Promessas de cura para diabetes, soluções “definitivas” para artrite, tratamentos naturais que substituiriam medicamentos prescritos. Esse tipo de anúncio circula diariamente nas redes sociais, impulsionado como publicidade paga e, muitas vezes, usando a imagem de figuras conhecidas para transmitir credibilidade.
Entre 2 de abril e 2 de maio de 2025, pesquisadores do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coletaram 169.388 anúncios com termos ligados à saúde nas plataformas da Meta. Uma amostra de 6.579 peças foi analisada manualmente. Destas, 4.997 — 76% — foram classificadas como fraudulentas.
O relatório “Desinformação pode matar: anúncios com golpes, fraudes e desinformação em saúde nas plataformas da Meta” integra o projeto “Impactos da indústria da desinformação digital na saúde da população brasileira”, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Segundo os pesquisadores, o levantamento indica um padrão de anúncios que descumprem normas sanitárias, promovem produtos sem registro na Anvisa e permanecem ativos por períodos prolongados.
“O principal achado é a violação, em larga escala, de normas brasileiras que já existem. O Brasil já dispõe de marcos regulatórios e de diretrizes de conselhos profissionais”, afirma Nicole Sanchotene, pós-doutoranda e coordenadora de projetos do NetLab. Segundo ela, as regras vêm sendo “sistematicamente descumpridas”, enquanto os anúncios seguem circulando.
A pesquisa descreve como essas violações aparecem na prática. Nenhum dos 165 produtos promovidos nas peças analisadas tinha registro ativo na Anvisa — e, ainda assim, parte das campanhas usava o nome da agência para sugerir aprovação sanitária.
A promessa, quase sempre, vinha acompanhada de garantias absolutas. Quase todos os anúncios fraudulentos (97,6%) apresentavam o produto como “única solução eficiente” e com “resultados garantidos”, além de incentivar o uso sem orientação médica. Em 99,5% dos casos, havia promessa explícita de cura rápida e universal.
“Há promessas de soluções milagrosas, alegações de resultados garantidos e a ideia de que esses efeitos funcionariam para qualquer pessoa, desconsiderando completamente as diferenças individuais e a complexidade dos tratamentos de saúde”, explica Sanchotene. Para ela, o apelo não é casual: “trata-se de exploração direta da vulnerabilidade”.
Os temas mais frequentes também seguem um padrão. Problemas hormonais, sexuais e reprodutivos concentram 28,9% das campanhas fraudulentas. Perda de peso, diabetes, artrite, dores crônicas e “vista embaçada” aparecem como gatilhos recorrentes — condições que costumam mobilizar ansiedade, urgência e busca por solução rápida.
“O uso de termos mais amplos, como ‘dores’, amplia muito o alcance desses anúncios, porque permite que um número maior de pessoas se identifique com a mensagem de forma mais difusa”, afirma a coordenadora de projetos do NetLab.
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Credibilidade como estratégia
Mais da metade das fraudes identificadas pelo NetLab não se apoia apenas na promessa de cura, mas na autoridade de terceiros. Segundo o relatório, 63,7% dos anúncios fraudulentos recorrem ao uso indevido da imagem de especialistas, profissionais de saúde, celebridades ou figuras públicas.
Em 74,8% desses casos, houve manipulação de vídeos ou imagens — incluindo recursos de inteligência artificial — para simular entrevistas, depoimentos ou recomendações inexistentes.
Entre os profissionais de saúde, o nome mais explorado é o de Drauzio Varella. Ele aparece em 1.092 anúncios — 21,9% das fraudes identificadas na amostra.
“Trata-se de um uso deliberado da imagem e do nome de figuras públicas como forma de fabricar credibilidade para o conteúdo”, afirma Sanchotene.
As peças analisadas simulam entrevistas televisivas, reportagens jornalísticas ou recomendações médicas formais. Misturam termos técnicos com linguagem popular e apresentam narrativas que associam a suposta descoberta a laboratórios, pesquisas ou instituições conhecidas — mesmo quando não há qualquer vínculo real.
O efeito não se limita ao engano financeiro. Ele interfere diretamente na relação das pessoas com o cuidado em saúde.
“Muitos desses produtos não têm registro na Anvisa e não são cientificamente validados. Na prática, isso significa que usuários podem acabar ingerindo substâncias ou adotando tratamentos que não foram devidamente testados”, explica Sanchotene.
O relatório aponta como possíveis consequências: incentivo à automedicação, abandono ou negligência de tratamentos convencionais, atraso no diagnóstico de doenças crônicas e agravamento de quadros clínicos. Há ainda impactos psicológicos e financeiros.
