, rápida e fácil de desabafar.
“A gente projeta em máquinas atributos humanos desde 1966. O primeiro chatbot de computador feito por um técnico do MIT [Massachusetts Institute of Technology] é o ELIZA. E a gente chama isso de efeito ELIZA. Essa capacidade de projetar em máquinas atributos que são humanos e com isso criar um vínculo emocional. Isso aumenta a confiança no outro, mesmo que esse outro seja uma tela de computador. Assim, ficamos muito mais abertos e receptivos à intervenção”, explica Aline Kristensen, psicóloga e pesquisadora em relação terapêutica.
Além disso, os programas são capazes de dar respostas simplificadas para problemas complexos e podem ser consultados a qualquer hora e em qualquer lugar.
“Por mais que você vá a uma terapia, você tem que agendar, não vai todos os dias. Se eu tivesse recorrido a uma terapeuta, ela teria me dado alternativas mais humanas, mas talvez não imediatas”, compara Maria Eduarda.
Então, onde está o problema?
“Quando um programa oferece psicoterapia através da internet, ele está, a princípio, rompendo o que nós chamamos de código de ética profissional. A gente tem todo um código de ética para trabalhar com confiança, sigilo e responsabilidade social pelo paciente. E isso não é respeitado dentro desses programas”, alerta Kristensen.
A empatia simulada, nome dado à habilidade dos chatbots de reconhecer emoções e humanizar suas mensagens, é uma das principais falhas. Quando a pessoa relata sofrimento mental, a resposta costuma ser genérica. Ela não leva em consideração as características pessoais, personalidade e histórico de quem está perguntando. Nas palavras de Maria Eduarda, o programa se “perde no personagem”, dando conselhos superficiais.
Dentro do processo terapêutico, é preciso entrar em contato com questões dolorosas, as quais o paciente nem consegue verbalizar ou acessar sozinho. Ao receber respostas validantes, pensadas para agradar e concordar com você, a evolução fica comprometida.
“Saúde mental é a capacidade do indivíduo de realmente funcionar no mundo. O excesso de tecnologia piora a saúde mental e desconecta as pessoas do mundo real e das relações humanas, que é cheia de frustrações. Uma pessoa saudável não é aquela que vai ser atendida em todas as suas necessidades. É aquela que consegue se adaptar, tolerando frustrações de forma razoável, mas conseguindo construir uma relação significativa com pessoas, com o seu trabalho, consigo mesmo, com o mundo, com o ambiente”, detalha Kristensen.
É claro que é possível fazer a diferenciação do que pode ou não ser aproveitado entre conselhos da IA. No entanto, pacientes em sofrimento mental geralmente perdem o senso crítico. Sugestões absurdas podem ser levadas a sério e resultar em surtos, agressividade, confusão mental e até suicídio. Adolescentes, por exemplo, são mais vulneráveis a esse tipo de efeito.
Outro problema é o escalonamento da inteligência artificial. Uma intervenção errada pode afetar milhares de pessoas que utilizam o programa. Não há um profissional para se responsabilizar por possíveis prejuízos ao bem-estar emocional, nem transparência sobre a utilização dos dados que o usuário compartilha.
Veja também: Dietas criadas por inteligência artificial: quais os riscos da prática?
Excesso de demanda, falta de dinheiro
No Brasil, a preocupação com a própria saúde mental já passou pela cabeça de 77% das pessoas. Ainda assim, apenas 39,9% dos brasileiros fazem ou fizeram acompanhamento terapêutico (com um especialista humano) e 19,7% desistiram no meio do caminho. Segundo levantamento da plataforma Doctoralia, a dificuldade de escolher um profissional, a vergonha e o estigma são os principais motivos para a desistência.
Só não superam a falta de recursos financeiros.
Estima-se que uma sessão individual de psicoterapia presencial custe, em média, entre R$ 100 e R$ 350. O valor pode variar por região, experiência do profissional, tipo de terapia e duração. Considerando o padrão de uma sessão por semana, o valor mensal ficaria entre R$ 400 e R$ 1.400. Ou seja, ao menos um quarto do salário mínimo ficaria comprometido apenas com a terapia.
Por outro lado, no Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento gratuito é disponível para toda a população. Ele pode acontecer através das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Nas UBS, a ideia é que o cuidado em saúde mental não passa só pela psicoterapia individual. Terapia em grupo, acupuntura, shiatsu, grupos de artesanato, grupos de fala e outras estratégias possibilitam um acompanhamento mais contextualizado. Guiado pelos agentes comunitários de saúde e equipes multiprofissionais, elas são voltadas para pessoas em sofrimento mental de baixa gravidade.
