A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão de medicamentos com clobutinol, um composto químico muito usado em xaropes para tosse seca (quando não há produção de catarro). A decisão vale para todos os remédios que contenham a substância, independentemente do fabricante, e inclui a proibição da fabricação, venda, importação e uso no país.
De acordo com a agência, o motivo é a associação do clobutinol a arritmias graves, ou seja, alterações no ritmo do coração.
“Os riscos associados superam seus benefícios, devido ao risco de arritmia grave com prolongamento do intervalo QT, sendo tal situação suficientemente grave para justificar a suspensão dos medicamentos contendo esta substância”, diz a resolução da Anvisa, publicada na segunda-feira (27).
O intervalo QT é um parâmetro observado no eletrocardiograma que mostra quanto tempo o coração leva para se recuperar eletricamente entre um batimento e outro, segundo o cardiologista Douglas Antunes Moreno.
“Quando esse intervalo fica prolongado, significa que o coração está demorando mais do que o normal para se reorganizar, o que pode aumentar o risco de alterações no ritmo cardíaco”, diz.
Na prática, de acordo com Moreno, isso cria uma situação de maior vulnerabilidade para o surgimento de arritmias. Em casos raros, o médico explica que pode ocorrer um tipo específico de arritmia grave, chamada Torsades de Pointes (TdP), em que os batimentos ficam muito rápidos e desorganizados, comprometendo a circulação do sangue pelo corpo.
De acordo com Moreno, o prolongamento do intervalo QT, isoladamente, não costuma causar sintomas. Os sinais aparecem quando a arritmia acontece. Os principais são palpitações repentinas, sensação de coração acelerado ou falhando, tontura, sensação de desmaio e, em situações mais graves, perda de consciência.
“Esses sintomas merecem atenção, especialmente se surgirem logo após o uso do medicamento.”
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Decisão acompanha movimento internacional
A Anvisa seguiu um movimento já observado em outros mercados. Em 2007, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), órgão regulador similar à Anvisa na União Europeia, recomendou a retirada da comercialização de todos os medicamentos que contêm a substância.
Segundo o comitê científico da entidade, dados clínicos associaram a substância ao prolongamento do intervalo QT, e o risco era ainda maior em doses elevadas. Além disso, os medicamentos eram usados por pacientes sem monitoramento cardíaco, apesar dos possíveis efeitos no coração, e indicados para uma condição comum (a tosse) para a qual existem alternativas terapêuticas.
Outros riscos
Segundo Jonatas Reichert, pneumologista, o clobutinol também pode causar diversos efeitos colaterais, como sonolência (com risco para quem dirige), retenção urinária, piora de condições como glaucoma, além de possíveis impactos na gravidez e na amamentação.
Ele destacou ainda riscos cardiovasculares, como aumento da pressão arterial, angina e até infarto, além de sintomas neurológicos como tontura, confusão e, em casos mais graves, convulsões e depressão do sistema nervoso central, que pode evoluir para sedação intensa ou até coma.
Quem já tomou ou ainda toma deve se preocupar?
Quem já usou medicamentos com clobutinol no passado não precisa se preocupar, de acordo com Rafael Klas da Rocha Leal, médico pneumologista do Eco Medical Center, em Curitiba (PR).
“Se o paciente utilizou a última dose há mais de 48 horas o risco de potenciais efeitos adversos é muito baixo. O paciente deve estar atento à presença de sintomas como tonturas, palpitações ou desmaios. Em caso de dúvidas a recomendação é sempre procurar orientação do seu médico.”
Reichert lembra que a substância não fica armazenada nos tecidos do corpo para ser liberada depois. “Não há evidência científica disso e, se a pessoa está sem sintomas, não há necessidade de acompanhamento médico”.
Já quem ainda utiliza o remédio deve procurar um médico ou farmacêutico para avaliar alternativas.
Segundo Reichert, existem outros medicamentos que reduzem o reflexo da tosse, não apresentam risco e seguem sendo prescritos normalmente.
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Como saber se o medicamento tem clobutinol?
A maneira mais simples é olhar a embalagem, a bula ou o rótulo do medicamento e verificar o princípio ativo, de acordo com o cardiologista Moreno. “Se estiver descrito ‘cloridrato de clobutinol’, trata-se da substância incluída na suspensão determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.”
Segundo Moreno, também é importante observar a composição de xaropes para tosse e gripe, já que o clobutinol pode aparecer combinado com outras substâncias. Em caso de dúvida, peça orientação a um farmacêutico ou consulte as informações oficiais na Anvisa.
Já se a embalagem estiver sem identificação clara ou a composição não puder ser confirmada, a recomendação é não utilizar o medicamento até ter certeza sobre os ingredientes.
