Um estudo inédito conduzido pelo A.C. Camargo Cancer Center analisou 5.559 casos diagnosticados entre 2000 e 2023 e identificou um crescimento consistente da doença ao longo das últimas duas décadas, especialmente entre pessoas de 30 a 39 anos.
Entre adultos com menos de 50 anos, o aumento médio anual foi de 7,6%, chegando a 8,5% na faixa de 30 a 39 anos. Já entre pessoas com 50 anos ou mais, a alta foi de 8,1% ao ano.
O dado chama atenção porque, até pouco tempo, pessoas abaixo dos 50 anos eram consideradas de baixo risco. Agora, esse grupo também passa a apresentar crescimento contínuo da doença. Esse padrão já foi observado em outros países, mas no Brasil ocorre ao mesmo tempo em que os casos aumentam entre os mais velhos.
Crescimento entre jovens muda perfil da doença
Um dos principais achados do estudo é a mudança no perfil do câncer colorretal. A doença deixa de estar concentrada apenas na população mais velha e passa a atingir, cada vez mais, adultos jovens.
Isso indica que o câncer colorretal não pode mais ser tratado como uma condição restrita ao envelhecimento.
“O crescimento consistente em pessoas com menos de 50 anos reforça a necessidade de ampliar a atenção para prevenção e diagnóstico precoce”, afirma Samuel Aguir, cirurgião oncológico.
Em países de alta renda, a incidência vem caindo entre pessoas acima dos 50 anos graças a programas estruturados de rastreamento. No Brasil, o cenário é diferente. O aumento ocorre em todas as faixas etárias.
Diagnóstico tardio ainda é comum
Apesar do avanço da doença, o diagnóstico precoce ainda é um desafio importante. No Sistema Único de Saúde (SUS), cerca de 65% dos casos são identificados em estágios avançados, o que reduz as chances de cura.
Na prática, isso significa que muitos tumores que poderiam ser detectados precocemente acabam sendo descobertos tarde, quando o tratamento é mais complexo e menos eficaz.
Segundo o estudo, esse cenário está ligado à baixa cobertura de rastreamento e às desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Essa combinação dificulta o diagnóstico no momento certo.
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Estágio da doença ainda define as chances de cura
A análise também avaliou a sobrevida dos pacientes e mostrou que o estágio do tumor no momento do diagnóstico continua sendo o principal fator de prognóstico.
Entre pacientes com menos de 50 anos, a sobrevida global em cinco anos foi de 72,7%, superior à observada em pessoas mais velhas, de 64,1%. Quando o câncer é identificado precocemente, nos estágios I e II, a taxa de sobrevida chega a 84,4%. Já em estágios avançados, III e IV, cai para 52,7%.
Ou seja, mesmo entre os mais jovens, o diagnóstico tardio ainda compromete significativamente as chances de tratamento bem-sucedido.
O que pode explicar o aumento entre jovens
As causas do crescimento do câncer colorretal em pessoas mais jovens ainda não estão totalmente esclarecidas, mas mudanças no estilo de vida das últimas décadas aparecem como principais suspeitas.
Segundo a dra. Ana Sarah Portilho, diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, a obesidade e o sedentarismo têm papel importante nesse cenário. “A obesidade favorece um estado inflamatório crônico e alterações metabólicas que estimulam a proliferação celular, criando um ambiente propício ao desenvolvimento do câncer”, explica.
Outro ponto importante é a alimentação. Hoje há maior consumo de ultraprocessados, carnes processadas e açúcar, além da baixa ingestão de fibras. Esse padrão está associado ao aumento da inflamação e à exposição a substâncias potencialmente carcinogênicas.
O desequilíbrio da microbiota intestinal também entra nessa equação. Alterações nas bactérias do intestino podem comprometer a resposta imunológica e favorecer processos inflamatórios. “Esse conjunto de fatores cria um ambiente favorável ao surgimento do câncer, inclusive em pessoas mais jovens”, afirma a especialista.
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Sintomas podem ser confundidos e ignorados
O câncer colorretal pode não causar sintomas nas fases iniciais. Quando aparecem, os sinais costumam ser inespecíficos e podem ser facilmente ignorados, especialmente por pessoas mais jovens.
Entre os principais sintomas estão:
- Alterações no hábito intestinal;
- Sangue nas fezes;
- Dor abdominal.
Outros sinais que merecem atenção incluem:
- Anemia sem causa aparente;
- Fezes mais finas;
- Sensação de evacuação incompleta;
- Urgência para evacuar;
- Presença de muco nas fezes;
- Cansaço persistente;
- Perda de peso inexplicada.
“A persistência desses sintomas deve sempre ser investigada, independentemente da idade”, alerta a especialista.
Rastreamento e prevenção são fundamentais
Diante do aumento da incidência, especialistas defendem a ampliação das estratégias de rastreamento no país.
Um dos principais exames é o teste de sangue oculto nas fezes (FIT), capaz de identificar sinais iniciais da doença. Quando o resultado é positivo, o paciente deve ser encaminhado para colonoscopia, que confirma o diagnóstico.
Além disso, algumas medidas ajudam a reduzir o risco:
- Manter uma alimentação rica em fibras;
- Reduzir o consumo de ultraprocessados;
- Praticar atividade física regularmente;
- Evitar o sedentarismo;
- Procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes.
Sem o fortalecimento dessas estratégias, a tendência é que o número de casos continue crescendo, inclusive entre pessoas cada vez mais jovens.
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