Para a pesquisadora, há um efeito mais amplo: a deterioração do ambiente informacional. “Esse tipo de conteúdo amplia a circulação de informações de baixa qualidade e contribui para uma desconfiança generalizada por parte da população.”
Diante da circulação recorrente desses anúncios, o médico Drauzio Varella vem publicando alertas em suas redes sociais e no Portal Drauzio Varella para orientar o público sobre o uso indevido de sua imagem em golpes digitais. Em diferentes vídeos, ele explica que anúncios que prometem curas rápidas ou tratamentos naturais associados ao seu nome são falsos.
Segundo o NetLab, cerca de 168 mil anúncios fraudulentos usando vídeos manipulados com a imagem do médico circularam em sete meses.
No mesmo pronunciamento, Drauzio chama atenção para o direcionamento dessas campanhas, especialmente contra pessoas idosas: “Esses vídeos falsos são feitos para enganar justamente quem tem experiência de vida, quem confia nas pessoas”.
O uso reiterado da imagem de médicos reconhecidos mostra, segundo o relatório, que a fraude não depende apenas de desinformação genérica, mas da apropriação sistemática de reputações consolidadas.
Da publicidade ao aplicativo de mensagens
A dinâmica identificada pelo NetLab não termina no anúncio patrocinado. Segundo o relatório, 85,7% das peças fraudulentas direcionavam os usuários ao WhatsApp. O anúncio funciona como porta de entrada; a negociação e a venda ocorrem no aplicativo de mensagens.
Os pesquisadores descrevem esse fluxo como um circuito interno à própria infraestrutura da empresa, no qual a fraude “nasce, circula e se concretiza” dentro das plataformas da Meta.
“Esses anúncios, muitas vezes claramente fraudulentos e promovidos por anunciantes suspeitos, nem deveriam ter sido aprovados em primeiro lugar”, afirma Sanchotene. “Mas, mesmo quando passam pelos sistemas da plataforma, o mínimo esperado seria uma moderação rápida e efetiva — e não é isso que observamos.”
Segundo ela, o problema não está apenas na remoção tardia, mas na aprovação inicial e na reincidência.
Como os anunciantes operam
O levantamento identificou padrões recorrentes entre os responsáveis pelas campanhas. Anunciantes costumam publicar múltiplas versões de um mesmo anúncio para driblar sistemas de controle. Em média, foram encontradas cerca de sete variações por anúncio fraudulento, enquanto campanhas legítimas costumam apresentar aproximadamente três. A multiplicação permite que, quando uma versão é retirada do ar, outra continue ativa.
As contas que promovem essas campanhas costumam ser recém-criadas, sem seguidores e com pouca ou nenhuma atividade orgânica. Muitas utilizam nomes genéricos ou se apresentam como “dr.” ou “dra.” seguidos de nomes comuns, sem número de registro profissional ou identificação verificável.
“Hoje, para anunciar, basta ter uma conta ativa e um meio de pagamento, sem uma verificação robusta de identidade ou de idoneidade”, afirma a pesquisadora. Para ela, esse modelo facilita a criação de perfis descartáveis e dificulta a responsabilização.
A pesquisa aponta que essa permissividade não se limita à entrada de anunciantes. Ela se estende ao tempo de resposta da moderação. O estudo encontrou anúncios ativos, em média, por cerca de 30 dias — e identificou casos em circulação desde 2022.
“Esse dado é particularmente preocupante porque mostra que o tempo de resposta para moderação é longo demais. Até que alguma ação seja tomada, um volume muito grande de pessoas pode já ter sido exposto”, completa.
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Segmentação e alcance
A infraestrutura publicitária das plataformas também é parte central do problema.
“Esses fraudadores acabam se apropriando de uma infraestrutura sofisticada, baseada em dados em larga escala que as plataformas coletam continuamente de todos os seus usuários, para direcionar seus conteúdos a públicos mais vulneráveis”, explica Sanchotene.
Quando associada a temas como diabetes, disfunções hormonais ou dores crônicas, a segmentação permite que os anúncios sejam exibidos para pessoas que já pesquisaram ou interagiram com conteúdos relacionados a essas condições.
No episódio “A máquina de Drauzios falsos“, do podcast Ciência Suja, estimativas baseadas em dados do NetLab indicam que cerca de 760 mil anúncios fraudulentos na área da saúde podem ter sido veiculados nas plataformas da Meta em apenas sete meses.
O alcance exato, no entanto, é difícil de medir. A Biblioteca de Anúncios da Meta só disponibiliza dados detalhados de campanhas classificadas como “sensíveis” — como as ligadas a temas políticos ou sociais — e essa classificação depende da autodeclaração do anunciante.
