Quedas que machucam a boca costumam gerar preocupação imediata nos pais, que se perguntam sobre a gravidade do impacto e até sobre a possibilidade de afetar o nascimento do dente permanente no futuro. Mesmo em situações aparentemente simples, o trauma dental infantil merece atenção, já que pequenas alterações podem aparecer horas ou dias depois do acidente.
Os principais riscos
A perda de um dente de leite antes do tempo traz riscos tanto locais quanto sistêmicos.
“O próprio impacto ou infecções posteriores podem causar manchas ou alterações no esmalte do dente permanente (hipoplasia), deformações na coroa ou na raiz, e até impedir que ele nasça sozinho”, alerta Ludmilla Saiter, dentista e diretora da Rede UniABO, um dos pilares acadêmicos da Associação Brasileira de Odontologia (ABO).
O vazio que fica na boca tende a ser ocupado pelos dentes vizinhos, reduzindo a área necessária para que o dente permanente nasça alinhado e resultando em dentes tortos.
A mastigação também pode ser prejudicada, já que a criança tende a concentrar a trituração apenas de um lado, sobrecarregando a musculatura facial. Se for um dos dentes anteriores, essenciais para apoiar a língua na pronúncia de fonemas específicos (como o “F”, “V”, “S”, “Z”), pode ainda ocorrer desvios na fala.
Além disso, especialmente se o impacto foi nos dentes da frente, existe o risco de comprometimento estético, afetando a autoestima e socialização da criança.
O que fazer?
Por isso, ao se deparar com um trauma, a principal dica é manter a calma:
- conforte a criança: traumas na boca sangram muito por causa da grande vascularização da região, o que pode assustar a criança. Dê apoio e limpe suavemente a área com água fria ou soro fisiológico;
- controle o sangramento: faça uma leve pressão no local com uma gaze ou pano limpo e use gelo por fora da boca para reduzir o inchaço;
- procure o pedaço ou o dente inteiro no local do acidente: se o dente quebrou, guarde o fragmento em um recipiente com leite ou soro. Se o dente saiu inteiro, guarde-o também e leve-o ao dentista para que ele avalie se restou raiz no osso;
- procure um odontopediatra: o quanto antes, vá a um profissional especializado.
“Regra de ouro: dentes de leite que saíram inteiros da boca nunca devem ser reimplantados. O reimplante pode deslocar o germe do permanente, levar bactérias para o germe do permanente ou causar uma inflamação que prejudica o seu desenvolvimento”, afirma a especialista.
Quando é preciso fazer a extração do dente?
A prioridade do tratamento do dente de leite que sofreu o trauma é proteger o germe do dente permanente que está se desenvolvendo logo abaixo dele. Para isso, são feitos exames clínicos, radiográficos e, em alguns casos, acompanhamento a longo prazo. A extração do dente de leite é indicada quando a sua permanência coloca essa formação em risco. Isto é, quando:
- há intrusão severa com desvio palatino, ou seja, o dente “entra” no osso e a raiz é empurrada em direção ao dente permanente;
- há fraturas extensas na raiz;
- o dente fica tão solto que corre o risco de ser aspirado ou engolido pela criança;
- ou há uma infecção secundária com presença de abscesso (pus), fístula ou reabsorção patológica da raiz que não responde ao tratamento de canal (endodontia) e ameaça o dente permanente.
“O acompanhamento ortodôntico é indicado quando o dentista observa a perda iminente de espaço na arcada ou desvios funcionais na mordida. Nestes casos, o uso de aparelhos do tipo mantenedores de espaço ou aparelhos ortopédicos funcionais ajudam a preservar o alinhamento correto, garantindo que o dente permanente tenha o caminho livre e saudável para nascer”, conclui Saiter.
Veja também: Primeiros dentes do bebê: quais os sintomas e como aliviar o desconforto?