Já nos casos mais complexos, os CAPS são serviços de porta aberta, em que qualquer pessoa que chegar com uma demanda deve ser atendida no mesmo dia, sem filas. A oferta de cuidados também é variada, e não se restringe à psicoterapia individual.
Os limites da rede pública
No entanto, dificuldades impedem que esse acesso se concretize como deveria. O subfinanciamento, a cobertura territorial insuficiente e a sobrecarga das equipes são alguns dos empecilhos.
Hoje, o Brasil conta com quase 45 mil UBS ativas, distribuídas por todos os 5,5 mil municípios do país; 88,5% delas possuem equipe de Saúde da Família (composta, além de especialistas, por agentes comunitários) e 74,4% dispõem de equipes multiprofissionais (que podem ou não incluir psicólogos).
Onde não há agentes comunitários de saúde, é preciso que o paciente procure a unidade por vontade própria. Muitas vezes, isso não acontece, pela dificuldade de adesão ou até mesmo por não saber que existe esse tipo de cuidado na atenção básica.
Já as equipes multiprofissionais podem atuar exclusivamente em uma UBS ou ser volante entre várias unidades. Junto com as equipes de saúde da família, são elas que decidem o tipo de processo terapêutico para o paciente.
“Se for a psicoterapia individual, ela não será igual a da rede privada. A frequência será diferente. Há muitas variáveis, como por exemplo: qual é o tamanho do território que essa equipe atende? Existe a possibilidade de atendimento individual com qualquer profissional da equipe de saúde mental, mas fazendo uma avaliação do que é possível cuidar, da demanda, do tamanho da fila, tudo isso”, explica Denis Recco, terapeuta ocupacional com mais de 18 anos de experiência em saúde mental dentro do SUS.
Em relação aos CAPS, que recebem pacientes de maior gravidade, houve uma ampliação de postos habilitados desde 2023. Hoje, são mais de 6,2 mil serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), incluindo CAPS, residências terapêuticas e unidades de acolhimento.
O avanço, porém, não é uniforme. Há apenas 1,13 CAPS para cada 100 mil habitantes no país. Na Região Norte, por exemplo, há baixa cobertura e grandes distâncias territoriais. No Distrito Federal, estado com uma das piores coberturas de CAPS do país, o tempo médio entre o pedido e a primeira consulta é de 2 anos e 7 meses.
Tais dificuldades prejudicam o acompanhamento contínuo, fundamental para evitar que o sofrimento se cronifique.
“Mesmo sendo uma política que existe há pouco tempo, hoje em dia é muito comum pessoas, inclusive que não têm um transtorno mental grave, procurarem o cuidado no CAPS. E aí, nesse caso, cabe à equipe fazer um direcionamento para o melhor lugar. Nem sempre isso funciona perfeitamente, inclusive porque o processo terapêutico é um processo bastante complexo que também depende do desejo do usuário de poder se cuidar”, diz Recco.
Por outro lado, para o terapeuta, o especialista em saúde mental não deve ser o único responsável por esse cuidado, considerando que grande parte da população que não tem acesso à terapia enfrenta outros problemas sociais críticos, como fome, desemprego, falta de lazer e esvaziamento das relações sociais.
“Não é dando remédio para a população ansiosa que vamos resolver a ansiedade. É mudando a vida. O estilo de vida que as pessoas levam hoje em dia favorece cada vez mais o surgimento do adoecimento psíquico. É uma vida baseada em muitas horas de trabalho, poucas horas de diversão e uma tensão enorme quanto a se haverá comida [disponível]. Então, não vai ter psicólogo, terapeuta ocupacional, psiquiatra que vá resolver isso, né? Tratamos da sintomatologia que isso causa, e não do problema”, afirma.
Quer continuar fazendo terapia com IA? Cuidado
Nesse contexto, o alcance das ferramentas de inteligência artificial é infinitamente ainda mais limitado. Mas, se você realmente não puder ou não quiser buscar atendimento com um terapeuta de verdade, o uso desses programas deve ser comedido. Para amenizar os riscos, as recomendações são:
- trabalhe a sua própria psicoeducação: tente entender como os seus pensamentos, emoções e comportamentos funcionam. Você pode fazer isso através da leitura e de anotações diárias, que podem te ajudar a reconhecer gatilhos;
- busque aconselhamento, se não de um profissional, de uma pessoa de confiança: mostre para um amigo ou familiar os aconselhamentos que você recebeu da IA e avaliem, juntos, se aquilo faz sentido;
- supervisione crianças e adolescentes: os mais jovens são mais vulneráveis à influência negativa desse tipo de programa. Monitore o uso;
- tenha em mente os limites da inteligência artificial: lembre que ele está apenas simulando a empatia, e não consegue dar conselhos mais aprofundados.
Veja também: Para que serve a psicoterapia?

