O relógio que mede a velocidade da corrida e desenha o percurso que uma pessoa realizou é uma ferramenta de monitoramento da saúde. Atualmente, existem vários dispositivos como esse, como pulseiras, anéis, adesivos e até roupas inteligentes.
Além de medir a intensidade de uma atividade física, os chamados wearables podem avaliar a frequência, o ritmo e a pressão cardíaca; a duração, os estágios e a eficiência do sono; a saturação de oxigênio; os picos glicêmicos; a distribuição de nutrientes ingeridos em uma refeição; entre muitos outros sinais que o corpo dá sobre o seu estado de saúde.
Os dados são muitos e podem assustar quem usa os dispositivos, principalmente se o indivíduo não souber como ler a enorme quantidade de informações. E quando os dados geram ansiedade, pode ser a hora de repensar sua relação com a tecnologia.
Dados sozinhos não significam diagnóstico
“O relógio fornece dados, mas a informação não exclui a percepção. Muitas pessoas chegam ao consultório dizendo: ‘Eu dormi bem, mas o relógio mostrou que não’. A própria antecipação de ‘vi aqui que meu sono foi ruim’ às vezes impede a pessoa de dormir bem na noite seguinte”, exemplifica Alessandra Rascovski, endocrinologista e autora do livro Atmasoma: O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.
O algoritmo também influencia. Em geral, os cálculos dos wearables consideram que o período de sono acontece entre 0h e 6h. Portanto, se a pessoa trabalha de madrugada e dorme durante o dia, os resultados podem ser negativos.
“Os wearables acumulam os dados. Se eu dormir muito mal em uma noite e bem nas outras, ele avalia a média. E as pessoas, muitas vezes, se apegam ao dado do momento. O que você tem que pensar é na tendência”, explica a médica.
Apesar de serem bastante autoexplicativas, essas ferramentas podem contar com a ajuda de um profissional. Nos preparativos para uma maratona, por exemplo, um especialista na área estará capacitado para interpretar a frequência cardíaca, a saturação respiratória, o gasto calórico e vários outros dados de forma a indicar treinos cada vez mais eficazes.
Como não exagerar na autocobrança?
“Mas concorda que isso também pode ser algo muito assustador [se usado] o tempo inteiro? É aí que entra o emocional e o racional das coisas. Hoje em dia, cada aplicativo novo é melhor que o anterior. E tem essa coisa da dopamina, do imediatismo, de querer tudo que todo mundo tem. A gente tem que pensar como fazer para não cair do outro lado”, alerta Rascovski.
A partir do momento que os dados deixam de gerar entendimento e passam a estimular o perfeccionismo, é preciso dar alguns passos para trás. As dicas são:
- Desative notificações de “completar círculos”: lembretes automáticos podem gerar mais ansiedade, como aqueles que dizem para caminhar ou queimar calorias;
- Personalize metas: se dar 10 mil passos por dia é irreal para a sua rotina, ajuste para algo que faça sentido no seu dia a dia;
- Foque em 3 a 5 métricas principais: na página inicial do aplicativo, deixe apenas o que importa. Se o número de “calorias queimadas” lhe causa ansiedade, exclua. Foque no que realmente fará diferença para o seu acompanhamento;
- Acompanhe as médias: não foque em métricas diárias, analise os dados por semana ou mês para não deixar que dias ruins o desanimem;
- Dê um descanso do wearable: separe um momento do dia ou um dia da semana para ficar sem a ferramenta, dando um alívio para a mente;
- Valorize mais a sua sensação: antes de acordar e olhar para as métricas, pense em como você realmente está se sentindo.
“Os wearables mostram tendência e são ferramentas de autoconhecimento. Mas não podem gerar ansiedade. Se eles gerarem hipervigilância, você perdeu o benefício”, conclui a especialista.
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