Empresas nos EUA lacram celulares de funcionários para evitar distrações; isso é possível no Brasil?

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Empresas nos EUA lacram celulares de funcionários para evitar distrações; isso é possível no Brasil?

Um aluno usa o celular depois de destravar a bolsa que impede o uso durante o período escolar, na escola Bayside Academy, 16 de agosto de 2024, em San Mateo, Califórnia, EUA.
Lea Suzuki/San Francisco Chronicle via AP, Arquivo
Uma reportagam do jornal “Financial Times” mostra como empresas nos Estados Unidos têm adotado uma medida incomum para reduzir distrações e proteger informações sensíveis: exigir que funcionários guardem seus celulares em bolsas lacradas durante o expediente.
A prática, que já aparece em diferentes setores, busca limitar o uso dos aparelhos no ambiente de trabalho e reforçar a segurança de dados.
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Segundo o jornal, a empresa de verificação de identidade digital ID.me implementou o sistema há cerca de três anos para aproximadamente 290 funcionários.
Os aparelhos são colocados em pequenos sacos que permanecem com os trabalhadores, mas só podem ser abertos em estações magnéticas específicas.
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Diferentemente de armários tradicionais, as bolsas permitem que os funcionários percebam chamadas ou notificações urgentes. O uso dos celulares segue liberado durante os intervalos.
De acordo com o jornal, as empresas que adotam a medida apontam principalmente dois motivos: evitar vazamentos — intencionais ou acidentais — de dados sensíveis e aumentar a produtividade ao reduzir distrações.
A fabricante dessas bolsas, a Yondr, afirma que seus clientes incluem tribunais, agências governamentais, creches e empresas com propriedade intelectual sensível. Segundo o CEO da empresa, muitas organizações recorrem ao sistema após tentativas frustradas de confiar apenas em regras internas de uso.
“As organizações que nos procuram geralmente já tentaram o sistema de confiança”, diz Graham Dugoni, fundador e CEO da Yondr. “O que esses ambientes têm em comum é o reconhecimento de que uma política de não usar celular não é o mesmo que um ambiente livre de telefones”, conta.
A discussão também ganhou força em ambientes corporativos. O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, já criticou o uso constante de celulares em reuniões, classificando o hábito como desrespeitoso e prejudicial à produtividade.
“As pessoas estão em reuniões e recebem notificações, mensagens de texto pessoais e emails o tempo todo. Isso tem que parar. É desrespeitoso. É perda de tempo”, afirmou.
Apesar da resistência inicial, alguns trabalhadores relatam efeitos positivos. A funcionária Kamilah Muiruri, da ID.me, diz que a política melhorou sua relação com o celular e contribuiu para mais interação entre colegas.
“Não preciso de tantas pausas para olhar meu celular.” Para ela, há outro benefício. “Isso nos faz conectar com os outros. Eu não conhecia as pessoas do escritório porque estava focada nos amigos que tenho fora do trabalho. Agora, somos unidos como equipe e adoramos sair juntos”.
Ainda assim, a implementação não foi simples. A própria empresa relata que, nos primeiros meses, houve queixas e descumprimento frequente da regra, com parte dos funcionários interpretando a medida como falta de confiança da gestão.
Kyle Scofield, vice-presidente sênior de suporte ao membro na ID.me, diz que quando a empresa adotou as bolsas, houve resistência de funcionários. “Durou mais do que eu esperava. Nos primeiros seis meses, as violações eram muito frequentes.” Hoje, ele diz, “não saberia dizer a última vez que tivemos algo assim.”
A adoção das bolsas no ambiente corporativo segue uma tendência que já vem sendo testada em escolas. Em diferentes países, autoridades têm defendido a restrição do uso de smartphones em sala de aula como forma de reduzir a dependência digital e melhorar a concentração dos alunos.
Nesse cenário, as bolsas lacradas surgem como uma alternativa prática — modelo que agora começa a ser replicado por empresas em busca de mais foco e menos distrações no trabalho.
Efeitos na produtividade ainda são incertos
Ainda segundo o jornal, especialistas destacam que os impactos da restrição ao uso de celulares não são consenso. Estudos indicam que a proibição pode aumentar a produtividade em tarefas simples e repetitivas, mas não necessariamente em atividades que exigem criatividade e autonomia.
“É muito difícil para os pesquisadores determinar os efeitos de uma proibição em comparação com uma situação sem a restrição no mesmo contexto organizacional”, afirma Adrian Chadi, professor associado de economia da Universidade de Southampton.
Segundo ele, o resultado varia conforme o tipo de trabalho. Enquanto funções mais operacionais podem se beneficiar da redução de distrações, atividades que dependem de pensamento criativo podem ter efeito oposto.
Chadi também aponta que a medida pode ser mal recebida pelos funcionários, especialmente quando o uso do celular traz benefícios no dia a dia. “Também é possível que os trabalhadores percebam a proibição de forma negativa se o uso do aparelho oferecer vantagens claras no trabalho”, diz.
Há ainda evidências de que permitir o uso dos celulares pode ajudar os funcionários a lidar com questões pessoais ao longo do expediente, o que pode ter impacto positivo no desempenho geral.
Eoin Whelan, professor de análise de negócios e sociedade da Universidade de Galway, conduziu um estudo em uma empresa que voltou atrás na proibição. Segundo ele, a liberação dos aparelhos não prejudicou a produtividade e ajudou os trabalhadores a equilibrar demandas pessoais.
“Depende do funcionário, mas no mundo de hoje, a maioria espera que haja uma fronteira entre trabalho e vida pessoal, especialmente aqueles responsáveis por cuidar da família fora do emprego”, afirma.
Uso de celular / telefone / aplicativo mensagem e comunicação
Victor Lebre/g1
E como funciona no Brasil?
No Brasil, empresas podem proibir ou restringir o uso de celulares pessoais durante o expediente, mas a medida precisa seguir alguns limites. Não há regra específica na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sobre o tema, mas o empregador tem o chamado poder diretivo — ou seja, pode organizar, controlar e fiscalizar as atividades dos funcionários.
Na prática, a restrição pode ser prevista em contrato de trabalho ou em regulamentos internos, especialmente em atividades que envolvam riscos à integridade física, proteção de dados ou sigilo profissional.
“O uso do celular pode ser limitado, desde que não haja invasão da privacidade, da intimidade e da dignidade do trabalhador”, afirma o juiz do trabalho Luiz Antonio Colussi, titular da 9ª Vara do Trabalho de Porto Alegre, em entrevista à Rádio TST.
Segundo o magistrado, a fiscalização deve ser proporcional e baseada no bom senso. Medidas como restringir o uso durante a operação de máquinas ou veículos, por exemplo, são consideradas legítimas e ajudam a evitar acidentes e conflitos no ambiente de trabalho.
O descumprimento das regras pode levar a advertência, suspensão e, em casos mais graves — como situações de risco —, até demissão por justa causa. Especialistas recomendam que as empresas deixem claras as regras e prevejam exceções, como uso em emergências ou durante os intervalos.
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Fonte: Valor Econômico

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