O patrimônio declarado de João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, duplicou em um ano e chegou a R$ 1,49 bilhão em 2024, como mostram as declarações de Imposto de Renda do empresário, que teve o sigilo fiscal quebrado pela CPI do Crime Organizado no Senado.
Em 2023, os bens declarados à Receita Federal somavam R$ 748,7 milhões. Um ano depois, esse valor dobrou, principalmente em razão da evolução de ações em uma empresa chamada Lurix Participações.
Mansur declarou ao Fisco que, em 2023, tinha R$ 696,8 milhões em ações na Lurix, cuja principal atividade econômica é atuar como holding de instituições financeiras. Em 2024, essas ações declaradas somavam R$ 1,46 bilhão.
As declarações de Imposto de Renda de Mansur mostram a rápida evolução do patrimônio e dos rendimentos declarados do empresário em um curto espaço de tempo.
Em 2020, ele recebeu lucros e dividendos que somaram R$ 31,1 milhões, de três empresas, conforme a declaração à Receita: RPN Partners, Copaca Consultoria Imobiliária e Lumabe Participações. Quatro anos depois, os ganhos somaram R$ 773,8 milhões.
A mesma evolução expressiva se deu com bens e direitos declarados no Imposto de Renda: R$ 41,5 milhões em 2020 e R$ 1,49 bilhão em 2024.
Na lista de bens estão as ações da Lurix Participações; cotas da Lumabe, no valor de R$ 27,6 milhões; aplicações financeiras; e depósitos em conta, inclusive no Reag Bank, no valor de R$ 500,2 mil.
A Reag era uma gestora e administradora de fundos de investimento. A unidade de administração, responsável pela tesourraria, controle de ativos, escrituração de cotas e auditoria independente de fundos, acabou liquidada pelo Banco Central, em 15 de janeiro, quase dois meses depois da liquidação do Banco Master, de Daniel Vorcaro, em novembro do ano passado. O braço de gestão de recursos foi vendido antes da liquidação da Reag.
A liquidação se deu por “comprometimento da situação econômico-financeira da corretora, bem como por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN [Sistema Financeiro Nacional]”, conforme o Banco Central.
Com a liquidação, o BC tornou indisponíveis os bens de controladores da Reag. Na lista, o órgão incluiu a Lurix, empresa que responde pela maior parte do patrimônio declarado de Mansur.
Pelos dados da Receita, a Lurix é uma sociedade anônima fechada, sediada na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. São sócios Mansur e familiares, e o capital social informado é de R$ 1,58 bilhão.
As ações na Lurix passaram a ser informadas na declaração do Imposto de Renda de 2023, ano em que foi constituída. O início das atividades se deu em 30 de novembro de 2023, conforme dados da Junta Comercial de São Paulo. Entre as atividades da empresa, conforme documentos da Junta Comercial, está a outorga de garantias fidejussórias a outras companhias.
Sem a empresa, o patrimônio de Mansur em 2022, por exemplo, foi de R$ 174,8 milhões.
No fim de 2025, a Reag tinha R$ 352 bilhões sob sua administração, na 11ª posição no país, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
A instituição foi decisiva na ciranda financeira organizada pelo Master para fraudes em carteiras de crédito, segundo investigações da PF (Polícia Federal) e do MPF (Ministério Público Federal). Ainda em 2024, fundos da Reag foram usados para aumento de capital do BRB (Banco de Brasília). As operações foram consideradas suspeitas pela PF.
A Reag é investigada também na Operação Carbono Oculto, que apura a atuação da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) no mercado financeiro, inclusive na Faria Lima.
Segundo as investigações, a Reag é suspeita de participação em esquema de ocultação de lucros ilícitos por meio de investimentos feitos. Fundos teriam sido usados para esquentar dinheiro do crime organizado, conforme a PF.
Em janeiro, a polícia cumpriu mandado de busca e apreensão em endereços de Mansur, num desdobramento das investigações sobre o caso Master.
Em 11 de março, convocado pela CPI do Crime Organizado, o ex-dono da Reag compareceu ao Senado para um depoimento –embora tenha falado pouco. Mansur negocia uma delação premiada no âmbito da Carbono Oculto; as tratativas são feitas com o Ministério Público de São Paulo.
Questionada pela reportagem, a defesa do empresário disse que não irá se manifestar.
Na CPI, Mansur disse que a Reag não era de fachada, não tinha investidores ocultos e foi penalizada por ser “grande e independente”. Ele negou ter relações com o crime organizado e disse que a Reag de fundos passou por um “rolo compressor”.
Até agosto, a Reag tinha 800 funcionários e quase 700 fundos, distribuídos em cerca de 350 grupos empresariais, conforme Mansur afirmou na CPI.
“Nosso departamento de compliance era muito forte, tinha 12 pessoas, o que não é normal numa companhia do mesmo segmento, e 18 pessoas no departamento jurídico”, afirmou.
Reportagem publicada pelo portal UOL, em 24 de fevereiro, mostrou a evolução do patrimônio declarado de Mansur entre 2019 e 2023 e uma análise da Receita sobre os bens do empresário.
Conforme a reportagem, Mansur pode ter sido laranja para operações criminosas. Existe ainda a suspeita de que ele tenha inflado o valor de lucros aferidos com suas empresas, que apresentaram ganhos presumidos bem inferiores, conforme as informações fiscais analisadas e reproduzidas na reportagem.
“O valor declarado como lucros e dividendos recebidos por João Carlos Mansur é uma fantasia, não possui origem nos rendimentos das suas empresas, supostas pagadoras dos rendimentos”, diz o relatório de análise fiscal, conforme a reportagem do UOL.
Fonte: Folha SP

