O lipedema é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo anormal e desproporcional de gordura, principalmente em pernas, quadris e, em alguns casos, braços. Frequentemente confundido com obesidade, o quadro vai além do excesso de peso e envolve dor, sensibilidade, inflamação e impacto significativo na qualidade de vida.
Diante disso, uma dúvida comum entre pacientes é: emagrecer resolve o problema? A resposta é não, mas é preciso entender por que essa relação é feita para evitar frustrações e buscar o tratamento adequado.
Lipedema não é obesidade
Apesar de poder coexistir com o sobrepeso, o lipedema não é causado pela obesidade. Trata-se de uma doença com forte influência hormonal e inflamatória, que altera o comportamento do tecido adiposo.
“O lipedema é uma doença inflamatória com forte ligação hormonal, que gera acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas e também nos braços. É importante destacar que o lipedema não é excesso de peso; na verdade, é uma gordura que dói, inflama e forma nódulos e nem sempre responde à dieta e aos exercícios”, explica Marcelo Bechara, médico clínico e cirurgião geral.
O especialista ressalta que a doença apresenta características próprias. “O lipedema apresenta um padrão, além de ter simetria e comportamento diferente da gordura comum. Por isso, tratá-lo como ‘falta de disciplina’ é um erro comum e injusto.”
Emagrecimento ajuda, mas não trata a causa do lipedema
A perda de peso traz benefícios importantes para a saúde geral e também pode contribuir para o controle de sintomas do lipedema. “A perda de peso é essencial para a redução de gordura de forma geral. O emagrecimento reduz a inflamação sistêmica, melhora a mobilidade, além de diminuir a sobrecarga muscular”, afirma o médico.
Ainda assim, o emagrecimento não elimina a gordura característica da doença nem impede sua progressão.
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Por que a gordura do lipedema é diferente?
No lipedema, a gordura apresenta alterações estruturais e funcionais que a tornam diferente da gordura comum e mais resistente à perda de peso.
“A gordura proveniente do lipedema tem características diferentes: ela é mais inflamada, mais fibrosa, provoca dores e está associada a alterações na microcirculação e no sistema linfático, além de apresentar maior resistência à lipólise”, explica Bechara.
Na prática, isso significa que o corpo responde de forma desigual ao emagrecimento. “Ainda que uma paciente perca peso, provavelmente a gordura do lipedema tende a permanecer. É muito comum que a paciente emagreça no tronco, rosto e abdômen, mas as pernas continuem desproporcionais, e isso não é falta de esforço, é biologia da doença.”
Tratamento vai além da balança
Sem cura definitiva até o momento, o tratamento do lipedema concentra-se no controle da inflamação, na redução dos sintomas e na melhora da qualidade de vida. A abordagem é multidisciplinar e envolve mudanças no estilo de vida e terapias de suporte, fundamentais para o controle da doença, mas que não removem a gordura do lipedema.
“Para o tratamento do lipedema, é necessário adotar estratégias como dieta anti-inflamatória, exercícios físicos, especialmente musculação e atividades aquáticas, uso de meias de compressão, suplementação e terapias que visem melhorar a circulação linfática e sanguínea”, orienta Bechara.
Em alguns casos, também pode haver indicação de abordagem hormonal, sempre com avaliação individualizada.
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Lipoaspiração específica: a abordagem que atua na gordura do lipedema
A lipoaspiração específica para lipedema é, atualmente, a principal abordagem capaz de remover o tecido adiposo doente, sendo indicada em casos selecionados, especialmente quando há dor persistente, limitação funcional ou impacto importante na qualidade de vida.
“Existe uma lipoaspiração específica para lipedema, que utiliza uma técnica adequada, preservando o sistema linfático”, explica o médico. Para ele, o objetivo vai além da estética: nesses casos, o foco é a funcionalidade.
A cirurgia não substitui os cuidados clínicos, mas atua diretamente na gordura afetada pela doença, algo que dieta, exercício e medicamentos não conseguem fazer.
Além da cirurgia, é possível associar outras abordagens ao tratamento. “Os análogos de GLP-1 e GIP, que imitam hormônios naturais do corpo, também podem ser uma alternativa”, afirma. Esses medicamentos podem auxiliar no controle metabólico e inflamatório, mas não substituem a remoção da gordura do lipedema e devem ser avaliados caso a caso.
O risco das promessas simplistas
Com a popularização do tema nas redes sociais, também aumentaram as promessas de soluções rápidas, muitas delas sem respaldo científico. A ideia de que “basta emagrecer” para tratar o lipedema é a mais comum e também uma das mais prejudiciais.
“Certamente, o maior risco é atrasar o diagnóstico e o tratamento corretos pois, fisicamente, a doença pode progredir, aumentando a dor, a inflamação e a limitação”, alerta Bechara.
O impacto emocional também é significativo: “Muitas pacientes passam anos se culpando, achando que não emagrecem por falha pessoal, quando, na verdade, têm uma doença não reconhecida. Isso gera frustração, baixa autoestima e até quadros de ansiedade e depressão”.
Emagrecer não é o fim, mas parte do caminho
A perda de peso deve ser vista como uma aliada importante na saúde global e no controle da inflamação, mas não como solução única para o lipedema. “Quando a paciente entende o diagnóstico, muda tudo: sai da culpa e entra no tratamento”, conclui o médico.
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