Consumir leite cru oferece riscos à saúde?

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Consumir leite cru oferece riscos à saúde?

O consumo de leite não pasteurizado, popularmente conhecido como leite cru, voltou a ganhar visibilidade, impulsionado principalmente por conteúdos compartilhados nas redes sociais. No TikTok, vídeos com a hashtag “raw milk” (leite cru) acumulam milhões de visualizações e despertam curiosidade ao apresentar a bebida como uma alternativa supostamente “mais natural”.

No entanto, especialistas alertam para os riscos à saúde associados a esse tipo de consumo. No Brasil, a comercialização de leite não pasteurizado é proibida desde 1969, devido ao risco de transmissão de doenças causadas por microrganismos presentes no alimento in natura.

“Muitos consumidores associam alimentos ‘naturais’ ou minimamente processados à ideia de que são automaticamente mais saudáveis. É uma percepção comum, mas que nem sempre se sustenta à luz das evidências científicas. O leite cru não apresenta vantagens nutricionais comprovadas em relação ao pasteurizado, e seu consumo envolve riscos reais à saúde pública”, explica Ícaro Cazumbá, nutricionista e conselheiro do Conselho Federal de Nutrição (CFN). 

 

Quais os riscos de consumir leite cru? 

O leite cru não passa pela pasteurização, processo térmico que visa eliminar microrganismos nocivos. Durante a pasteurização, o leite é aquecido a uma temperatura específica por um determinado período e, em seguida, resfriado rapidamente. Esse procedimento reduz a presença de bactérias e outros agentes infecciosos sem comprometer o valor nutricional do alimento. 

“A contaminação do leite por vírus, bactérias e parasitas pode ocorrer em várias circunstâncias durante a sua produção. Há diversos surtos no mundo que já foram documentados. Nenhum método artesanal de boas práticas consegue substituir a pasteurização do leite”, explica Emy Gouveia, infectologista do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.

Quando consumido sem esse tratamento, o leite pode conter microrganismos adquiridos durante a ordenha, no contato com o ambiente ou no armazenamento da bebida. Entre os principais agentes infecciosos que podem estar presentes, destacam-se:

  • Salmonella: bactéria que pode provocar gastroenterite aguda. A infecção costuma causar diarreia intensa, febre, náuseas, vômitos e dor abdominal. Em casos mais graves, pode levar à desidratação e exigir internação hospitalar;
  • Escherichia coli: microrganismo que pode desencadear infecções intestinais. Algumas variantes produzem toxinas capazes de causar diarreia com sangue e cólicas intensas;
  • Listeria monocytogenes: bactéria associada à listeriose, infecção que pode se manifestar com febre, dores musculares e sintomas gastrointestinais;
  • Brucella: agente da brucelose, doença que pode causar febre persistente, sudorese, fadiga, dores articulares e musculares. Se não tratada adequadamente, pode evoluir para quadros crônicos e afetar diferentes órgãos, exigindo tratamento prolongado com antibióticos.

Veja também: Intoxicação alimentar: saiba quais alimentos são perigosos e como evitar contaminações

 

Grupos mais vulneráveis

Embora qualquer pessoa possa desenvolver uma infecção ao ingerir o alimento sem pasteurização, alguns grupos específicos têm maior risco de complicações. Nesses casos, as consequências podem ser mais graves. De modo geral, os grupos que exigem mais atenção são:

  • Crianças pequenas: como o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento, infecções podem evoluir com diarreia e vômitos intensos;
  • Gestantes: infecções como a causada pela Listeria monocytogenes podem afetar a mãe e o bebê, com risco de parto prematuro ou outras complicações;
  • Idosos: muitos apresentam a imunidade reduzida, o que tende a provocar sintomas mais intensos e a recuperação mais lenta;
  • Pessoas imunocomprometidas: pacientes em tratamento oncológico, transplantados, que vivem com HIV ou com doenças que afetam o sistema imune têm maior probabilidade de desenvolver quadros graves;
  • Indivíduos com doenças gastrointestinais prévias: quem já tem o intestino sensível ou inflamações intestinais pode apresentar piora importante dos sintomas diante de uma infecção alimentar.

“Esses grupos são mais vulneráveis porque o sistema imunológico está menos eficiente ou imaturo. Crianças e idosos podem apresentar quadros graves de desidratação, muitas vezes com necessidade de internação”, complementa Gouveia. 

 

Por que o leite pasteurizado continua sendo a opção mais segura?

Ao longo das últimas décadas, evidências científicas têm associado o consumo de leite cru a riscos à saúde. Os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), agência de saúde pública dos Estados Unidos, relacionam o produto a surtos de doenças transmitidas por alimentos. Entre 1998 e 2018, mais de 200 surtos ligados ao consumo de leite cru foram registrados no país.

Já a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador norte-americano responsável pela segurança de alimentos e medicamentos, afirma que não há comprovação de vantagens nutricionais em relação ao pasteurizado e destaca que a pasteurização reduz microrganismos perigosos sem comprometer nutrientes como proteínas, cálcio e vitaminas. 

No Brasil, o Ministério da Saúde mantém a recomendação de evitar o consumo do produto sem pasteurização, destacando que o processo é uma estratégia consolidada de prevenção de doenças. Portanto, o consenso científico atual indica que a pasteurização continua sendo a forma mais segura de disponibilizar leite para a população.

“Não há benefício comprovado de que o consumo de leite cru compense o risco. Por isso, a recomendação de profissionais de saúde e de entidades da área é clara: o leite  pasteurizado é a opção mais segura para todos”, finaliza Cazumbá. 

Veja também: É possível desenvolver intolerância à lactose em qualquer idade?

 

Principais mitos sobre o leite cru

  • É mais nutritivo que o pasteurizado: apesar da fama de “mais natural”, o leite cru não demonstrou ter valor nutricional superior ao pasteurizado. Estudos indicam que proteínas, cálcio e vitaminas permanecem praticamente intactos após a pasteurização;
  • É mais fácil de digerir: a ideia de que o leite cru seria mais leve para o estômago não encontra respaldo consistente na ciência. A tolerância ao leite varia de pessoa para pessoa e não depende, necessariamente, de ele ter passado pela pasteurização;
  • Cura a intolerância à lactose: a intolerância à lactose ocorre pela dificuldade do organismo em digerir esse açúcar do leite, que continua presente na versão crua. Ou seja, trocar o pasteurizado pelo cru não elimina o desconforto causado pelo leite em quem tem a condição;
  • Trata asma e alergias: circulam nas redes sociais relatos de que o leite cru poderia proteger contra alergias ou problemas respiratórios. No entanto, faltam estudos clínicos robustos que confirmem esse suposto benefício;
  • Previne melhor a osteoporose: quando o assunto é saúde óssea, o que importa é o aporte adequado de cálcio e vitamina D, que são nutrientes encontrados também no leite pasteurizado. Não há evidências de que a versão crua ofereça vantagem extra na prevenção da osteoporose;
  • Fortalece a imunidade: outra promessa comum é a de que o leite cru reforçaria as defesas do organismo. Até o momento, a literatura científica não sustenta essa afirmação. A ausência de pasteurização pode expor o consumidor a bactérias nocivas.



Fonte: Minha vida, Dr. Drauzio Varella

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