A troca de carteiras de crédito entre o Banco Master e o BRB (Banco de Brasília), após a detecção de fraudes nas carteiras originais adquiridas pelo banco público do DF, envolveu ativos que tinham como donos pessoas beneficiárias do auxílio emergencial, empresas com capital social de R$ 150 a R$ 1.000 e um consórcio responsável pela gestão de cemitérios em São Paulo.
As informações sobre esses ativos, ofertados ao Banco de Brasília após uma primeira compra de créditos falsos do Master, foram comunicadas ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) pelo próprio BRB em 18 de novembro do ano passado, mesmo dia em que o Banco Central anunciou a liquidação do Master, de Daniel Vorcaro.
Em 33 páginas, um RIF (relatório de inteligência financeira) elaborado pelo Coaf —órgão do governo federal responsável pela detecção e prevenção do crime de lavagem de dinheiro— detalhou as carteiras ofertadas pelo Master ao BRB, com indicativo de que os direitos creditórios ofertados ao BRB são irregulares e problemáticos. O RIF faz menção a transações financeiras que somam R$ 6,6 bilhões.
Investigação da Polícia Federal aponta que o Master fabricou carteiras de crédito consignado e vendeu para o BRB por R$ 12,2 bilhões. Diante de questionamentos feitos pelo Banco Central, o BRB deu ao Master a oportunidade de substituir as carteiras podres.
A substituição não foi o suficiente e, no começo do ano, o BC determinou que o BRB reservasse ao menos R$ 5 bilhões para cobrir as perdas decorrentes dessa operação, mas afirmou que o valor pode ser expressivamente maior diante da baixa qualidade dos ativos recebidos.
A defesa de Vorcaro foi procurada pela reportagem desde a terça-feira (14), mas não respondeu às perguntas. O BRB foi questionado na quinta (16), inclusive sobre a aceitação dos ativos, mas não houve resposta.
Nesta segunda-feira (20), o BRB confirmou um acordo para transferir a um fundo de investimentos gerido pela Quadra Capital ativos que tiveram origem no Banco Master, no valor de R$ 15 bilhões. Trata-se de mais uma investida para tentar reequilibrar as contas da instituição financeira. A maior parte dos ativos vendidos é de direitos creditórios do Credcesta, programa de crédito consignado a servidores públicos.
AUXÍLIO EMERGENCIAL
O relatório do Coaf lista quatro ofertas de carteiras de crédito ao BRB que foram produzidas por empresas cujos sócios ou administradores, durante a pandemia, receberam o auxílio emergencial, programa do governo de Jair Bolsonaro (PL) voltado a famílias de baixa renda. Ao todo, essas carteiras somaram R$ 768,3 milhões.
Essas carteiras têm origem em empréstimos que teriam sido feitos por essas empresas e depois revendidos ao Master. Na substituição de ativos com o BRB, o Master teria oferecido essas carteiras de crédito.
Em três casos, o beneficiário do auxílio é uma mesma pessoa: Everton Mendonça Pereira. Ele aparece como sócio ou administrador da Gran Viver Urbanismo, empresa que produziu direitos créditos para o Master no valor de R$ 213 milhões. Esses créditos foram depois ofertados ao BRB. Everton também aparece na RMEX Construtora, que produziu outros R$ 211 milhões em direitos creditórios; e na SEJ Consultoria e Incorporação, cujos direitos creditórios somaram R$ 164 milhões.
Dados do Portal da Transparência, do governo federal, mostram que Everton recebeu R$ 7,2 mil em auxílio emergencial entre abril de 2020 e janeiro de 2022.
Outro beneficiário do mesmo auxílio foi Natan Aparecido Barros, com R$ 2,4 mil recebidos em 2020. Natan é citado no RIF como beneficiário final na operação que envolve a Gran Viver Urbanismo. Conforme dados da Receita Federal, ele é presidente da empresa e Everton, diretor.
O nome de Everton aparece hoje associado a 51 CNPJs (cadastros nacionais de pessoas jurídicas) únicos; o de Natan, a 45.
A reportagem tentou contato com os dois desde a quarta-feira (15) por meio de diferentes números telefônicos associados a eles na internet, sem sucesso. A reportagem também ligou para a RMEX e a SEJ na quarta, mas a mensagem automática indicou que os números são inexistentes.
Em nota, a Gran Viver disse que são “imprecisas” associações entre informações de terceiros e operações empresariais. “A Gran Viver é uma companhia que, há mais de 45 anos, dedica-se exclusivamente ao desenvolvimento e loteamento de empreendimentos imobiliários”.
As propostas de trocas de carteiras envolveram ainda uma prorrogação de prazos de parcelas referentes à aquisição de direitos creditórios no valor de R$ 180,3 milhões, relacionados a uma empresa chamada Bloko CP e ao fundo Terravista Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, que seria vinculado à Bloko. Conforme o RIF, o beneficiário final e cotista único do Terravista é Leonardo Lacerda Nolasco, que também recebeu auxílio emergencial, R$ 3 mil, durante a pandemia, em 2020.
A empresa Bloko não respondeu aos questionamentos feitos em e-mail enviado às 12h26 desta quinta. A reportagem não localizou Nolasco.
Reportagens anteriores da Folha mostraram que entre os ativos repassados pelo Master ao BRB estavam bares, restaurantes e ações da Ambipar, além de fundos com créditos inadimplentes (dívidas não pagas ou em atraso), ações que perderam valor e imóveis, que são ativos de baixa liquidez.
O relatório do Coaf lista outros ativos ofertados pelo Master, a partir de uma seleção feita pelo próprio BRB, conforme o comunicado. Uma aquisição de direitos creditórios no valor de R$ 1,9 bilhão envolve empresas cujo capital social é de R$ 1.000. Também há créditos de R$ 350 milhões relacionados a empresas que têm esse mesmo capital ínfimo. Em um dos casos listados no RIF, o capital da empresa é de R$ 150.
Outro ativo, no valor de R$ 118,2 milhões, envolve o grupo Cemitérios e Crematórios SP, uma concessionária de serviços de administração de cemitérios na cidade de São Paulo —a gestão de Ricardo Nunes (MDB) privatizou esses serviços.
O grupo Maya –nome fantasia da concessionária– ficou responsável pelo bloco 3 de cemitérios, em Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade. Na oferta de ativos do Master ao BRB, foram incluídos direitos creditórios relacionados à operação entre o banco de Vorcaro e a empresa que faz a gestão de cemitérios na capital paulista.
Na semana passada, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino pediu explicações à prefeitura sobre eventuais vínculos entre concessionárias do serviço funerário na capital e o Master.
Em nota à Folhaa Prefeitura de São Paulo disse que as investigações sobre atos do Master são de responsabilidade do STF, e que os serviços funerários e os cemitérios estão em funcionamento, sem intercorrências.
O grupo Maya não respondeu aos questionamentos da reportagem, enviados por e-mail às 12h43 desta quinta.
Há ainda uma operação do Master com Bruno Lemos Ferrari, sócio-fundador da Oncoclínicas do Brasil Serviços Médicos, no valor de R$ 657 milhões, cujos direitos creditórios também foram ofertados ao BRB.
O RIF afirma que existe uma discrepância entre a informação disponível sobre a renda do empresário e o valor da parcela da operação –R$ 14,3 milhões, mais encargos. A Oncoclínicas afirmou que não vai se manifestar a respeito.
Fonte: Folha SP

