A fome na infância pode repercutir décadas depois e afetar a saúde na velhice. Um estudo brasileiro, baseado em dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), mostra que a privação alimentar está associada a maior risco de doenças e limitação das atividades diárias.
“Idosos que relataram passar fome apresentaram maior chance de desenvolver multimorbidade, fragilidade e sintomas depressivos. O estudo mostra que a fome vivida nos primeiros anos pode deixar marcas que persistem por décadas e influenciam o processo de envelhecimento”, destaca Nair Tavares, nutricionista, doutora em saúde pública e uma das autoras da pesquisa.
O ELSI-Brasil é uma das principais pesquisas sobre envelhecimento no país e é financiado pelo Ministério da Saúde. Com uma amostra representativa de brasileiros com 50 anos ou mais, o estudo acompanha como fatores sociais e de saúde ao longo da vida influenciam o envelhecimento. O levantamento começou em 2015 e é coordenado pela Fiocruz Minas e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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O que a pesquisa mostrou?
Foi realizada uma análise com informações de 6.822 pessoas com 60 anos ou mais. A fome na infância foi avaliada por meio da pergunta: “Desde o seu nascimento até os 15 anos de idade, alguma vez faltou alimento/comida na sua casa e o senhor ou senhora foi dormir com fome?”. Os resultados mostram que os efeitos da fome podem aparecer apenas décadas depois.
No levantamento, cerca de 25% dos participantes relataram ter passado fome na infância. Esses idosos apresentaram maior risco de:
- multimorbidade, ou seja, conviviam com duas ou mais doenças crônicas simultaneamente;
- limitações em atividades básicas do dia a dia, como tomar banho, se vestir ou se locomover dentro de casa;
- fragilidade, condição marcada por redução da força muscular e da resistência física;
- sintomas depressivos.
Por outro lado, não houve associação significativa com obesidade nem com comprometimento cognitivo, o que, segundo os pesquisadores, indica que os efeitos da fome são complexos e não se manifestam da mesma forma em todos os aspectos da saúde.
Impacto na saúde mental
A saúde mental também aparece como um dos pontos mais marcantes da pesquisa. Os dados mostram que passar fome na infância está ligado a uma maior presença de sintomas depressivos na velhice.
Idosos que viveram essa experiência tiveram 42% mais risco de apresentar sintomas depressivos, mesmo considerando fatores como renda, escolaridade e estilo de vida.
“Sentir fome na infância pode provocar um estresse intenso e prolongado. Com o tempo, isso afeta a forma como o corpo reage a situações de pressão e aumenta a vulnerabilidade a problemas de saúde mental, como a depressão, ao longo da vida”, afirma Tavares.
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Como a fome deixa marcas no organismo
A falta de alimentação adequada na infância pode alterar o funcionamento do organismo de forma duradoura. Nos primeiros anos de vida, o corpo tenta se adaptar à escassez de nutrientes e essas mudanças podem aumentar o risco de doenças crônicas ao longo do tempo.
Além disso, a privação alimentar pode afetar o sistema imunológico e favorecer processos inflamatórios, associados a condições como doenças cardiovasculares, diabetes, síndrome da fragilidade e depressão.
Na maioria das vezes, a fome na infância está ligada a situações de maior vulnerabilidade social. Ao longo dos anos, dificuldades de acesso à saúde, à educação e a uma alimentação adequada tendem a se acumular, influenciando hábitos e a própria saúde na vida adulta e na velhice.
“A fome na infância não deve ser vista como um evento isolado. Ela é um marcador de vulnerabilidade biológica e social, capaz de ‘programar’ o organismo para maior risco de doenças, perda funcional e pior qualidade de vida ao longo do envelhecimento”, explica Fabio Campos Leonel, geriatra e diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (SBGG-SP).
Como reverter os danos da fome na velhice?
Embora os efeitos da fome na infância não possam ser totalmente revertidos, algumas medidas ajudam a reduzir seus impactos ao longo da vida.
Na prática, algumas estratégias fazem diferença:
- alimentação adequada, com atenção à ingestão de proteínas e nutrientes essenciais, que ajudam a preservar a massa muscular;
- exercícios físicos, principalmente os de força, fundamentais para manter a autonomia e a capacidade funcional;
- acompanhamento de saúde, controle de doenças crônicas e prevenção de complicações;
- cuidados com a saúde mental, como manter o tratamento da depressão e a redução do isolamento social.
“Esses pacientes tendem a apresentar maior carga de doenças crônicas, pior reserva funcional, maior dependência e maior vulnerabilidade psicossocial. Frequentemente, são pacientes com trajetória de vida marcada por desigualdade social e por um envelhecimento mais acelerado do ponto de vista clínico”, diz Leonel.
Prevenção é o caminho para saúde dos idosos
O estudo reforça ainda que a principal forma de enfrentar o problema da fome e seus impactos na saúde da população está na prevenção na primeira infância.
“Combater a fome na infância é uma das estratégias mais importantes para promover saúde ao longo de toda a vida. Garantir acesso a uma alimentação adequada nos primeiros anos não só melhora o desenvolvimento infantil, como também reduz o risco de doenças e limitações no futuro ”, complementa Tavares.
Para a pesquisadora, ações voltadas à segurança alimentar são um investimento de longo prazo. “Investir em políticas públicas voltadas à proteção e ao cuidado de crianças e adolescentes pode resultar em uma velhice mais saudável e com menos desigualdades”, conclui.
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