Racismo gera custos para toda sociedade – 23/04/2026 – Políticas e Justiça

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Racismo gera custos para toda sociedade - 23/04/2026 - Políticas e Justiça

Quando você pensa nas consequências do racismo, o que vem à sua mente? O mais provável é que sejam casos de agressões explícitas, como insultos ou até mesmo violência. Esses episódios são frequentes e merecem o total repúdio da sociedade (são, inclusive, crimes inafiançáveis). Mas eles são apenas a manifestação mais visível do racismo, porque as desigualdades no Brasil são atravessadas pela discriminação de formas muito mais sorrateiras. E esse racismo custa caro não apenas para quem sofre diretamente os seus efeitos, mas para todo mundo, incluindo as pessoas brancas.

Uma forma de entender esse processo é visualizando o ciclo de vida de uma pessoa negra. Antes mesmo de nascer, ela já é impactada pelo racismo, que afeta a mãe e por tabela, o desenvolvimento do feto. Processos semelhantes de discriminação (aberta ou velada) continuam na escola, no trabalho, nas ruas, nas interações com os serviços públicos e nas relações afetivas.

Devido às desigualdades de oportunidades e um pior acesso a serviços públicos, a população negra não chega onde seus talentos e capacidades permitiriam. Fica submetida a salários menores, carreiras menos estáveis, menos produtividade, renda e poupança. Ora, se mais da metade da população brasileira não atinge seu potencial, o mesmo é verdade para a economia de forma geral. É como um “imposto difuso”, cujos custos recaem de forma mais direta sobre pessoas negras, mas acabam sendo pagos por toda a sociedade.

Esse também é o retrato de uma atuação estatal deficiente ou insuficiente. Se políticas em tese universais geram resultados sistematicamente piores para um grupo, gastos em educação, saúde e segurança não estão entregando o que deveriam. A consequência é a perpetuação das desigualdades e a necessidade de mais gastos para corrigi-las, pressionando a sustentabilidade do Estado. Isso também gera efeitos capciosos no debate público. Uma sociedade percebida como injusta gera ressentimento, perda de confiança entre grupos e nas instituições, e menor capacidade de cooperar.

O racismo não é (apenas) uma questão moral, mas uma verdadeira bola de ferro no pé da sociedade brasileira, que pesa, atrasa o nosso desenvolvimento e nos mantém longe das aspirações de sermos um país melhor para se viver.

Estes temas são discutidos no “Guia da Gestão Pública Antirracista”, que será lançado no dia 24 de abril em São Paulo (inscrições aqui) e no dia 27 de abril em Brasília. O livro busca compreender como o Estado pode alterar essa dinâmica a partir da atuação cotidiana do serviço público. Isso passa pela professora, médico ou policial que entende melhor seus vieses raciais na interação com o cidadão e tenta corrigi-los. Pelo servidor administrativo que instala processos para garantir que o preenchimento de dados de raça/cor seja feito de forma adequada e permita visualizar as desigualdades raciais. Pelo(a) gestor(a). E também, por que não, pelo político que compreende como os supersalários para uma elite do serviço público (majoritariamente branca) contribuem para a reprodução da desigualdade racial e atua para reduzi-los.

As duas coisas andam lado a lado: a ideia de que o antirracismo não é uma pauta apenas das pessoas negras e o esforço para que gestão pública adote a equidade racial como método institucional e critério de desempenho. Esse é também um convite à ação para que o Brasil deixe de ser o país do futuro e se torne o país do presente.

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Karoline Belo e João Pedro Caleiro foi “Andar com fé”, de Gilberto Gil.


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Fonte: Folha SP

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