“Quando um anúncio não é classificado como sensível, não há estimativas públicas de alcance, valor investido ou segmentação”, afirma Sanchotene. “Isso impede que pesquisadores, autoridades e a sociedade dimensionem o problema com precisão.”
Receita e resposta da empresa
Uma investigação da Reuters, baseada em documentos internos da própria Meta, revelou que a empresa estima que cerca de 10% de sua receita publicitária pode estar ligada a anúncios fraudulentos ou produtos ilícitos.
A Meta não respondeu aos questionamentos enviados para esta reportagem.
A ausência de resposta se soma a episódios anteriores. Em junho de 2024, após a divulgação de outro estudo do NetLab sobre fraudes em anúncios, a empresa atacou publicamente a metodologia da pesquisa — episódio registrado pelo portal Núcleo Jornalismo.
Em dezembro de 2025, a Meta enviou ao mesmo podcast Ciência Suja – para o episódio “A máquina de Drauzios falsos” –, outro posicionamento, afirmando que “as tentativas de golpes têm aumentado em escala e complexidade” e que a empresa estaria intensificando medidas para coibir golpes e capacitar usuários. Também afirmou ter removido mais de 134 milhões de conteúdos de anúncios fraudulentos e que as denúncias dos usuários caíram mais de 50% nos últimos 15 meses.
É nesse cenário que o médico Drauzio Varella decidiu publicar um alerta direto ao público em parceria com o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e o NetLab. No vídeo, ele afirma:
“Eu nunca indiquei medicamento milagroso. Nunca vendi tratamento natural. Nunca pedi para alguém clicar em link ou mandar mensagem para comprar qualquer coisa.” O médico também chama atenção para o uso direcionado dessas fraudes, especialmente contra idosos: “Esses vídeos falsos são feitos para enganar justamente quem tem experiência de vida, quem confia nas pessoas”.
Segundo o NetLab, cerca de 168 mil anúncios fraudulentos usando vídeos manipulados com a imagem de Drauzio circularam em sete meses. O alerta não foi apenas uma defesa pessoal, mas um chamado para denunciar e pressionar por mudanças regulatórias.
No vídeo citado acima, ele menciona a necessidade de responsabilização das plataformas e defende ajustes no Projeto de Lei 2338, que regula a inteligência artificial no Brasil, para classificar como de alto risco sistemas automatizados que direcionam publicidade em larga escala quando ampliam golpes e fraudes.
A discussão sobre responsabilidade ganhou novo fôlego após o Supremo Tribunal Federal (STF) declarar a inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que condicionava a responsabilização das plataformas ao descumprimento de ordem judicial específica para remoção de conteúdo. Com a decisão, as empresas passaram a poder ser responsabilizadas civilmente também em situações em que, mesmo sem ordem judicial prévia, deixam de agir diante de conteúdos ilícitos ou manifestamente irregulares.
Os dados do relatório do NetLab, porém, mostram que anúncios com padrões identificáveis continuam sendo aprovados e permanecem ativos por semanas ou meses.
Para o NetLab, a mudança abre espaço para discutir o dever de cuidado das empresas na veiculação de anúncios pagos — especialmente quando há evidências de circulação sistemática de fraudes.
Sanchotene afirma que o Brasil já possui normas para publicidade médica e para propaganda de produtos de saúde. O desafio, segundo ela, é garantir que essas regras sejam efetivamente aplicadas no ambiente digital.
“Sem mecanismos robustos de fiscalização e transparência, não é possível dimensionar a escala do problema, identificar os responsáveis ou acompanhar padrões de reincidência”, diz.
Entre as medidas consideradas essenciais pelos pesquisadores estão: exigência de verificação de identidade e idoneidade dos anunciantes; criação de repositórios públicos com dados detalhados sobre campanhas publicitárias; manutenção histórica dessas informações mesmo após a remoção dos anúncios; e aplicação efetiva de responsabilização quando houver lucro associado à circulação de conteúdo ilícito.
Enquanto o debate jurídico avança, os dados indicam que o modelo atual permite que anúncios com promessas de cura rápida, produtos sem registro sanitário e vídeos manipulados continuem a ser aprovados, direcionados e convertidos em vendas dentro das próprias plataformas.
Em fevereiro de 2026, a Meta informou que ingressou na Justiça contra anúncios que utilizam indevidamente a imagem de Drauzio Varella para aplicar golpes relacionados à saúde. O médico afirmou que a medida é positiva, mas insuficiente diante da dimensão do problema. “É uma gota d’água em um oceano de estelionato contra a saúde”, disse em entrevista ao jornal O Globo.
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